Universo da obra
Universo da obra
Recepção no Club Comercial. Os salões estão repletos do que a sociedade portalegrense tem de mais delicado. Vou ver um grande baile precedido por uma sessão literária e musical. E nesta festa de pensamento, de arte e de luxo, conhecerei o que há de superior e de mais requintado na capital do Rio Grande.
A claridade branca das lâmpadas ilumina as mais belas mulheres e as mais suntuosas joias da cidade. Bem como por toda a parte agora, predominam aqui as pérolas em fios cingidos a pescoços mais ou menos bonitos ou descaídos sobre a seda dos vestidos.
Como a vida é feita de contrastes e está nisso o segredo da sua palpitante sedução, nunca se viram no Brasil joias mais belas, nem mais caras nem em tamanha abundância como neste tempo de guerra e de confessada penúria. Aqui no Rio Grande exatamente onde o seu uso me parece mais reservado e menos opulento, elas não me causariam tanto espanto; explicá-las-ia a prosperidade e a fortuna desta terra gaúcha de apregoada fertilidade criadora; mas no Rio? Trago ainda nos olhos desorientados a visão da última recepção carioca a que assisti, e em que os colares e os diademas evocavam a lembrança das trágicas princesas bizantinas.
Aqui as joias de alto preço não me ofendem os olhos, talvez também por que não vejo pedir esmolas pelas ruas; e há nada mais cheio de sugestões do que a mão vazia de um mendigo?
Passa um frêmito de curiosidade pelo salão e começa-se a ouvir num comovido silêncio a voz do ilustre poeta Felipe de Oliveira, desdobrando em uma prosa cheia de coração e de poesia a alma do seu querido Rio Grande, a arfar nas pulsações de uma aventurosa valentia ou a concretizar-se toda no vulto solitário de uma árvore pensativa e linda — o umbu.
Quem, melhor do que um espírito penetrado de poesia, que é a essência vital da natureza, poderia desvendar aos meus olhos a significativa expressão das coisas silenciosas?
Através dos seus períodos cálidos e veludosos eu vejo a pradaria larga e iluminada, e viajo por estradas, descortinando coxilhas longínquas e horizontes barrados da vermelhidão do poente, em que se desenha o friso negro das cabeças cornudas do gado imóvel.
À quente voz do poeta sucede a de outro poeta, Mansueto Bernardi, moço cheio de inspiração e de sentimento e que ocupa um lugar proeminente na intelectualidade do Rio Grande. Além de declamarem trabalhos próprios dizem os escritores poesias de poetas seus conterrâneos: Marcelo Gama, Álvaro Moreyra, Eduardo Guimarães, Fontoura Xavier, Zeferino Brasil, Pedro Velho, Leal de Souza e Homero Prates, para demonstrarem que a Poesia tem no seu Estado paladinos de mérito e de renome.
À parte literária sucede a musical, desempenhada com muita distinção. Tenho assim em poucas horas uma impressão direta e viva da educação e do gosto desta sociedade.
Se ao jogo se revelam os princípios dos homens, dançando se revela a graça das mulheres.
Como em toda a parte agora, os tangos fazem aqui parte do carnet do baile, e parecem-me executados com menos impulso ou mais reflexão do que nas salas do Rio, onde quem dança se deixa levar demasiadamente pela música sugestiva. Há na sala uma encantadora criança, de dezesseis anos que me vem dizer que é este o primeiro baile a que ela assiste e que marca o início da sua entrada na sociedade. Sinto-lhe a emoção nas mãos frias e nos olhos onde se reflete toda a ebriedade da sua alma em festa. Passa-me fugazmente pelo espírito a lembrança dessa mesma emoção, que a vulgaridade das festas hodiernas torna cada vez mais rara, e que na minha mocidade me fez estremecer no delicioso susto da primeira valsa...
E aí está alguém a quem esta noite jamais esquecerá.
O interior do Club não tem confortos elegantes, mas dizem-me estar a meio caminho a edificação de um novo e pomposo prédio propositadamente construído para as funções que este casarão vem exercendo com alegria e sem cansaço desde longos anos.
À hora de ceia, que é sempre agradável para quem não dança, porque é aquela em que se conversa, sento-me ao pé de um causeur espirituoso, médico e homem de Estado, o Sr. Dr. Protásio Alves, que me descreve com um colorido insinuante e bem nuançado o pitoresco das regiões coloniais do Rio Grande do Sul, a beleza trágica do seu território serrano e a impressionante formosura da praia de Torres, onde altos rochedos lembram telhados de catedrais.
Lembro-me de ter lido qualquer coisa sobre a intenção do governo rio-grandense de utilizar esse porto de Torres, facilitando-lhe a comunicação com a capital do Estado. A realização dessa obra, parece que muito importante e discutida, teria a vantagem de abreviar em três dias as viagens do Rio de Janeiro a Porto Alegre, o que não é argumento que se despreze, mas que outros argumentos terão para procurar obstar-lhe a execução as cidades de Pelotas e do Rio Grande? Por maior que seja o movimento de importação e de exportação do Estado será ele tamanho que possa alimentar a vida de um novo porto sem prejudicar com isso os interesses do outro? E tanto mais que esses interesses não são mera e puramente materiais mas também de uma grande importância moral para as regiões que lhe ficam vizinhas.
Todo o forasteiro que tem de vir à capital do Estado é, por gosto ou forçadamente obrigado a passar por duas das suas cidades mais importantes: Pelotas e Rio Grande, e nessa travessia, se adquire conhecimentos da riqueza e do progresso da terra, também espalha animação e dinheiro que são elementos que ninguém despreza.
Desviado para o ponto oposto ao dessas cidades o desembarque da população ambulante de forasteiros que só tenha em mira Porto Alegre, não se sentirão elas prejudicadas? Quer-me parecer que sim, mas bem pode ser que não. Seria necessário conhecer muito profundamente as condições do Estado para julgar a coisa com inteira precisão e justiça, e eu não tenho ocasião de mergulhar a vista até ao fundo do poço em que a Verdade se mira no competente espelho. Colho impressões de superfície como quem navega em um lago.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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