Universo da obra
Universo da obra
Há dois lugares que ninguém visita sem sentir o coração coberto por uma grande sombra: o Hospício dos loucos e a Correção. Casas de alucinados, elas inspiram uma piedade mesclada de receio. Ir-se-à entrar em uma cela de homem ou numa jaula de fera? A fera ao menos é um perigo que não pode ser encarado senão de um modo; mas os outros. os outros! Ah, os infelizes, com que amargura os vê quem considera o espírito e a liberdade como as mais peregrinas e legítimas glórias da humanidade! No manicômio, como no cárcere tudo é doença, tudo é desgraça. Essa persuasão, que a ciência moderna divulga e o meu instinto aceita como a única verdadeira, faz-nos doer ainda mais na consciência a curiosidade com que procuramos olhar de relance para a mão que matou, como se esperássemos ver nela ainda um pouco do sangue que fez correr. Depois, fica-nos ainda a pungir na memória a ideia de que o criminoso tenha percebido esse movimento fugitivo, mas terrivelmente evocador.
É sempre doloroso visitar prisões a quem não tenha o dom suavíssimo de saber transmitir em palavras que dulcifiquem ou que esclareçam, um pouco da piedade luminosa com que o sol cá fora espalha por todos irmãmente o seu manto de luz.
Ser santa! se eu o fosse como as dos séculos da Fé sem jaca, diamantina e pura, não deixaria nunca de percorrer as lôbregas galerias onde os criminosos se aglomeram, para com a maciez dos meus dedos, a meiguice da minha voz, o resplendor da minha auréola e dos meus olhos tristes, transformar-lhes os rancores em esperanças, as ideias sinistras em pensamentos pacíficos e criadores. E isso tudo eu faria por considerar que não há na terra maiores desgraçados do que os criminosos.
Assim eu tinha dito aos meus amigos quando os vi mandar abrir diante de mim as portas da Correção de Porto Alegre. Já que eu queria ver tudo era indispensável que visse também aquilo.
Entrei. Num pátio empedrado vi soldados e homens vestidos de pijamas às riscas de cor vistosa. Contenho o meu estremecimento diante daquele uniforme e deixo-me conduzir ao escritório do diretor do estabelecimento: Sr. Coronel Frederico Ortiz. Em poucos minutos esse cavalheiro, de fino trato, faz-me compreender que não estou em frente de um carcereiro à maneira medieval, e como há tantos ainda, mesmo nos países mais civilizados, mas diante de um homem de teorias modernas, ideias avançadas, e sentimento humanitário. Respiro.
Uma das minhas últimas leituras antes da viagem tinha sido o De profundis de Oscar Wilde, livro em que uma lôbrega e imunda moradia de sentenciados de Londres é descrita pelo seu antigo habitante com mais fel do que tinta. Embora o espírito moderno tenha querido modificar esses antros de tédio inútil em fontes de trabalho proveitoso e reabilitador, o sentimento do livro inglês fazia-me crer que essa remodelação, esse saneamento moral, ainda está bem longe de ser exercido em todo o mundo, pois se no tempo de Oscar Wilde, que a bem dizer foi ontem, ainda havia na opulenta capital da justiceira Inglaterra uma prisão assim tão infecta, que serão ainda hoje muitas outras semeadas em países pobres e lugares ignorados?
Felizmente, ao percorrer esta penitenciária de Porto Alegre, observo que ela parece mais uma fábrica do que uma cadeia.
Os ferros que rangem aqui são os das máquinas e não os das algemas. Há por todo o edifício grande quantidade de oficinas, e também, valha a verdade, grande quantidade de presos. O hábito que têm geralmente no sul, de trazerem uma faca constantemente consigo, na cinta ou na cava do colete, contribuirá um pouco para isso. Um instante de cólera ou de desvario converte às vezes um homem bom mas impulsivo em assassino, se ele encontra facilidade de levar a sua fúria até ao extremo. A alucinação desses precipitados é menos maldosa do que infeliz. Por que não hão de as mães rio-grandenses empreender a campanha de desacostumar os seus filhos de um hábito cujas vantagens não estão provadas e cujo perigo é sempre tão vivo e ameaçador?
O número de mulheres encarceradas na Correção de Porto Alegre é relativamente pequeno, só dezassete. Embora mais ignorantes do que os homens, elas são menos impetuosas, é esse dom da reflexão que as salva, o que não impede que as que por tara ou por vício cheguem a ser criminosas, o sejam a valer. Entre os presos, alguns foram iniciados na senda do crime pela embriaguez sanguinária da revolução de 93.
