Universo da obra
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Ouço falar do — Roseiral de Servita, — e tenho a sensação de que aludem a uma página bíblica. Mas não; aqui a Serva de Deus é uma senhora rica, robusta, e que sabe fazer brotar da terra, não os verdes pomares de figos e de vinhas de que nos fala o Velho Testamento, mas principalmente as mais nervosas, modernas e perturbadoras flores deste nosso século fantasista e sábio. Pois vamos nós lá a ver esse decantado roseiral. Para que lado fica?
No vale de Terezópolis, a que melhor deveria caber o nome de — Vale da Graça, — tão gentil e suave é a sua curva e tão plácida e risonha a sua vegetação.
É da minha parte atrevimento, agora que sei a quem se aplica o nome de Servita. escrevê-lo sem o preceder de um cerimonioso d maiúsculo. Perdoai senhora a irreverência e já agora, deixai que a sugestão literária me leve para diante na mesma confiança, tanto mais que nisso não vejo ofensa à vossa respeitabilidade de mãe de família.
Mãe? não me lembro bem se vi ou não vi filhas vossas na linda tarde em que vos visitei, mas se não as tendes de carne e osso, imaginemos que o são todas essas formosíssimas rosas que nasceram do vosso carinho e do extremoso cuidado das vossas mãos.
E já que tendes gosto e que tendes fortuna, duas circunstâncias que raramente vemos no Brasil entrelaçadas, é bem possível que dentro de pouco tempo, e à parte qualquer sugestão alheia, esse doce recanto em que viveis e onde plantais as vossas roseiras com tão calculada simetria, reproduza aspectos feéricos como as desse famoso — Roseiral de Bagatelle — delícia das almas e dos olhos dos parisienses.
Que será preciso para isso?
Apenas uma viagem a Paris, na Primavera, e, ao voltar, trazer de lá um paisagista de jardins, especialista em rosas.
Aqui nem com a lanterninha de Diógenes iluminada a rádio, poderemos conseguir encontrar um homem que, aliando a arte do desenho decorativo ao conhecimento da imensa variedade de roseiras que existe no mundo, soubesse aplicá-las nos diferentes efeitos da sua arquitetura floral. A tentativa é cara, mas é bela, e como exemplo neste nosso país de indiferença seria então admirável! No tempo da maior abundância floral, quando os festões rubros ou pálidos se balançassem em longas cadeias harmoniosas sobre os tabuleiros rasos ou convexos, cor de ouro ou cor de açafrão, róseos ou brancos do vosso belo roseiral, concederíeis licença à gente da cidade para vir pascer os olhos em tamanha formosura, e com esse ato de generosidade não vos acusaria de vaidosa a vossa consciência, mas ao contrário, vos felicitaria por prestardes um lindo serviço à vossa terra.
Disseminar o gosto por tudo o que encanta os olhos e eleva a alma, é dar à pobre humanidade sofredora um alívio divino.
Quantas vezes, eu que vos estou falando, sinto na memória, a propósito de coisa nenhuma, os perfumados e floridos quadros desse Roseiral de que vos disse o nome, e, só com essa visão do passado, em que as rosas de um dia se fixaram para sempre, tenho um minuto de fino gozo espiritual!
Mas já fazeis muito, cultivando como cultivais essas lindíssimas roseiras, que se estendem em filas pelos jardins da vossa quinta inesquecível, pelo que vos felicito, Senhora.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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