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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 8 · Jornadas no meu país

Capítulo VIII

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Lembrar-me-ei sempre, meus amigos, desta deliciosa manhã!

Debruçada da amurada do "La France" — vaporzinho todo branco, como uma noiva e que singra as águas do Guaíba acompanhado por um séquito de lanchas, estremeço de comoção ao deparar numa volta de enseada, com os cinquenta ou mais "gigs" em que vós outros, moços, fortes, entusiastas, elevais os remos numa saudação inesquecível. No espelho das águas pálidas, as vossas embarcações vistas de cima lembram pequenos canteirinhos de flores flutuantes — papoulas rubras, açucenas brancas, e bluetas azuis, de que emergem duzentas e quarenta hastes, terminadas no alto pela pá dos remos.

Sacudo o meu lenço; silvam as lanchas e o ar estremece à vibração das palmas com que todos os convidados de bordo vos saúdam.

Nenhum de vós mesmos, que o compusestes, pôde imaginar o encanto deste quadro palpitante, vivo, com que inebrio os meus olhos ávidos de beleza. E não o pôde sequer imaginar, porque nunca um ator conhece completamente o efeito da peça em que representa; mas eu que vos vejo a todos, como espectadora, mas eu que estou surpreendida pelo pitoresco desta cena que a Liga Náutica Portalegrense compôs com arte tão fina, eu é que vos posso afirmar que estais realizando um ato de rara e sadia lindeza, digna do pincel de um Ziem.

Seria em verdade um pecado que esta baía de harmoniosas proporções, esta pérola líquida engastada em âmbar louro e esmalte verde negro, não se visse nem se sentisse gozada pelo "sport" náutico que dá robustez ao braço, alegria à alma e ousadia ao espírito da mocidade. Nadar e remar são dois exercícios que duplicam no homem a sua capacidade de domínio e de defesa no mundo, de que é prudente não esquecer que a maior parte é coberta de água. . Hoje a do Guaíba está ligeiramente crespa.

É um espelho enrugado em que a vossa flotilha de gigs descreve festões matizados pelas cores emblemáticas dos respectivos clubs: Almirante Barroso, Tamandaré, Grêmio Náutico, União, Vasco da Gama, Italiano Canotiere, e Guaíba.

Vamos agora com rumo à ilha da Pintada. Não chove nem faz sol. A luz difunde-se com suavidade; podemos olhar para tudo sem esforço da visão, com os olhos abertos. Olhar para as coisas com os olhos abertos, à luz do dia nos países de sol, é deleite, tanto mais apreciável quanto mais raro.

E na brandura de amenas claridades passamos das largas águas do estuário do Guaíba, para as do poético Jucuí, saudoso rio, de prata fina, em cujas margens vejo de vez em quando casinholas de pescadores e uma ou outra canoa amarrada aos troncos do arvoredo baixo.

— Que assuntos lindos, meus bons amigos, para uma aquarela!

Quando desembarcamos na ilha agreste, já lá vos vemos a todos, em longas e cerradas alas, agitando as mãos num troar de palmas e cantando com entusiasmo moço hinos patrióticos e as "canções gaúchas"

Não! Vós também não vos esquecereis desta hora de riso e de sinceridade. Não são tão frequentes na vida momentos destes, para que possam ficar enterrados no poço da indiferença; mesmo que outros, de festas idênticas se repitam, já serão outros, poderá sobrar deles alguma coisa que vos deleite, mas há de faltar-lhes também um pouco do que neste há de peculiar e que é talvez uma alma de mulher, que ao fluxo da vossa simpatia transborda de comoção que adivinhais.

Na verde ilha, à sombra de espreguiçados Ingazeiros, já as postas do churrasco apetitoso, varadas pelas lanças agudas dos espetos de taquara, fazem ronda às fogueiras crepitantes e baixinhas. O ar está impregnado de um cheiro que faz a muita gente, disfarçadamente ou não, lamber os beiços. Sobre a mesa rústica improvisada de um momento para outro, um de vós despeja a fina farinha de mandioca para acompanhar o acepipe. Como diz a canção overnheza, também nós:

De nappe blanche

Nous ne servons pas.

Sur une planche

Nous mangeons ce que nous avons.

Assis sur un banc

Comme nous pouvons.

Dentro do grupo há um rapaz que recita com inigualável graça poesias e monólogos rasgados da gente da campanha, seguido logo após pelo chorar de um violão nos dedos de um marujo.

Bravo! Estamos em plena festa regional. Vede que lindos rapazes esses dois que estão agora a tocar ao desafio nas suas gaitas ou harmônicas. Vestem-se ambos à gaúcha: bombachas largas, cor de cinza, ladeadas no correr da perna por duas fileiras de botões de madrepérola; trazem ambos casaco preto, lenço garibaldino ao pescoço, atado com um nó à 1835, e chapéu mole de feltro, redondo com o barbicacho passado sob o queixo.

Qual deles tocará melhor? Não se consegue saber. São ambos excelentes gaitistas. Sabem ambos do mesmo modo distender o fole da harmônica em prolongados gemidos e airosas curvas de sons.

À sonoridade do instrumento popular responde a de uma voz feminina impregnada de doçura.

Cantai, meus amigos, cantai! Mocidade sem música é como vinho sem sabor ou como flor sem cheiro e que a vossa mocidade é valente e boa, bem o percebo no modo porque arrancais a dente os nacos da carne do churrasco que tendes suspenso das mãos.

Bom apetite!

Volto da festa com este vocábulo — gaúcho — a cantar-me no ouvido.

Penso um momento que ele possa ter sido trazido pelos Açorianos, primeiros habitantes destas margens, com o termo "galucho", usado em Portugal para designar o recruta e que tivesse logrado outra aplicação aqui, sem maior trabalho do que o da queda de um l. Esclarecem-me, porém, dizendo que a maternidade do termo cabe aos povos do Prata, que chamam gaúchos aos seus camponeses.

Pois, por uma tal ou qual analogia de gostos e de costumes, dir-se-ia ter havido nos tempos da sua formação no Rio Grande uma certa influência de Alentejanos que soubessem incutir na alma do povo o seu sentimento do pitoresco, e o amor pelas ações da sua preferência.

Há visíveis afinidades de expressão entre os dois povos: no Alentejo o campino afoito, aqui o peão dextro, e a influenciar na alma de ambos a mesma natureza de horizontes amplos e os mesmos impulsos de valentia. Como os Alentejanos, os Gaúchos apreciam os tecidos listrados, somente esses tecidos empalideceram com a diferença do clima; onde lá se entrelaça o vermelho ao verde, mistura-se aqui o cinzento ao castanho; mas em outras particularidades, como nos arreios de montaria, que são especiais, parece conservar-se aqui o mesmo tipo dos dessa província portuguesa. De resto, quem sabe? Pode ser que também nisto eu esteja enganada e tudo quanto me parece tradicionalmente filiado a um sentimento da raça, não seja senão uma projeção dos usos e dos costumes das Repúblicas platinas.

Dança-se no "La France", que dá também algumas largas voltas de valsa sobre a líquida planície do Guaíba, até que a tarde se desfaz numa bruma algente.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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