Universo da obra
Universo da obra
BAGÉ
É curioso, nesta terra em que os trens de ferro gozam da má fama de chegarem às respectivas estações com atraso, eu tenho quase sempre a felicidade de chegar no horário justo. Os amigos que me esperam sofrem com isso certo desapontamento... Quando entram na gare para receber-me, já eu lhes estou a bater à porta.
Em Bagé, o carro que me conduz da estação à cidade, cruza-se com outros em que pessoas surpresas voltam para mim os olhos com expressão de espanto:
— Quê! será possível que o trem tenha chegado hoje a hora certa?!
— Sim senhores, chegou, que assim o quis a boa estrela que por estas bandas do Sul me vem guiando os passos.
A tarde, luminosa e seca, envolve a alegre cidade da campanha num véu tecido com poeira loira e fulgurações de um poente magnífico. Como em muitos dos outros lugares já visitados, o horizonte aqui é amplo e sugestivo. Já no trem, a olhar para os campos de infinita planura onde a claridade se diluía numa só onda larga e mole, estranhei comigo mesma que não tivesse sido um rio-grandense o inventor do aeroplano. Não conheço região alguma em que se veja tanto céu, nem onde, por isso mesmo, o homem se possa queixar com maior justiça de não ter asas.
A sombra trágica das montanhas alucinadoras não projeta aqui a sua taciturnidade, nem elas com os seus vultos disformes interrompem a vastidão da campina, que se funde ao longe com o azul do céu numa linha suave, de cor intraduzível. Às vezes esses campos se desdobram todos em rugas achamalotadas, a que chamam: — coxilhas, e são como ondas de um oceano estático. Mas por sobre o ondeamento de coxilhas ou de planuras lisas, a mesma sugestão de liberdade acorda no forasteiro a vontade de percorrer extensões largas em galopadas formidáveis ou em voos a pequena altura. A pequena altura, porque suponho ser preciso que o homem não se afaste demasiadamente da terra, para poder gozar mais profunda e deleitosamente todo o encanto do seu desprendimento. Subir demais, é como que renunciar a tudo, sentir cortadas as suas raízes terrestres, ser, no isolamento do vácuo, como que um ente diverso, perdido, e sem pensamento.
As ruas que percorro até chegar à hospitaleira vivenda de Milton e de Rosalina Cruz, que me esperam com todo o coração, são ruas largas, bem alinhadas e algumas das quais arborizadas. Agrada-me esta circunstância, tão pouco comum me parece no Rio Grande o gosto pela arborização urbana. Pudesse eu ter a eloquência de um Antonio Vieira, e o poder sugestivo de S. Francisco de Assis, que em cada burgo ou cidademais ou menos árida por que passasse, arvorando-me em sacerdote panteísta, pregaria às turbas o amor pela árvore e pela sua cultura.
Explicou-me um dia alguém, de teorias teosóficas, que em outra vida precedente eu deveria ter sido botânico, ou, pelo menos, jardineiro.
Julgo mais de acordo com o meu espírito a simplicidade desta condição de servidor humilde das coisas belas, que não as sabe explicar mas tem alma para as compreender
Na sala elegante do casal Cruz, vejo reunida a fina flor da sociedade do lugar, e verifico mais uma vez quanto a mulher rio-grandense é animada e inteligente. Faz-se música, e oiço uma voz de soprano dramático nascida para comover grandes plateias; palestra-se, e os argumentos que se cruzam têm algo de interessante; dança-se, e a elegância dos gestos e dos vestuários revelam educação e bom gosto. Há sobretudo um grupo de meninas, na radiante idade do alvorecer da mocidade, que daria ao pintor mais fino admiráveis modelos para cabeças de arte. Serão mais lindas as moças de Bagé do que as das outras localidades do Estado? não o afirmo, porque em todas há mulheres bonitas e em todas ouvi dizer aos rapazes que: — as mais formosas rio-grandenses eram as da sua terra natal. Ora pois, antes assim.