O mal das guerras não acaba com elas, projeta a sua sombra para diante. Com que voz será preciso persuadir o povo e os governantes de que as revoluções cruentas são escolas de barbaridades e de selvajarias, que só geram o mal?
Passo por um preso com o qual o meu olhar se cruza rapidamente. Nesse relancear tenho a impressão de ter olhado para uma pessoa inteligente. Confirmam a minha suspeita dizendo-me que esse indivíduo era um advogado, ou engenheiro de prestígio no momento de ser preso.
De mim para mim, no recesso da minha consciência, indago se o condenado processo da máscara não seria mais piedoso do que aviltante, em casos como este em que momentaneamente nos encontramos o sentenciado e eu.
Um mascarado é sempre um incógnito e isso vale mais do que fazer lembrar na face nua o estigma que a ensombra ou a enodoa.
Informam-me em uma das oficinas da prisão que já ali tinham feito um aeroplano, que um inglês levou para a Europa e que deve ter figurado num dos raids da guerra.
Não acham vocês que isso daria um admirável assunto psicológico para um romancista de pulso?
Imagine-se a febre, o anseio, o tremor de tantas mãos cativas, nessa fabricação de asas potentes, destinadas a cindir o espaço em voos livres!.
Entre os prisioneiros há dois irmãos negros, quase crianças, que ainda em meninos assassinaram o pai adormecido. A terrível tragédia, que me arrepia a alma e a pele, clama pela necessidade cada vez mais urgente das Escolas para pequenos degenerados e delinquentes. Os senhores criminalistas já teriam dito a última palavra nesse sentido? Ignoro-o, mas desconfio que não. O problema terá certas complexidades mas não pode ser insolúvel e é sobretudo de absoluta urgência. Por serem adolescentes estes dois facínoras cumprirão sentença até que se extinga o prazo da sua minoridade, como determina a lei. Sairão assim da cadeia para a sociedade dos homens livres em plena força da vida e exuberância da mocidade, mas sairão sabendo, o quê? Amando, o quê? Respeitando, quem?
A fazer girar entre os dedos uma faquinha de osso lavrada pelos presos, conta-nos o Snr. Diretor a curiosa e comovedora lenda da Rita Pires.
Senhora de fartos haveres e de rígidas ideias, firme nos seus princípios de intransigência e de severidade fez Rita Pires doação à sua cidade de Porto Alegre de um grande e magnífico terreno com a condição de que nele fosse construída a cadeia. Para dormir seus sonos sossegados queria saber em baixo de ferro todos os ladrões da redondeza e algemados todos os malfeitores.
Ora aconteceu esta coisa espantosa: concluído o edifício de grossas paredes e seguras portas, a primeira pessoa que a Justiça se viu forçada a encarcerar lá dentro foi, — ó tristeza dos acasos da sorte! — o filho amado da própria doadora.
A' violência daquele choque terrível e inesperado a pobre mulher sucumbiu. Estalou-lhe o coração, morreu de tristeza.
Mas desde então, de longe em longe há quem afirme tê-la visto a horas caladas da noite a caminhar lavada em lágrimas por entre os muros da Correção.
Com um chalinho vermelho sobre os ombros, a cabeça nua a reluzir na prata dos cabelos, um vestido caseiro a cobrir-lhe as formas magras, ela esgueira-se dos corredores para os pátios, passando rente às sentinelas que estremecem de pavor, ou penetra nos cárceres mais resguardados, quedando-se a contemplar com infinita mágua os prisioneiros moços.
Uma vez mesmo, à clara luz do sol um oficial novo no serviço da Correção e que não conhecia ainda a história da Rita Pires, mandou um guarda saber o que desejava ali uma velhota que ele via da janela, no ângulo de uma área interna. O guarda foi imediatamente e voltou sem ter visto nem os vestígios de mulher alguma, ao que o oficial retrucou que isso era impossível, porque ele a vira no mesmo instante em que lhe dera a ordem; e por sinal que era uma velhota em cabelo e com um chalinho vermelho sobre os ombros magros.
O guarda desmaiou.
A alma triste da Rita Pires não se desprende da grande mágua que sofreu nesta vida transitória, e gira em torno a ela na eternidade como uma louca falena em torno a uma luz inextinguível.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.