Universo da obra
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Senhor Deus, ter eu trabalho pelo que faço, vá lá! mas pelo que não faço, parece-me demais. E é o que me sucede agora por amor de uma célebre carta escrita pelo ilustre prosador Carlos Malheiro Dias, na sua popularíssima — "Revista da Semana" —e assinada com o doce e nacional pseudônimo de — Iracema.
Toda a gente aqui no sul acredita ter sido escrita por mim essa vibrante e patriótica página, o que, se me lisongeia a vaidade de profissional das letras, faz-me também passar às vezes por transes de bem esquisito embaraço.
Às pessoas a quem tenho dito positivamente, redondamente, não ser eu a autora dessa peça epistolar que anda a percorrer o Brasil, com a minha assinatura por um desses mistérios que fazem a glória dos romancistas de folhetim, percebo um tão grande, um tão visível desapontamento, que chego a ter pena delas e de mim, porque no fundo das suas pupilas vejo com isso desmoronar-se o pedestal em que estava acente a principal razão talvez, da sua simpatia pela minha obra de escritora insistente. Mas há também quem, demonstrando certa agudeza de perspicácia, atribua teimosamente a minha negativa a qualquer razão particular entre a minha pessoa e a "Revista" e não se queira dar por convencido da verdade.
Nunca uma página de jornal fez tamanho sucesso. Uma certa vez apresentaram-me a uma senhora muito inteligente e distinta que, tendo já adquirido todos os meus livros, mandou, para complemento da obra, encadernar luxuosamente todas as cartas de Iracema, onde mandou gravar o meu nome com todas as suas letras. Compreendo que a confissão peremptória de me não ter cabido a honra da autoria desses escritos de tão larga e justificada divulgação, deva tê-la de algum modo desgostado, mas a decepção ficou atenuada pela convicção de que eles merecem o arquivo que lhes deu.
São poucos os dias em que eu não veja evocada diante dos meus olhos, como a homenagem de maior apreço, a lembrança dessa página, toda palpitante como uma bandeira ao vento, e ocasiões há em que um desmentido implicaria numa incivilidade: é quando em festa pública um orador sacode essa carta sobre a minha cabeça como a obra magna da minha vida literária. Em tais situações calo-me, porque presinto quanto ele se sentiria acanhado com o meu esclarecimento, esclarecimento que eu aliás já tinha feito em jornais do Rio e na própria "Revista da Semana", em carta ao seu abnegado autor
A complicação deste incidente repete-se muitas vezes em salas particulares e lugares públicos, em mesas de hotel e de vapores, e de tal modo, que um dos meus amigos me fez prometer que deixasse passar o caso sem elucidação, para não desapontar ninguém na minha presença, deixando a exposição da verdade para depois. É o que faço pela terceira vez em letra de forma.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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