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Capítulo 33 · Jornadas no meu país

Capítulo XXXIII — Rio Grande

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Chego ao entardecer à velha cidade marítima do Rio Grande do Sul. Um cheiro confuso de terra úmida e de maresia espalha-se pesadamente pelo ambiente calado. Como o hotel que me indicam como o principal fica a pequena distância da estação, sigo para ele a pé, por uma rua quase deserta. Uma badalada de sino trêmula no ar e vem dizer não sei que segredos nostálgicos ao meu espírito que se retrai tristonhamente.

Por onde quer que eu ande, sinto falta em alguém que sabendo a fundo a história e a crônica destas terras, de que é talvez uma das mais caráterísticas esta em que agora estou, me faça notar o que nelas ainda possa haver de original e de típico, visto que já agora no Brasil, só na paisagem logra um viajante encontrar certo motivo de novidade, tão semelhante é entre si a vida das suas populações, pelo menos no que essa vida tem de aparente.

Pois esta cidade do Rio Grande dá-me a impressão de ser um cofre de recordações. É uma verdadeira terra maruja, onde começam a aparecer contrastes. Sente-se que, em alguns pontos ela permanece como nos tempos da sua fundação, com ruas silenciosas e vielas sujas, em que a imaginação de um romancista, mesmo o mais moderno, poderia colocar em ambiente próprio as suas heroínas apaixonadas e submetidas a todos os rigores paternos: casamentos obrigatórios, idas para o convento e outras aventuras camilianas de raptos, envenenamentos, cartas empapadas em lágrimas, suicídios e toda a magna caterva de sentimentalidades descabeladas que abarrotavam os volumes de 1830. Ao mesmo tempo, nesta mesma cidade, outro romancista igualmente verdadeiro, poderia descrever quadros arejados, em ambiente próprio, à moderna, com cassinos de praia em que se joga; meninas à americana que andam sós; grandes estabelecimentos industriais frigoríficos que elevam para os céus profundos os seus vários andares de cimento armado, e clubs em que se faz excelente música e em que se conversa muito agradavelmente. É uma cidade quieta, provinciana, com hábitos burgueses e beatos mas que pelo seu novo porto e excelente cais, recebe agora em pleno peito todo o influxo, das civilizações distantes. A sua transformação será rápida, tanto mais que a sua população me parece muito inteligente, trabalhadora e sensata.

Como nas outras localidades do Estado, vejo-me sempre rodeada de mulheres amáveis e interessantes.

Há entre estas uma, a bem dizer ainda criança, cuja cabeça loira de finos cabelos revoltos, faz-me pensar na noiva de David Coperfield. Somente, que diferença moral entre a leviana Dora e esta criaturinha, que é já uma educadora, e que ensina, espalhando com as suas mãozinhas de princesa desterrada, carícias sobre as cabeças das criancinhas pobres.

Como em todas as outras cidades passo horas aqui a visitar asilos e escolas; vejo as rudimentares; assisto a magníficas aulas no Ginásio; demoro-me a folhear livros na Biblioteca Pública, a mais antiga do Estado e que dispõe, como a de Pelotas, de um bom salão para conferências.

É bem expressivo isto de se encontrar em cada uma das principais cidades rio-grandenses uma biblioteca pública, grande e bem organizada.

É noite. O carro que me leva atravessa um bairro baixo, que as chuvas inundaram transformando-lhe as ruas em rios.

Agora, passada a enchente, sinto que as rodas do veículo se vão afundando em lodo grosso até pararem em frente a uma casa fechada.

Hesito em bater, mas decido-me. Dentro de curtos instantes vejo-me numa salinha agasalhada, em face das duas irmãs Julieta e Revocata de Melo, que há longos anos cultivam sem desânimo a literatura, escrevendo livros e publicando regularissimamente um jornal onde comentam o movimento espiritual do país. Espanta-me tamanha energia e tão paciente tenacidade em duas pessoas idosas, de aparência tão frágil e às quais as tempestades da vida têm sacudido por vezes brutalmente.

