Universo da obra
Universo da obra
Destino hoje o meu dia à intelectualidade de Porto Alegre: visito os seus jornais, as suas revistas, a sua biblioteca.
Nada me pôde interessar mais vivamente: lamento apenas não poder enramalhar num rápido momento tudo quanto de melhor se tenha escrito até aqui no Rio Grande, para de um fôlego me sentir penetrada de toda a sua vida espiritual. É tamanho o nosso país, conhecemo-nos tão pouco uns aos outros que, longe do meio em que cada qual gravita em torno de aptidões já celebradas, haverá outras aptidões talvez notáveis e de si pouco ou nada conhecidas.
A caminho das redações, pergunto pelo movimento dos jornais. Respondem-me que é grande. Há muitas folhas e toda a gente tem o hábito de ler.
— Toda a gente?
— Quase toda.
— Ainda assim!
De fato, tenho visto muitas pessoas na rua com livros na mão. É sintomático: isto basta para criar no forasteiro a impressão de que está em uma terra de inteligência, em uma terra de estudo.
No Rio, onde a vida tem uma intensidade exaustiva, o prazer incomparável da leitura é estragado por inúmeros acidentes que a perturbam; aqui nesta cidade tranquila, e de clima propício a todas as atividades deve-se ler admiravelmente.
O meu excelente amigo Américo Moreira, antigo jornalista e homem de letras que em tempos da mocidade queimou cartuchos na defesa dos grandes ideais da abolição e da República, acompanha-me gentilmente nesse meu peregrinar de redação em redação. Os dois grandes jornais de opinião pública são a "Federação", órgão republicano governista, e o "Correio do Povo", folha importante, muito popular e ao que me parece perceber imparcial, se não francamente oposicionista. Tanto melhor. Já o inefável Conselheiro Acácio deveria ter dito que todo governo precisa de oposição como toda a literatura precisa de crítica. O essencial é que tanto uma como outra sejam exercidas com nobreza. Também a não ser assim toda a sua ação seria contraproducente.
Há entre os vários periódicos que visito, um "A Notícia", que me interessa pela sua feição de mocidade: é a casa dos novos, cuja porta, ao que me contam, se abre de par em par a quem tenha talento, embora sem nome nem apresentações especiais. Conquanto os que começam tragam geralmente nas mãos mais espinhos do que rosas para todos aqueles que já no caminho das letras tenham conseguido alguma coisa pelo seu talento ou por grandes energias de vontade, é sempre para estes motivos de júbilo ver surgir no mesmo campo das suas labutações novos semeadores dos mesmos ideais.
Ao descer da escada reparo que o meu amigo consulta disfarçadamente o seu relógio. Compreendo: devo abreviar, porque o dia aqui tem o mesmo mau costume dos dos outros lugares: o de não esperar por nós, — e teremos ainda de subir a ladeira que nos conduzirá à Biblioteca Pública, na cidade alta. Mas, é mais forte do que eu, esta coisa que me faz parar em frente aos mostradores das livrarias, atraída pela tentação da novidade literária. Na vitrina que vejo a poucos passos há nada menos de três obras novas: "Vultos do Meu Caminho", livro de crítica, revelador de observação, cultura e elegância intelectual de João Pinto da Silva; uma peça em três atos, intitulada "Gente Alegre", do jornalista Emílio Kemp; e "Terra Convalescente", de Mansueto Bernardi, volume de versos em que se sente toda a alma de um verdadeiro poeta.
Três livros novos em tão poucos dias não deve ser acontecimento comum na capital rio-grandense, não o é mesmo em parte alguma, tanto mais que, cada uma dessas obras pertence a um gênero diferente — teatro, poesia e crítica literária.
E não tocam os sinos?
Do mostruário à porta da livraria há apenas poucos centímetros; já agora não resisto, entro e pergunto por algum novo trabalho de Zeferino Brasil, o nosso Cesário Verde, o original poeta rio-grandense da "Vovó Musa" — em que o sentimento palpita entre a graça fina da forma e a ironia esperta do pensamento imprevisto.
Respondem-me que ele trabalha agora ferozmente, delirantemente, em um volume de prosa e em outro rimado.
Espera-se um romance!
— E para conhecer-se esse senhor?
— É difícil.
— Por quê?
— Ele não gosta de fazer nem de receber visitas. Isola-se do mundo para escrever. A família defende-o dos assaltos.
Assim, nenhuma esperança?
Estou na — Livraria Globo — um estabelecimento importantíssimo, com vários andares, a que eles chamam, à espanhola — pisos, com ascensores, subterrâneos, oficinas de impressão, de gravuras, depósitos e salões repletos de brochuras e publicações de todo o gênero.
Esta casa, fundada por um português de nome Barcelos e dirigida atualmente pelo seu filho e um sócio italiano de grande descortínio Sr. Bertaso, é, bem como a casa Chaves, também de origem portuguêsa, e do maior prestígio em todo o Sul, uma demonstração viva de que o alto comércio riograndense não está todo em mãos dos alemães, como se propalava.
Exulto; uma capital que além de sustentar várias livrarias importantes, como a Echenique e outras, dá tanta vida a esta do Globo que é das mais ricas do Brasil, é uma capital que lê, é uma capital civilizada.
Esta impressão acentua-se em mim ao entrar na sua Biblioteca Pública.
Montada em edifício propositadamente construído, adornado com a figura de Minerva e outras figuras representativas das principais fases da civilização e da preparação da Humanidade, conforme o calendário de Augusto Comte; com boas salas de leitura e de secretaria e livros carinhosamente tratados, a Biblioteca de Porto Alegre não tem ainda o ambiente sugestivo das casas antigas, trespassadas de alma e espiritualidade, mas tem certo conforto e elegância.
A maior e melhor prova da sua utilidade, é saber-se que a sua frequência mensal atinge a um elevadíssimo número de leitores, segundo me informa o Sr. Victor Silva, seu diretor, o qual com Eduardo Guimarães, o poeta rio-grandense da Divina Quimera e seu auxiliar na doce faina bibliotecária, catalogou pelo sistema americano — bibliográfico decimal, todos os livros a seu cargo. Suponho ter sido ele a primeira pessoa a pôr em prática esta disciplina no Brasil.
Percorrendo comigo o salão dos livros e fazendo folhear grandes edições de luxo o Sr. Victor Silva, antigo poeta, mais de uma vez premiado em concursos literários, expôs-me a ideia que tem de fazer construir um dia, na parte nova do edifício, um grande salão completamente consagrado ao divino Dante. Nesse compartimento, portas, teto, janelas, lâmpadas, tapetes, mobiliário e decorações, serão feitos de acordo com o estilo do tempo do grande Florentino cuja estátua figurará, no lugar de honra, entre painéis que reproduzam suas ideias e suas imagens maravilhosas.
Não ouso interromper o devaneio, mas penso, de mim para mim, que isso só poderia ser feito com beleza por artistas geniais.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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