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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 7 · Jornadas no meu país

Capítulo VII

7 de 37 ≈ 6 min de leitura

Sinto-me, neste momento, dentro do cérebro de Porto Alegre, que é a parte onde nesta cidade se agrupam em grandes edifícios próprios as suas escolas preparatórias e superiores. Poder-se-à, por isso, denominá-la — Vila ou Sede da Inteligência — sem que o nome parecesse a ninguém eivado de pedantismo. Começo a minha visita pela circunvolução das matemáticas, pelas quais a minha admiração é tão profunda e tão vasta quanto a minha incapacidade de as compreender é imensa!

Subo as escadas da Escola de Engenharia pelo braço do seu ilustrado Diretor, Sr. General Barreto Viana, que não cessa de me dar provas da sua amabilidade esclarecedora, fazendo-me a descrição histórica do estabelecimento, corpo central de que se ramificam seis institutos que lhe são subordinados, mas que tem cada um deles a sua vida autônoma: os Institutos Ginasial Júlio de Castilho, Astronômico e Meteorológico, Técnico Profissional, Eletrotécnico, de Agronomia e Veterinária e Gabinete Técnico.

Depois de um pequeno repouso no salão de honra, eis-me em romaria por corredores, aulas, laboratórios, bibliotecas e arquivos, salas de diretoria, secretaria e congregação.

Assisto a um continuado abrir e fechar de portas, da liberdade dos corredores para os recintos silenciosos das aulas vazias, mas em cujo ambiente, entretanto, me parece sentir ainda a temerosa incógnita dos X. X.

As ideias que se cristalizam em palavras deixam sempre no espaço em que são debatidas uma vaga irradiação do seu sentido. É essa coisa invisível, mas sensível, que dá encanto às casas velhas, verdadeiros túmulos de almas.

O diretor adivinha a minha abstração e apressa-se em conduzir-me ao Ginásio Júlio de Castilhos.

Tenho neste Instituto o vaidoso prazer de ver um livro meu adotado particularmente por duas das suas professoras principais e verdadeiras evangelisadoras das letras e da instrução: as ilustradas rio-grandenses Camila Furtado Alves e Pepita Leão.

Tem este fato a importância de fazer a criançada olhar para mim com simpatia. Leio-lhes nos grandes olhos escuros e doces que já eram minhas amigas mesmo antes de me conhecerem. Esta certeza faz-me bem ao coração.

Sem nenhuma competência especial que possa determinar da minha parte um juízo apreciável sobre assunto de natureza tão complexa como o organismo dos grandes estabelecimentos de ensino, eu procuro apenas fixar nestas ligeiras páginas de "croquis" a lápis, as exterioridades das coisas por que passo. Não me sorriem vagares para fazer estudos profundos nem compulsar relatórios, mesmo por que a ter de ler alguma coisa, prefiro ler Shakspeare, com quem me considero sempre em atrazo.

Assim, deixo generosamente as das estatísticas para os profissionais de secretaria e vou traçando as minhas impressões pessoais sobre as lindas terras do Rio Grande do Sul, sem remorsos porque são sinceras, embora sem o peso de exposições documentadas que lhe dariam valor mais apreciável.

Desprevenida, entro no Ginásio Júlio de Castilhos, na hora da saída para o almoço. Em Porto Alegre, todos os trabalhos sofrem uma interrupção das onze horas ao meio-dia. Fecham-se então as portas do comércio e as dos colégios.

As ruas têm espreguiçamentos de sono e de tédio, na moleza do abandono e da sesta. Tenho, porém, ainda tempo para observar os magníficos exemplares de boa raça gaúcha, representados nestas crianças em que predomina o tipo moreno-claro, de olhos e cabelos castanhos. Além de bonitas, revela-se no seu modo e no seu vestuário a simplicidade correta das boas normas educativas.

Ao zumbir das vozes das crianças junta-se agora, vindo de fora, do ar livre, o som alegre de uma banda no — Amor Febril — que é a música mais popular aqui, nesta estação. Quem toca são os rapazinhos do Instituto Parobé, — que é o do ensino técnico profissional mantido pela Escola de Engenharia para proporcionar gratuitamente aos meninos pobres uma educação teórica e prática. Nenhuma das várias secções da escola me pôde ser mais simpática. Ela não representa só a inteligência e a ciência, mas também a equidade e o coração.

Não é por mera sentimentalidade, entretanto, nem só pelo espírito de justiça que eu, governo, favoreceria especialissimamente os estabelecimentos desse gênero; mas pela ideia de que é com os pobres que os povos devem contar de preferência para o progresso e a felicidade do seu país.

Atravesso um jardim e um pátio, por entre alas de alunos bem uniformizados e sorridentes, e penetro, comovida e alegre, nas aulas e nas oficinas. Elas ainda fremem no calor do trabalho interrompido. Passo pelas secções das construções mecânicas, construções metálicas, trabalhos em madeira, artes gráficas, tipografia, encadernação, litografia, eletroquímica e artes de pintura decorativa, escultura e modelagem em barro, onde me obsequiam com dous vasos artísticos para plantas e adorno de mesa.

Como me disponho a ver as coisas com maior minúcia, lembram-me que não tenho tempo às minhas ordens. E, francamente, é do que eu tenho pena. Se esse senhor me obedecesse, o que eu faria!

Entro no Instituto Astronômico e Meteorológico, de que é um dos diretores um discípulo diplomado e premiado pela Escola de Engenharia; ouço coisas interessantes sobre climatologia, previsões do tempo, e belezas do céu rio-grandense; vejo mapas, cartas, instrumentos, subo as escadas do Observatório e torno a descê-las, com a convicção de que tudo aquilo está muito bem organizado e a tristeza, que talvez pareça absurda, de não poder admirar estrelas ao meio-dia!

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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