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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 24 · Jornadas no meu país

Capítulo XXIV

24 de 37 ≈ 4 min de leitura

É noite. A Federação Acadêmica dá uma linda festa literária no salão principal da Faculdade de Direito.

Não há um lugar vazio; sente-se no ar o anseio das grandes expectativas: vão falar poetas, vai orar um moço de grande talento e fina cultura; abrem-se os ouvidos para o som delicioso das palavras de emoção e de arte, fulgura nos olhos o lampejo da curiosidade.

À mesa, guarnecida de flores raras, o presidente da Federação abre a solenidade literária convidando sucessivamente a falar os senhores Rubens Barcelos, Valdemar Vasconcelos e Jorge Olinto, o primeiro prosador, os dois últimos poetas.

Vibram ainda no ar, como sinos de ouro em manhã clara, os finos conceitos literários de um e as encantadoras rimas dos outros, e já vejo voltados para o meu lado olhares interrogativos.

Não será precisa grande perspicácia para perceber o que se espera. Tremo, sorrio, esquivo-me, e pergunto do íntimo d'alma ao grande Deus clemente por que não me teria Ele concedido a sublime graça, o dom, sobre todos os dons maravilhoso, da oratória e da improvisação. Há muitíssima gente que não compreende que um escritor não seja também um orador, pelo menos sempre que isso lhe seja preciso, assim como não se convence de que um poeta não saiba escrever em prosa nem que um prosador seja incapaz de escrever em verso. Entretanto assim como há escritores que jamais venceram a sua timidez rompendo a improvisar alto e bom som em público, há oradores a quem é impossível escrever uma página no isolamento e no silêncio de um gabinete de trabalho, porque só ao influxo da multidão sentem o ímpeto criador das imagens e das ideias borbotar-lhes na imaginação. Já li não sei onde, que só é poeta quem nasceu poeta, mas pode ser orador todo aquele que o desejar ser, desde que tenha talento. Basta para isso aprender a dominar os nervos, educando a vontade e criando o hábito de fazer discursos, quer aos seixos dos rios quer aos amigos da casa, vítimas mais infelizes.

Sofrendo pela minha falta de audácia, que me faz não dizer alto o que penso baixinho, lembro-me da minha boa colega parisiense, a cronista Séverine, única mulher que até hoje ouvi falar de improviso com verdadeira eloquência e superioridade. Os seus discursos são verdadeiras ondas harmoniosas em que as ideias passam boiando à tona, como flores vivas de colorido intenso. Toda coração, ela é bem mulher no sentimento com que trespassa as suas orações latejantes e luminosas.

Perguntei-lhe uma vez como tinha ela descoberto em si esse dom peregrino e tão raramente apreciado nas mulheres, tanto em França como no resto do mundo.

Já tinha a cabeça completamente branca, respondeu-me, o que nela sucedeu aos trinta e seis anos, por efeito de uma forte emoção, quando uma vez, acompanhando um morto ao cemitério sentiu à beira do túmulo todas as suas lágrimas se cristalizarem em palavras, que lhe saíam irreprimivelmente da garganta. Ignorara até então que possuía essa faculdade poderosa e brilhante e que hoje os seus amigos e os seus admiradores não deixam permanecer em paz. Sempre que ela, a bondosa Séverine, aparece num banquete, ou outra festa qualquer, há vozes que reclamam e mãos que se agitam pedindo-lhe que fale.

E ela fala sempre, com o mesmo vigor, a mesma clareza, a mesma bondade, a mesma perfeição.

E aí está um caso em que o orador não se fez a si próprio, pelo domínio da vontade e de uma cultura tenaz e bem orientada, mas que o era de nascença, embora o tivesse ignorado até à idade madura.

Por desventura, as repetidas emoções por que tenho passado na vida, não lograram produzir em mim tão lindo milagre.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

Jornadas no meu país

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