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Jornadas no meu país

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Jornadas no meu país

Capítulo 29 · Jornadas no meu país

Capítulo XXIX

29 de 37 ≈ 5 min de leitura

Vejam! o dia, todo feito desse macio setim azul de que só o tear dos anjos tem o segredo e engrinaldado por pequeninas nuvens brancas e cor de rosa, parece mesmo pintado por Wateau!

Na Estação do Riacho espera-nos o trem destinado a realizar o paradoxal serviço de conduzir uma carregação imensa de alegria para a — Tristeza. Tal é o nome do arrabalde que vamos visitar. Dizem-me que ele é acertado, por que o sítio é de uma melancolia plácida e sugestiva. Para contraste, no trem, que vai cheio de moças, há muito riso, desse riso sadio que entra pela alma da gente como lufadas frescas de climas altos.

O que mais me encanta nestas moças do Sul, é a sua jovialidade sem artifício nem o estouvamento arrebatado que os figurinos americanos dos cinematógrafos têm espalhado pelo mundo e que por candura de espírito muitas criaturinhas copiam exagerando-lhes as atitudes arrogantes ou as frases de ultra moderna desenvoltura, que não são nem da nossa raça nem da nossa educação familiar.

Dir-se-ia que este trem não leva mulheres, mas rouxinóis. Vai todo fremente de música.

Sibila Fontoura, a pianista aplaudida dos salões, acompanha em uma sanfona, ou gaita como dizem aqui, o coro de vozes moças que entoa com doçura A Saudade do Gaúcho, e outras cantigas regionais.

De todos os nossos Estados o do Rio Grande do Sul é talvez o mais agarrado às suas tradições e o que maior valor sabe dar ao que tem em si de típico e de característico. Falta-me conhecer ainda muitas das coisas que constituem os mais vincados traços da sua originalidade, porque tenho tido por enquanto uma vida exclusivamente de cidade, e as cidades têm mais ou menos os mesmos costumes, o que as torna parecidas entre si.

Sinto-me entretanto penetrada pelo sentimento que faz este povo mostrar-se tão amoroso pelo que é seu.

Parado o trem, e pascido o olhar pelas devesas sossegadas da — Tristeza — eis-nos a caminhar por estradas mais ou menos curvas e enladeiradas para a Pedra Redonda, entre granjas silenciosas e vinhedos recentemente podados, de cepas curtas e retorcidas.

Decididamente eu preciso voltar ao Rio Grande no tempo das vindimas, quando as verdes parras abrigarem na delicadeza da sua sombra os cachos retintos das uvas saborosas.

Chegada a estação da maturidade da fruta também aqui o amigo Dionisios encontraria motivo para o transbordamento da sua alacridade. Por estes campos agora transfigurados pelo sono cataléptico do inverno na aparência da morte e que despertarão na Primavera todos floridos e cheirosos, zumbirão abelhas em torno aos bagos de que o vinho escorre e voarão as aves ao brando calor do sol. Toda esta terra é criadora da força, fonte do sangue puro e que não cheira a carne, sangue espumante da fruta transparente e doce. Os três graus abaixo de zero, acompanhados de ventanias rudes, mudaram o aspecto de tudo, menos o das pedras. Ah, essas.

Na margem areenta do rio, uma bonita praia em que as águas morrem em recortes de ondas pequeninas, há, entre várias pedras de formas mais ou menos interessantes, uma que tem o feitio de um porco alentadíssimo, de largas orelhas pendentes e focinho estendido.

A doce e piedosa Mãe Natureza, na previsão de que nenhum escultor de gênio se quisesse ocupar nunca com a modelagem de animal que enquanto vivo é tão repudiado pelo homem, tratou de o consagrar em uma escultura a que não falta expressão nem harmonia mas apenas a usual inscrição em caracteres convencionais. Essa será feita um dia, quem sabe, por algum boêmio ou poeta gastrônomo que, à feição de Charles Monselet, saiba cristalizar a eloquência da sua gratidão pelos excelentes paios e presuntos dos seus almoços num verso, pelo menos tão entusiasta como o célebre: "Adorable cochon, animal roi, cher ange!" do curioso vate francês.

O mundo entra em uma nova era — a da Justiça. Os seres e as coisas mais humildes e desprezadas pela humanidade até este momento, por que não hão de esperar, — se não recompensas, — pelo menos um pouco de simpatia e de respeito?

Em tal caso, confessemos que, as que a arte proporciona são ainda as mais fáceis!

Dança-se.

À sombra azul de um bosque de figueiras bravas, mesmo à beirinha d'água, as moças fazem ronda ou serpeiam de mãos dadas na Polonaise por entre os troncos das árvores.

Transporto-me a tempos idos. Em vez do som das flautas de pastores idílicos, os que fazem vibrar o ar sossegado deste dia excepcionalmente luminoso, saem dos pistões soprados com valentia por fortes soldados da Brigada Policial.

Acredito que estes sejam mais afinados e senhores de repertório muitíssimo mais vasto, o que é uma compensação!

Relembro quadros de museu: — não são menos graciosas do que as Dríades estas deliciosas criaturinhas que vejo voltearem sobre tapetes de folhas mortas entre colunas vivas de arvoredo, com um sorriso nos lábios, as faixas ondeantes e pinceladas de sol na carne moça.

Está escrito, pela mão enigmática do Tempo que as horas de alegria têm de ser curtas. O dia voou e extingue-se agora entre pompas crepusculares. Todo o horizonte arde numa candente barra de ouro chamejante. É uma glorificação à tarde que acaba ou à sombra, que aí vem?

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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