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Capítulo 36 · Jornadas no meu país

Capítulo XXXVI — Santa Maria

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Parto de Bagé ao alvorecer do dia, e só ao cair da noite deverei chegar à cidade de Santa Maria. Como em todas as viagens que tenho feito através do Estado, vejo os campos sempre animados pela presença de um exemplar ao menos de gado vacum ou cavalar ou por pequenos bandos de avestruzes pardos, que se movem na tela iluminada em passadas largas e tristonhas, com a singular expressão de almas penadas vindas à Terra em dura penitência.

Suponho que ainda ninguém aqui procura explorar esta ave no comércio das plumas, a exemplo da África Central, que haure dessa indústria somas fabulosas, se não mentem certos artigos de revistas ilustradas que se têm ocupado do assunto pelo seu pitoresco e a sua utilidade.

No Rio Grande do Sul não há sertões. Todo o solo por que tenho passado está demarcado por propriedades particulares bem determinadas pelas respectivas cercas de arame. Eu quisera ir à fronteira e jornadear, não em comboios de caminho de ferro fagulhantes e guinchadores, mas nos tejadilhos de diligências à antiga, através de pradarias verdes sem traços de estradas e perseguidas por avestruzes irriçados, enlouquecidos pela fascinação dos metais reluzentes dos arreios ou pelos olhos chamejantes dos animais.

Tenho um compromisso com Sta. Ana do Livramento e seria agora a ocasião de o pagar, mas o tempo de que disponho é tão escasso que sou obrigada a adiar esta promessa para quando, não sei.

Os pastos que vejo agora pela janelinha do vagão, parecem-me de erva menos fina e mais áspera que as dos campos que vi anteriormente.

Ornamenta-os em grupos tufosos um arbustozinho crespo como a carqueja dos montes, e a que dão o nome, se não entendi mal, de — xirca. Deve ser aproveitável no aquecimento de fornos e de fogões. Reparando para o interesse com que olho para tudo, aponta alguém para a cancela de uma propriedade, dizendo-me ter ela sido feita por um modelo de excelentes comodidades práticas de invenção do ilustrado agricultor Dr. Assis Brasil, sempre interessado, nos máximos como nos mínimos detalhes, pela lavoura do país.

Em um banco fronteiro ao meu um viajante velho, de chapéu de feltro e ponche riscado, não resistindo ao desejo de conversar, porque o gaúcho é palrador e expansivo, pergunta-me se sou francesa. A resposta de que sou do Rio, pede-me notícias da guerra. Que se diz na Avenida sobre o valor do marechal Foch ou sobre os arreganhos do Kaiser?

Aí de mim! dou-lhe informações que o não satisfazem. Ele quer saber mais, quer saber tudo!

Tal e qual como eu; mas teremos ambos de sufocar dentro do peito a curiosidade trepidante que nos faz volver os olhos, ansiosamente, através dos mares inquietos e profundos.

Por fim ele exclamou com um suspiro filosófico:

"Seja o que for, a gente há de saber depois! "'

Ao meio do dia, em uma das estações mais animadas onde o trem fez parada, olhava eu distraidamente pela janela, quando de um grupo que estava a palestrar na gare se destacou uma bela senhora, gorda e bem posta, que veio até a mim e, apontando para um sujeito esfarrapado a quem, se me não engano, deu o nome de Rosas, disse:

— Repare para aquele homem que ali está e que parece um mendigo e fique sabendo que é um milionário! Um grande milionário!

Feita a extravagante revelação voltou placidamente a conversar com os amigos enquanto o trem se punha em marcha e o vento fazia esvoaçar em acenos desesperados as abas esfarrapadas do sobretudo do Rosas.

Fiquei assim sem saber o que mais admirar: se a sordidez do ricaço, se a necessidade de expansão da inquieta alma cristã que ma revelara.

Fez assim com que na minha carteira, rabiscada à pressa numa reportagem de caminho de ferro, não faltasse esta nota de humana tristeza. Senhor! como esta coisa da fortuna está mal dividida na Terra!

Por que há de um artista com fantasia e gosto para tirar do ouro um gozo imaterial e divino desconhecer a glória do milhar de contos e estarem estes quietinhos na algibeira imunda de um homem que os não quer utilizar nem ao menos na compra de um par de sapatos ou de um casaco decente!.

Chego à noite a Santa Maria. A cidade está numa situação anormal, por causa de um crime que há dias lhe abalou os nervos.

Como terei de seguir viagem de madrugada, saio à noite para colher uma impressão da cidade e tenho a surpresa de a ver animada, na sua rua principal, que está cheia de moças que passeiam aos grupos para baixo e para cima.