A natureza tem segredos curiosos e o destino das coisas outros não menos interessantes. Quantas e quantas revistas e jornais, criados entre nós com o bafejo de gordos capitais e de grandes nomes feitos nos maiores centros brasileiros, sossobram mal dão os seus primeiros passos na existência, e entretanto a modesta folha escrita por estas diáfanas mãos femininas, já cansadas mas não desiludidas, logra varar o tempo durante anos e anos, ininterrompidamente!

É mais uma prova, e bem expressiva, da energia da mulher rio-grandense.

— Uma lenda? ora graças!

— Pouco mais ou menos, respondeu-me alguém pousando a mão no espaldar alto e esguio de uma cadeira acolchoada de sedas vistosas, e que figurava ao lado da mesa de trabalho do Sr. Intendente Municipal.

— Conte lá, que eu não perdi o costume de gostar de histórias.

— Isto representa um caso de simpatia e nada mais. Quando o atual intendente tomou posse do lugar, como os seus antecessores tivessem morrido em pleno exercício das suas funções governativas, a cadeira da Intendência Municipal começava a ser considerada pelo nosso povo como fatídica. Foi então que os portugueses da Ilha dos Marinheiros, localidade próxima de imensa prosperidade e intensíssimo movimento agrícola, lhe ofereceram esta, para que o novo intendente, por cuja vida eles se interessavam, não sucumbisse à guigne da outra.

Ora, embora esta outra continue a servir, é justo que a cadeira votiva se conserve em lugar evidente no salão da Intendência, como símbolo da bondade espontânea da alma popular.

— E essa Ilha dos Marinheiros?

— É um grão de oiro; o mais fecundo de todo o Estado. Só a sua lavoura enche vapores e vapores de produtos, que exporta para o norte e para as repúblicas do Prata. Além de rica, a Ilha dos Marinheiros é um dos lugares mais pitorescos do Sul.

Impelida pelo movimento comercial e crescente do seu porto, que dentro de alguns anos terá transformado esta cidade laboriosa mas modesta, numa capital de considerável importância, o Rio Grande se espreguiçará um dia até ligar-se a Pelotas por um bosque de pinheiros ou de eucaliptos que saneiem o solo e aromatizem o ar, atenuando ao mesmo tempo, tanto os malefícios dos terrenos baixos e encharcados, como a brancura árida dos seus areiais.

Parece que esta ideia já flutua por entre os projetos de reformas, e de futuros melhoramentos municipais.

O grande impulso para a realização desses melhoramentos, além de ser dado pelo novo cais, será também movido pelos modernos frigoríficos, enormes armazéns que uma famosa empresa americana está construindo e que, com as suas instalações para a matança do gado, para a exportação de carnes congeladas, couros, etc, vem substituir as tradicionais charqueadas, que empestam o ar de mau cheiro e de moscas, elementos estes não só contrários à saúde, como ao conforto, à elegância e à felicidade da vida.

Nestes frigoríficos, em poucos minutos o animal é reduzido a postas para bifes; a couro, para sapatos; a pó de osso, para adubo de rosas; sem que aos ouvidos de ninguém chegue o som magoado de um gemido, nem às narinas o menor vestígio desagradável ao olfato. Só isso, meus amigos, que benefício!

É possível, entretanto, que pelo menos nos seus primeiros tempos, essa empresa suscite uma certa crise no comércio do Estado. São os inevitáveis percalços das reformas radicais. porque os criadores, sabendo que os americanos pagam bem a sua mercadoria, bem possivelmente preferirão vender-lhes, a eles, o seu gado, e assim os charqueadores brasileiros começarão a sofrer as desvantagens de uma concorrência de tão grandes proporções.

Passado o desequilíbrio do momento, caso ele se dê, concordarão todos na excelência destes novos sistemas de matança expedita e asseada.

O frigorífico que eu visito, edificado à beira mar, entre colchões de areia em que os pés se afundam, tem o salão da — Morte — no seu andar mais alto, talvez para que a alma do sacrificado suba ao céu com menor trabalho. Mesmo nos propósitos mais egoístas dos homens, pode residir um fundo de inconsciente piedade... Para não dar aos bichos a sensação, nem sempre agradável, do ascensor, nem os obrigar a subir degraus, ao que não se sujeitariam de bom grado, fizeram em aclive suave uma rampa que vai desde a praia até ao alto do edifício, para que os bois subam por ela sem resistência até ao patíbulo que os espera.