Há em todas as cidades do interior uma personagem de destaque, cujo nome é citado com frequência, quer seja pela irradiação da sua simpatia pessoal, quer pelo predomínio da sua ação ou da sua inteligência na localidade.
Cabe aqui este papel ao Sr. Visconde Ribeiro de Magalhães, que não conheço, porque no frio inverno em que visito Bagé, goza no Rio de Janeiro a delícia de uma temperatura primaveril.
Todos me falam da Estância do Sr. Visconde; da charqueada do Sr. Visconde, para que ele construiu belas estradas para automóveis; da igreja do Sr. Visconde e do teatro que ele fez construir para a fé e a distração dos seus operários. De resto, eu desse senhor recebi logo ao chegar uma gentileza, com a ordem por ele deixada de ficar à minha disposição o seu automóvel particular.
Foi nesse excelente carro que percorri as estradas que serpeando por entre macios tapetes de um verde tenro e fino, sobem ao Cerro, de vista larga, ou vão aos pomares cheirosos da quinta de sua excelência, pomares bem cultivados e onde as laranjeiras vergavam ao peso da fruta madura.
Como em toda a parte, passo horas aqui visitando escolas, que são os templos da minhá devoção, igrejas e hospitais. Em uma destas visitas conta-me o vigário da Matriz a história interessante de um orfanato criado por inspiração de uma preta, e o que é mais singular: uma preta pobre, e que só pelo influxo da sua piedade e da sua energia consegue manter em Bagé, sob humilde teto, um rancho de órfãos a quem dá pão e mestres.
Um dia, essa mulher lhe aparecera após a missa, na sacristia da Matriz para a confissão de um pensamento que cada vez mais avultava no seu espírito mas que ela tinha certo pudor de revelar, tão insignificante e miserável se considerava na sociedade como diante de Deus. Essa obsessão era a de dedicar-se, só e absolutamente, ao cuidado de criar crianças sem pais. Sentia uma grande ternura maternal a encher-lhe o coração e tinha coragem bastante para arcar com todas as responsabilidades de tamanha empresa. A sua pobreza e a sua raça tiravam-lhe a força e o prestígio que essas ideias requerem, e assim vivia na tristeza de ver esgotar-se sem nenhum proveito a energia da sua vontade e as horas mais aproveitáveis da sua existência inútil.
O vigário recebeu com as duas mãos a oferta daquele coração, e ajudou a pobre a realizar com modéstia um pequeno asilo de órfãos a que ela consagra hoje toda a sua vida.
Quando entrei nessa casa de caridade, veio receber-me uma mulher alta, vestida com uma túnica de burel pardo cingido ao corpo por uma corda, como as das monjas
De sua face escura irradiava simpatia e bondade. Era ela. É a primeira vez que vejo no Brasil realizada uma obra de benemerência por uma mulher da mais humilde condição, pobre e de cor
How wonderful is Death,
Death and his brother Sleep!
SCHELLY.
A minha amiga faz um gesto ao chauffeur, que para o auto junto ao portão de um vasto terreno murado de branco.
A manhã desfaz as últimas neblinas num azul deslavado picado de frio. Entro. É a primeira vez que visito um cemitério rio-grandense. Trazem-me a este para ver túmulos bonitos — e alguns deveras o são. Estranho mesmo o estilo e a pureza de algumas esculturas bem feitas, tão mal habituada estou a só ver na maioria dos nossos cemitérios duras e mal acabadas imagens de marmoristas comerciantes.
Os mortos de Bagé não devem ter muita razão de queixa da sua instalação.
