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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 12 · Jornadas no meu país

Capítulo XII

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Vagabundiei hoje por Porto Alegre, em caminhadas sem destino por entre a pedra e a cal das paredes de casas sem jardins e de portas fechadas, como se usa na Europa. Por vezes ao dobrar de uma esquina vinha-me rapidamente à memória um trecho da cidade alta de Lisboa, não só pela aparente aridez da terra como pela visão branca do rio barrando lá em baixo as ruas ladeirentas. Uma triste vitrine de belchior com lampiões de latão, figas toscas de madeira e botões de mosaico veneziano, fez-me pensar que talvez houvesse lá dentro qualquer coisa que me indicasse algo da vida interior e íntima deste povo, e entrei.

Tal ideia não me veio a mim só. Já lá dentro havia uma senhora que vasculhava com manifesto interesse as bugigangas inúteis em busca de utensílio doméstico, móvel ou jóia particular, que pelo seu cunho especial ou pela sua antiguidade lhe transmitisse a impressão desejada.

É singular e espantoso o poder evocativo que têm as coisas cuja convivência com alguém foi demorada e utilizada por largo período de tempo. Com a sua voz muda, se tal paradoxo me pode ser permitido, elas sabem relatar com eloquência o sentimento de épocas e de povos diferentes. Era essa voz que eu queria ouvir, na vã loucura de supor poder existir algum objeto que a emitisse no meio daquela mixórdia banalissima e reles que via ali acumulada e em que a senhora, delegada sem dúvida de algum bric-a-braquista estrangeiro andava, em pura perda, a catar preciosidades.

Adeus, ideal de se poder encontrar alguma cuiasinha de mate chimarrão, pala, ou xairel com história. Nem esporas de Bento Gonçalves, nem arrecadas de Anita Garibaldi, nem móvel algum, embora desconjuntado, que nos revelasse o espírito de antanho.

Saí. Continuei a subir e a descer ruas que me obrigaram a imaginar que deve ser aqui muito rendoso o negócio das sapatarias. Em algumas lojas mais modestas, vejo na taboleta a designação de — Baratilho — por — Barateiro — vocábulo nunca empregado nestas legendas comerciais. Porque baratilho? não sei.

Noto que nas ruas quase todas as senhoras usam por agasalho uma pele de raposa igual em tudo a uma que eu comprei em Paris como sendo europeia. São as peles dos Guarachaíns, o que significa guarás pequenos. Guará é o nome indígena do nosso cão do mato de pelo fulvo, áspero e espesso. Os estancieiros dão caça aos guarachaíns porque eles lhes atacam as ovelhas e os galinheiros. Antes da guerra as peles dos guarachaíns eram exportadas, não se sabe por quem, mas em tamanha quantidade que ninguém aqui as via, nem lhes dava apreço ou aproveitava. Agora, porém, paralisadas as remessas para o estrangeiro elas são vendidas tanto nos armazéns de modas já preparadas, como pelas ruas, ainda mal curtidas. Como todo o animal este tem a sua estação de maior ou de menor beleza, em que o pelo é mais espesso ou mais áspero, mais veludoso ou mais brilhante. O seu valor depois de morto, como adorno, depende do tempo em que ele foi apanhado, e mesmo assim percebe-se no focinhito agudo deste bichinho quanto ele deve ter sido inteligente em vivo. Conta-se que, quando ele é caçado em mundéu ou laço se finge logo de morto.

Representa então, por tanto tempo quanto o tenham sob vigilância, uma comédia astuciosa e por certo bem aflitiva! Finge-se de morto para que o não matem, e prepara entretanto o seu plano de fuga, que escusado é dizer não o deixam levar a efeito.

O caçador diverte-se com esse jogo que prolonga o sofrimento do animal e enche de pena os que não são caçadores.

Às cinco horas entrei numa confeitaria para o meu chá.

Quer-me parecer que todos estes confeiteiros de Porto Alegre são alemães ou descendentes de alemães.

O seu doce e a sua pastelaria não são da raça suave e meiga da nossa. A sua massa é encardida e grossa, e no recheio há um condimento que o meu paladar, aliás atilado, não adivinha qual seja.

Se o grande e inolvidável Ramalho Ortigão, fosse vivo e andasse por estas mesas de chá a paparicar tigelinhas d'ovos encontraria nelas motivo para uma crônica.

Com aquela clareza e perfeição de estilo que o celebrizaram e o conhecimento largo e profundo que mostrava ter de todas as coisas, mesmo as de aparência mais insignificante, ele nos provaria a procedência destas canoinhas e queijadas, embora à custa de longas digressões.

Para essa espécie de Folk-lore do paladar nada no Brasil se pode comparar ao Norte, que é de todo o país a parte mais capitosa, quer pelo aroma das suas flores, quer pelo sabor dos seus frutos e gostosa aplicação dos seus sucos, das suas polpas, das suas sementes e dos seus cocos tanto nos pratos de sal como nos de açúcar. O sul é menos epicurista.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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