Universo da obra
Universo da obra
Uma verdadeira colmeia borborejante de atividade útil, onde mil e oitocentas alunas estudam admiravelmente, guiadas por um professorado de notável competência, a Escola Complementar de Porto Alegre! A casa, muito grande, parecia-me pequena para conter o imenso número de meninas e de moças que eu vi hoje espalhadas pelas suas galerias, salas e corredores.
Alguém que me acompanha, e tem deste notável estabelecimento de ensino um conhecimento profundo, assevera-me que nele o estudo não representa, como em muitas escolas do país, uma simples formalidade, aparência ilusória de instrução sem base séria, mas que nele se aprende de verdade, e se ensina com entusiasmo. Esta escola é o verdadeiro viveiro de todas as outras do interior do Estado, a mãe benigna e fecunda que espalha por todas as povoações doces mestras esclarecedoras e amáveis.
Como o dia era de festa, não sei a que jardins de espantosa uberdade tinham ido buscar as rosas e as violetas que alcatifavam o chão, enchiam as jarras, transbordavam de todos os vãos, como se a inesgotável flora as fizesse brotar até do estuque das paredes, e das frinchas do soalho.
Ao fulgor da mocidade casava-se a toada das músicas. Noto, com prazer muito especial, que no Rio Grande do Sul gostam de cantar. Sempre que há um pretexto para um hino, ninguém pede licença à casmurrice para o fazer ouvir.
No salão principal surpreende-me a maneira eloquente e torrentosa por que um poeta baiano e lente de pedagogia, Snr. Henrique de Casaes, estuda e critica a obra de um escritor patrício ali presente. Mais uma vez vejo manifestado assim esse fascinante dom da palavra, tão característico do torrão nortista de que o orador é filho,
Calado o poeta, rompem de novo os cantos. É toda a alma da mocidade rio-grandense que vibra alegremente, desassombradamente, nessas notas de júbilo e de patriotismo de que mal posso dar uma impressão nesta página banal.
Banalidade. que importa! Este não é um livro de literatura; é, a bem dizer, um diário de impressões. A sinceridade é a sua virtude; o estilo a sua menor preocupação. Quem o ler saberá que impressão causaram em um forasteiro no ano da graça de 1918, num dos invernos mais ásperos do Sul, as populações e as terras do Rio Grande, onde, ele mesmo, se voltar um dia, verá talvez tudo já de outro modo, e com outro espírito, tão vária é a vida e tão fulgurantes os contrastes que o Tempo imprime às coisas em cada uma das suas passadas vertiginosas.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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