Também eu subi essa rampa, e, não direi que a subi com perfeita impassibilidade, porque tive pena dos pobres animais.

Mas estas coisas não se confessam em terras gaúchas, onde o hábito de ver matar e carnear o gado, torna o ato da matança uma cousa perfeitamente indiferente..

Do salão da Morte descemos a outros salões e percorremos terraços amplos, em face do largo mar de um azul forte que o vento encrespa.

Há mais de uma hora que não oiço ao redor de mim senão vozes inglesas. Dir-se ia que estou em um dos empórios industriais americanos, entre caras cor de lagosta e cabelos cor de milho, tantos são os operários desse país que borborinham por entre os blocos de cimento, as vigas de aço, e as grandes vidraças corredias dos seus armazéns e dos seus escritórios.

Atravessávamos o bonito jardim da Praça Tamandaré, quando parei, de súbito, vendo diante de mim a estátua de Bento Gonçalves, toda destacada no fundo violáceo da manhã fria. O coração bateu-me no peito. Há muito que eu não sentia uma emoção de arte, e creio que escandalisei com as minhas incontidas exclamações de entusiasmo os poucos pássaros que por ali se entretinham a debicar nos gramados tostados pela geada.

Já em Porto Alegre Filipe de Oliveira me tinha falado com emoção desta escultura do grande mestre que é Teixeira Lopes. Conhecendo a sua obra, e admirando nela tudo quanto de mais prodigioso, sugestivo e belo podem realizar o talento, o sentimento e a técnica de um artista tão excepcional como ele é, foi ainda assim no abalo de uma maravilhosa surpresa, como se a cousa fosse inesperada, que eu contemplei esse monumento, digno de uma bela, de uma grande capital de arte.

Em pé, no alto de um pedestal de linhas harmoniosas, o guerreiro Bento Gonçalves, fardado de general, aperta com o braço esquerdo, freneticamente de encontro ao peito a bandeira que toda lhe escorre pelo flanco, enquanto com o outro braço estendido, segura na destra a espada nua, que se desenha no ar em linha oblíqua.

Ergue-se-lhe a cabeça num gesto altivo, sente-se-lhe a voz imperativa na boca aberta e fremente; todo ele é força viva, todo ele é vibração, todo ele significa: coração para amar, braço para defender, voz para aclamar a Pátria!

A seus pés, a meio pedestal, lutam dois formosíssimos leões, símbolos da Monarquia e da República. Esta está subjugada, mas não morta.

Sente-se-lhe na dureza do bronze o latejar da carne, a nervosidade da cauda, o desespero das garras crispadas e que fazem prever que de um instante para o outro, o papel dos lutadores possa ser invertido; o outro leão, em atitude altiva de rancor e de orgulho, pousa as patas dianteiras sobre o ventre do inimigo, e olha para diante com expressão de domínio e de ódio.

O escultor profético não dilacerou a fera vencida; ela está por terra mas toda ela é vida que se contrai, que sofre, mas que espera. E o que ela conseguiu, todos nós o sabemos.

Bastaria esta hora de contemplação, que passou tão rápida mas que se cristalizou para sempre na minha memória, para me dar por feliz nesta viagem.

São raros, mesmo nas capitais mais artísticas do mundo, monumentos de praça pública que saibam aliar, como este alia, a harmonia à majestade e a expressão do sentimento à perfeição técnica da obra. Abençoado quem se lembrou de confiar ao artista, que é hoje não uma glória de Portugal mas uma glória da Europa, o que equivale a dizer do mundo, a execução de tamanha homenagem.

Pegam-se-me os pés ao chão; é pela urgência das circunstâncias que, fazendo violência sobre mim mesma, abandono o meu posto de admiração feliz. E até entrar no carro, ao atravessar a praça Tamandaré, volto a cabeça para ver, enquanto posso, a estátua admirável.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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