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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 22 · Jornadas no meu país

Capítulo XXII

22 de 37 ≈ 4 min de leitura

Eram oito horas da manhã quando saímos de casa picados por um friozinho de apetite. Depois de sacudir-nos sobre as pedras das ruas, o nosso automóvel deslizou por uma longa e macia estrada para os lados de Viamão. A origem deste nome bem-soante formado por três palavras, é atribuída a alguém que, ao descrever um ponto em que nas vizinhanças de Porto Alegre descortinara a confluência de cinco rios, como cinco dedos abertos de que a mão era representada pela ampla baía do Guaíba, disse — Vi a mão. Pois infelizmente, eu não a vi. Parece que esse arrabalde tradicional fica muito afastado do centro, o que não se dá com o Instituto Agronômico a cuja porta fomos bater. No gênero não sei se haverá algum mais bem instalado no Brasil, mas já será motivo de felicitações ao país se houver outros semelhantes em todos os nossos Estados principais. Gentilissimamente recebidos pelos diretores das respectivas seções, percorremos todo o grande edifício, assistimos a estudos e interessantes experiências nos salões de biologia, química, física e veterinária e passeamos depois por jardins e pomares em que as laranjeiras vergavam ao peso da fruta madura. Todas as outras árvores tiritavam.

Um dos diretores do estabelecimento, que nos acompanha através das alamedas, relata-nos que dentro de poucos meses o Instituto começará a fornecer em larga abundância à cidade de Porto Alegre, leite de vacas sadias, continuamente inspecionadas; leite puro, natural, pastorizado ou esterilizado, conforme a necessidade de cada consumidor. Será um novo elemento de saúde para o povo e de tranquilidade para as mães que não podem criar seus filhos. Enquanto conversamos os meus amigos assaltam uma laranjeira, que:

esposa do Sol que a adora

Com que cuidados divinos

Curva ela os ramos agora!

Entre as folhas abrigados

Seus filhos, frutos dourados,

Parecem sois pequeninos. como diz o poeta da "Árvore"

E os meus amigos colhem astros ouro às mancheias, com irreverência. autorizada!

Parece que o comércio das laranjas com as repúblicas do Uruguai e da Argentina, tem aqui certa importância. De modo que os meus bons e honestos companheiros não estão só a cometer o pecado da gula, estão também a lesar o Estado!

Hoje ao almoço comi perdizes. Há muitas e deliciosas no Rio Grande. Como as perdizes são aves de campo que se aninham no chão, tais quais as galinhas, e fáceis de caçar, e como não faltem campos para estas bandas, nós saboreamo-las frequentemente às refeições.

Eu tenho muita pena delas, coitadinhas, mas como não fui eu quem as matou. Não; que ao menos esta culpa não pese na balança com que na hora definitiva eu possa ser julgada. Matar? Nunca! Mas prevalecer-me da maldade dos outros. porque não? E entretanto, com franqueza, eu preferiria, como os nossos ancestrais em Darwin, encontrar sempre para a minha fome de boa saúde, e de frugívora: — uvas, pêssegos, figos, abacaxis e mangas..

Se me lembrei de ti, perguntas-me. Pois nunca tão vivamente como ontem, quando à hora em que o sol se faz de veludo, entrei no grande Club Lawn Tennis de Porto Alegre.

Magnificamente situado, este club tem os seus cortes, a que aqui chamam canchas, vastos, simétricos, cercados por bonitas paredes de bambus. Do alto de uma varanda enredada de trepadeiras e que domina todo o recinto eu via-te reproduzida em cada cancha, como por uma combinação de sucessivos espelhos, nas lindas meninas que de raquete em punho aparavam ou sacavam com destreza e graça as bolas do jogo. Tu que és doidinha por esta espécie de esporte, que tão bem cultivas, com que vigor perguntarias aqui o teu — Play? — no afago deste clima propício e pela colaboração das tuas gentis parceiras, às quais caberia, naturalmente, o vitorioso grito de — Game! — Porque, minha amiguinha, se os meus olhos não se enganaram, estas pequenas d'aqui ainda jogam melhor do que tu. Estou a ver-te responder-me:

— Será possível?!

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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