Alguns têm mesmo moradas suntuosas. Percebe-se por elas que este povo é amigo do luxo e da ostentação. O caráter dos seus vizinhos platinos comunicou-lhes naturalmente esse amor pelas aparências, o brilho das exterioridades, que distingue as gentes de Espanha das dos outros povos. A melhor parte dos mármores e bronzes que ornam esta sagrada terra de repouso veio trabalhada e pronta do Uruguai e creio ter ouvido que também da Argentina, onde, como se vê, os bageenses se fornecem não só de coisas para a Vida como para a Morte, que o sonhador poeta inglês denominou de maravilhosa:
"Como a Morte é maravilhosa,
A Morte e o Sono, seu irmão!"
Tenho porém a impressão, certamente ainda mais absurda do que esquisita, de que o sono de um morto que jaz sob lápides faustosas não pode ter a mesma tranquilidade profunda do daquele que dorme sob um modesto lençol verde de hera viva. À beira deste sinto a quietação de um sofrimento extinto; à beira do outro parece-me perceber através dos poros da pedra polida o raio oblíquo de um olhinho agudo, observando a impressão que causa ao forasteiro a pompa da sua última morada.
A sociabilidade do Rio Grande está manifesta na quantidade de clubes que tem espalhados por todas as suas cidades. Nos pouquíssimos dias que me demoro em Bagé assisto a duas grandes festas em dois deles. São os principais da terra e, como tais, existirá naturalmente entre ambos essa pontinhá de rivalidade que aguça energias e estimula a vaidade.
A primeira festa teve a originalidade de ser organizada e dirigida por um grupo de meninas da mais requintada amabilidade, no Club Comercial; a segunda foi no Club Caixeiral.
Aliás parece que são por esses nomes batizados quase todos os clubes do Rio Grande!
Pois poucas vezes tenho visto salões tão cheios e tão alegres como os salões deste vasto — Caixeiral — A casa é enorme.
É a sexta ou sétima noite de uma quermesse de caridade. Há tendas graciosas esparsas por todos os recantos do edifício. As tendeiras vestem-se a caráter: de floristas, as que vendem flores; de ciganas, as que leem sortes; com bonés de estafetas, as que levam os telegramas e os postais da tenda do correio para vários pontos das salas, profusamente floridas e iluminadas. Há música, há riso, e há também discursos. Como em muitas outras vezes, percebo, sinto latejar ao redor de mim a curiosidade pelas palavras que supõem eu irei pronunciar diante da multidão fremente. O meu silêncio deve parecer a todos indelicado, e, do fundo da minha perturbação peço ao Deus dos Exércitos que faça sentir a esse grande punhado de almas que me rodeiam, que eu, se lhes não digo coisas, é porque sou incapaz de as exprimir num discurso!
Deveria ter partido ontem para Santa Maria, e deixei-me ficar mais um dia, solicitada pela deliciosa preguiça que o luminoso céu de Bagé me infiltrou nas veias. Neste último dia caminho a pé pela manhã, para fixar aspectos e observo que também aqui, como em quase todos, ou todos os lugares do Estado por onde andei, há, guarnecendo a cidade com um dos seus melhores edifícios, um hospital de Beneficência Portuguesa, prova eloquente do esforço, da inteligência e da previdente bondade de uma colônia que é, entre todas, a que maior coparticipação tem na nossa vida e a que mais evidentes e profundos sinais dá sempre da sua amizade e do seu interesse pela prosperidade do país. À tarde vou a chás particulares de muito carinho, onde verifico que as bageenses recebem bem, e dou depois uma volta de carruagem à Cova do Candal, nome que me traz à lembrança a "Doida" do grande Camilo; doida que espero a todo o momento ver surgir de um dos declives do terreno a sacudir-me de longe adeuses em gestos largos e românticos.
Antes de apagar a lâmpada noturna, leio ainda uma revista de Porto Alegre e estremeço ao encontrar nela a afirmação de que ao despedir-me do Estado falo mal das suas coisas e da sua gente! Oh, meus Senhores, para quê esta gotinhá de veneno numa taça de tão pura ambrosia? Não! tudo quanto eu poderia ter dito foi tudo quanto aqui escrevi.
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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