É o dia da moda, explica-me um casal amigo e que passeia comigo. Há um ar espanholado no ambiente que se respira e na maneira desenvolta das pessoas que passam. Volto para o hotel bem impressionada pelo que vi e pelo que adivinhei no escuro dos trechos apagados. A cidade é maior do que eu pensava e interessante.

O que não posso conseguir, embora para isso esteja pronta, como o bispo do poeta— a empenhar até a cruz e o anel, — é um leito no trem que em estirado caminho me deverá conduzir ao Paraná.

Positivamente, parece-me demais ter de passar dois dias e uma noite sentada num vagão, e mal imaginava eu ainda que espécie de vagão! Percebendo a inutilidade dos meus rogos e não me resignando a empreender uma viagem tão desconfortável, resolvi demorar-me mais alguns dias em Santa Maria, até conseguir a acomodação desejada em outro trem. Dá-se então esta coisa fantástica: sorridente e implacável, o bilheteiro afirma diante de testemunhas impassíveis, que dentro de quinze dias eu não poderei arranjar um só leito em viagem entre o Rio Grande e S. Paulo! Está tudo, tudo tomado com antecedência!

Clamo, esbravejo, desespero-me, mas a minha infelicidade não comove ninguém e acho mais prudente refletir sobre a conveniência de voltar à cidade do Rio Grande, para ali tomar um vapor do Lloyd ou da Costeira. Afinal, para abreviar acabo por comprar a minha passagem sem cama. Estamos em tempo de guerra em que o vulto das grandes atribulações diminui a importância de tudo o mais. Imaginarei que sou uma dama da Cruz Vermelha em travessia por uma zona perigosa, e a minha imaginação emprestará assim à realidade um pouco de aventura e utilidade.

De madrugada, antes de tomar o trem entro no bufê da estação, para o café. A proprietária ou gerente da casa é uma moça delgada, pálida, vestida de luto, de ar vivo e gesto lépido. Enquanto em uma mesa próxima ao balcão eu me vou servindo resignada e previdentemente de pão com manteiga, o hoteleiro que me hospedou relata-lhe a tragédia da minha viagem.

A pobre senhora logo toda se atormenta à ideia do que me espera, e promete intervir doce e espontaneamente, a ver se atenua o meu desconforto. Que poderá ela fazer? Pergunto a mim mesmo, ao vê-la correr à bilheteria e da bilheteria a um médico político do lugar, que reservara só para si todos os lugares do carro-salão, para vir à vontade com a mulher e os filhos. Foi com os olhos a reluzir de tristeza que me veio confessar a inutilidade dos seus esforços. Já eu estava acomodada no meu lugarzinho sem aborrecimento, disposta a tirar da minha viagem todos os proveitos possíveis, quando, no próprio minuto da partida a meiga criaturinha entra no vagão, corre para mim e atira-me no colo um pacote de bon-bons. Não há tempo para um "obrigada" O trem parte.

Este incidente da última hora confirma, pelo que em si revela de carinho, de singeleza e de sinceridade, o que desde a minha chegada pensei da mulher rio-grandense — que ela é ativa, delicada e bondosa.

Mas que viagem, Senhor!

O trem imundo arrasta-se com uma moleza de preguiça moribunda, embora seja aquele a que denominam — Internacional — e que dizem oferecer mais comodidades aos viajantes do que os que partem em outros dias da semana. Nem ao menos restaurante ele traz, por motivos que me explicam e a que já mal presto atenção, porque em boa verdade não lhe sinto a falta. Um rico estancieiro que vem com a família a meu lado, conhecedor das agruras e do mau tratamento que inflige aos seus passageiros essa empresa ferroviária, apercebeu-se para o caminho com dois inesgotáveis cestos de ótimas iguarias e de bebidas finas, e faz-me gentilmente comparticipar das suas merendas. Sou assim acompanhada até fora de portas do Rio Grande do Sul, pela cativante gentileza da sua gente!

Tinham-me dito maravilhas das paisagens que vou descortinando, ora em regiões serranas, ora à margem de rios suaves; e talvez pelo exagero da promessa nada vejo de imprevisto nem grandemente comovedor.

Referem-me então que os mais belos trechos da paisagem são passados na hora das trevas, e em que nem ao menos tenho, para consolação, a possibilidade de repousar, dormindo. Não importa, para isso terei toda a eternidade! O principal, enquanto existo, é sentir a Vida, seja como for.

Apesar de toda a minha filosofia, lembro-me de vez em quando, com um saudoso suspiro, da minha cabine do Itaberá e dessa viagem azul, menos monótona e menos cansativa do que esta verde que venho fazendo através das matas, ao fechar o circuito da minha jornada.

Haverá talvez ainda uma impressão moral a influenciar sobre esta comparação: é que então eu vinha e agora eu volto, e onde a esperança punha uma expressão de júbilo é bem possível que a saudade ponha uma sombra de melancolia.

Jornadas no meu país

Sinopse

Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.

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