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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 10 · Jornadas no meu país

Capítulo X

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Como Constantinopla, Porto Alegre poderá ser denominada um dia — a cidade dos terraços — se mais alguns tiver como os dois que vi esta manhã e de onde se descortina um panorama largo e sugestivo. E que lugar se poderá prestar melhor para miradoiros dessa natureza do que este de aclives e declives violentos, barrado por um rio largo e cheio, em que ilhas estreitas de vegetação escura descrevem avenidas de sombra, como que traçadas a nanquim sobre prata reluzente? Olhando para essas ribanceiras pensa-se como daria vida e graça à casaria que por elas se encarrapita o estilo dos telhados árabes resguardados na hora da ardentia por toldos riscados, floridos de cravos como os de Andaluzia, e abertos à tarde às pompas do morrer do sol.

Bem inspirado foi por isso o arquitecto francês Maurice Gras, fazendo o Novo Palácio do Governo desta capital todo coberto por uma açoteia destinada a ser transformada num jardim suspenso. E essa fantasia, perfeitamente realizável, porque a açoteia foi construída com cimento vulcânico e de modo a que as águas da chuva e das regas não possam penetrar na habitação, fará com que em todo este imenso Brasil seja talvez este o único palácio que tenha por coberta lençóis verdes de relva em que floresçam rosas.

Fazem-me notar que o palácio é feito com todos os rigores da arte antiga e do conforto moderno. As suas linhas gerais obedecem à arquitectura grega clássica; tem dois corpos principais, sendo o da frente de cinquenta e oito metros por vinte e quatro, de forma retangular, e o do fundo de cinquenta e dois metros por vinte e nove em forma de u. Comunicam-se estes dois corpos por duas ordens de colunas de boa perspectiva. Na fachada de agradável simplicidade mas que teria ganho em beleza se fosse mais alta uns poucos de degraus, há, entre dois pares de colunas gêmeas, duas estátuas em pedra calcárea, Agricultura e Indústria, demasiadamente alentadas.

Abre o Palácio para a mais nobre praça da cidade por três largos portões, comunicando o do centro com o vestíbulo e escadaria principal, destinando-se os outros para a entrada e saída dos carros. Todos os detalhes da sua ornamentação interior são sujeitos ao gosto da época Luiz XVI. Dizem-me que já estão encomendadas as mobílias, de estilo afinado com o de cada compartimento e que a alguns dos nossos maiores pintores, como Georgina de Albuquerque, Parreiras, Décio Vilares, Lucilio de Albuquerque e Luís de Freitas, foram pedidas decorações para os tetos e paredes principais.

Não só em Roma há subterrâneos! também neste Palácio os há, não escuros e misteriosos como os das catacumbas, que apavoram e tresandam a humidade, mas alegres, arejados, com instalações elétricas para limpeza pelo vácuo, para luzes, telefones, ascensores, campainhas, aquecedores, ventiladores, por meio de tubos isolantes, e o que mais não sei. Chamam-me a atenção para a aplicação dos para-raios do novo sistema Faraday-caye e que figuram aqui pela primeira vez no Brasil, assim como me dizem que para todas as colunas, embasamentos e escadarias que estou vendo neste palácio veio a pedra já aparelhada de Paris.

A esta informação dou um salto patriótico: — mandar vir pedra da França quando há aqui o belíssimo granito rio-grandense!

Ao meu espanto respondem-me que para essa preferência houve uma razão formidável e indiscutível: — o preço!

É uma tristeza a sujeição ao preço, quando se pense em fazer uma obra d'arte, mas como ele tem inegavelmente a sua força, que objetar? Serviu ao menos o calcário de Villars para exemplo, à aplicação do grés branco rio-grandense, que bem trabalhado é igualmente bonito e já figura em obra na barra de um muro posterior do edifício.

Que singular complicação esta que faz com que nos custe menos dinheiro vindo de longe, aquilo mesmo que temos ao pé da porta!

Pois bela ocasião, meus senhores, para se aproveitarem em um friso decorativo de parede interior essas inigualáveis ágatas, que rolam em bruto aos pontapés pelo interior do Estado.

No Palácio dos Medicis em Florença, há pedras preciosas engastadas entre os luzidos mármores patrícios. Tivessem os florentinos tido à sua disposição estas pedras brasileiras de tão inéditos desenhos e cores tão originais e como as teriam engrupado ou encarreirado em gradações bem combinadas nas suas catedrais ou nas suas capelas!

Mas é sobretudo o granito rio-grandense que lastimo não ver aproveitado nos balaústres e nas colunas desta Casa do Governo, lugar mais do que todos apropriado à demonstração do seu valor ornamental e arquitectónico. É tão bonita esta pedra depois de afeiçoada, tão compacta a sua contextura e tão bem distribuídas e distintas as suas malhas, que idealizo o prazer que deveria sentir um escultor animalista que nela pudesse talhar o corpo elástico de um tigre ou a cabeça fulva de um leão.

O segundo terraço que eu vi esta manhã foi o do edifício do Arquivo Público. É também este, como o do novo Palácio do Governo, formado pela açoteia da casa, calçado de fino mosaico e guarnecido por uma elegante balaustrada.

E, ora aqui está uma construção especialíssima organizada com inteligente previdência. Está sendo feita para servir de depósito ao Arquivo Público numa edificação incombustível e em um dos pontos mais altos e mais arejados da cidade.

Tem um estilo sóbrio e distinto e ocupa uma área de quinhentos e sessenta e sete metros quadrados; está dividido em onze compartimentos de cinco por seis metros. A fachada principal tem a extensão de setenta metros e o seu interior é todo guarnecido de prateleiras de ferro e de cimento armado, numa superfície total de mil e quatrocentos metros. É alguma coisa. Simplicidade, comodidade e segurança são as qualidades reunidas neste palácio em que a história da vida passada dorme o seu sono eterno, sem receio das chamas nem pavor dos vermes.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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