Universo da obra
Universo da obra
Decidi esta manhã ir surpreender o professor Augusto Luís de Freitas, na sua aula da Escola de Belas Artes, no segundo andar do Conservatório de Música. Encontrei-o rodeado de discípulos a circular de cavalete em cavalete, na afanosa e simpática atividade dos mestres esforçados.
No silêncio atento da sala, meninas e rapazes copiavam o gesso clássico do Apolo e das Vênus consagradas, ainda sem forças para arcarem com as dificuldades do modelo vivo. Mas não tardará o dia, dizia-me o mestre com um raio de entusiasmo a tremeluzir-lhe nas pupilas, em que os meus alunos comecem a trabalhar do natural. Possam eles então encontrar sempre bons modelos, o que constitui um dos grandes escolhos dos pintores no Brasil. Há muito pouco quem se queira sujeitar aqui à profissão de pousar nos ateliês para estudos e quadros. Vencidas as primeiras dificuldades, os meus alunos farão milagres porque são inteligentíssimos e pertinazes. É admirável a aplicação da vontade destes moços e destas moças.
Tenho em todos a maior esperança.
Eu não esperava ouvir tanto. Nem supus nunca que numa cidade em que faltam ainda os principais elementos propulsores do gosto artístico, quase sempre formado pela observação e inspiração de obras dos Mestres, pudesse haver já tamanho ardor no estudo do desenho. Um ambiente de arte não se forma de um dia para o outro; assim, todo aquele esforço que eu estava presenciando era o desabrochar de um ideal luminoso, mas que tão cedo não poderia ser completamente realizado, a não ser
"— A não ser, disse o mestre como se tivesse lido em meu pensamento, que o Rio Grande possa manter os melhores destes discípulos na Europa por prazo indeterminado, organizando um grupo de artistas que venha depois para a sua terra transmitir a outros o que tenha aprendido. Uma andorinha só não faz verão."
Criatura que volte fascinada pelos esplendores do velho Mundo, cada vez mais velho e por isso mesmo cada vez mais belo, e não encontre na pátria quem tenha vibrado às mesmas impressões e no irradiar os seus estudos e pensamentos não veja quem o secunde, apoie e acompanhe, sentir-se há como no deserto e perderá o ânimo para o trabalho criador
E criar uma arte regional, é quase um dever neste Estado, um dos mais típicos da União. Ele deve por isso acoroçoar os seus artistas, favorecê-los, acenar-lhes com prêmios compensadores para que, nas suas telas ou nas suas estátuas como nas páginas dos seus livros, resplandeçam todas as qualidades físicas dos seus filhos e toda a graça pitoresca dos seus costumes.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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