Universo da obra
Universo da obra
Perdi a noção do tempo, perdi a noção de tudo; já não sei há quantas horas tenho vindo sacudida, como arroz em peneira, na malsinada — Internacional — quando salto em Ponta Grossa, no Paraná, mas salto para entrar em outro trem que me transportará a Coritiba! Antes de me abalançar à nova aventura verifico prudentemente em cautelosas apalpadelas se terei costelas fraturadas ou carne escoriada, e só depois de certa da minha extraordinária resistência física, é que me aboleto no comboio novo, na certeza de que, tão mau como o outro ele poderá ser, mas nunca pior. Este é, pelo menos, limpo. Respiro!
Mal o trem se põe em movimento, eu, disfarçando o cansaço na curiosidade, enfio a cabeça pela janelinha do vagão, na ânsia de ver a terra nova.
O sol de um dia hilariantemente azul chameja sobre campos vastos e silenciosos, mal cobertos por gramíneas crestadas pela geada das noites antecedentes.
Para que me sobeje tempo de as contemplar, a locomotiva que nos arrasta estaca de repente atrás de um vagão tombado e abandonado na linha. É o próprio pessoal que vem no nosso trem que trata de remover para fora dos trilhos o trambolho pesado que nos estorva a passagem. Perdemos assim um tempo infinito na pasmaceira de uma estrada nua, quando o poderíamos ter aproveitado repousando ou passeando em Ponta Grossa, a poucos quilômetros de distância. Para que servirão a estas inefáveis administrações o telégrafo e o telefone?
Para entreter-nos na ociosidade, passa sobre a nossa cabeça uma espessa nuvem de gafanhotos, terror dos campos cultivados.
À noite, depois de ter reparado no Grande Hotel de Coritiba as desordens de uma viagem memoravelmente maçadora, dou um giro pela rua principal e vou à porta dos jornais ler os boletins da guerra.
As notícias são animadoras. Os aliados resistem nuns pontos e avançam noutros. Durmo esta noite um sono admirável.
Como já vos disse, não procureis literatura nestas páginas; elas estão apenas cobertas por apontamentos feitos a lápis num caderno de ocasião e os caráteres assim traçados são sempre inexpressivos e facilmente perecíveis, o que fez dizer a um escritor francês: escrever a lápis é como falar baixinho, sem se lembrar que no que se diz em segredo está quase sempre o que há de mais profundo e mais interessante na Vida.
Pois mereceria as tintas de uma aquarela a graça de certas cenas que observo nas ruas de Coritiba, ao fazer o meu primeiro passeio matinal. A cidade foi lançada em traços largos; não tem vielas, tem avenidas e praças amplas; prognosticou-lhe com isso quem a planejou um futuro de grande movimento e de riqueza.
A população é toda branca e bonita.
Por muito tempo vejo caminhando na minha frente, na calçada, duas raparigas loiras, de pernas nuas até aos joelhos e que conversam de volta do mercado, carregando nas mãos cabazes cheios de verduras, enquanto que, de face para mim, vem vindo, repolhuda e risonha, uma velha de avental de zuarte azul, sapatões amarelos, olhar cristalino, nariz — bico de pato — dos polacos, com dois gansos gordos pendentes dos seus dedos engelhados e fortes. De vez em quando, pelo meio da rua vejo passar uma carrocinha de leite, legumes ou frutas, guiada por uma mulher que vai sentada na boleia, de chicote em punho.
Vem naturalmente de longe, mas não tem o ar cansado.
O frio pôs-lhe no rosto, de carnação dura, um rubor de morango empapado em leite e na sua rusticidade, ela realiza um quadro de gênero, encantador
Dizem que ao levantar da cama todos são feios, e, a crer nisso, que deverei supor desta gente de Coritiba, que mesmo de manhã cedo me parece bonita?
Parando aqui e acolá, vou de rua em rua até às oficinas de uma marcenaria, onde se prepara uma obra que me interessa. Subo por uma rampazinha escarpada e entro em um barracão onde jazem não sei quantas tábuas de Imbuia e de Peroba revessa de nada menos de um metro e vinte centímetros de largura. Qualquer delas poderia servir para uma grande mesa de banquete. Mas o que nelas me espanta não é o tamanho, é a beleza.
Numa sala interior mostram-me trabalhos em andamento e outros admiravelmente acabados e ninguém pôde imaginar a espécie de gozo que sinto ao ver os desenhos caprichosíssimos e simétricos que as raízes e os toros (torras como aqui se diz) das Perobas, apresentam aos olhos da gente, depois de aparelhadas e envernizadas.
Nenhum artista saberia criar motivos mais finos nem mais simétricos do que estes que a rude plaina de um operário desvendou no interior de um pau tosco ao prepará-lo para a pequena mesa que tenho diante dos olhos, e em que eles semelham jarras pompeanas transbordantes de grinaldas que serpeiam em festões delicadíssimos por todo o tecido da madeira castanho-loira.
A natureza escondeu nas ágatas do Rio Grande do Sul e no interior das árvores do Paraná, segredos de uma beleza enternecedora. E, como tudo criado tem, ou deve ter, explicação, fico a pensar no mundo de inteligência que existirá no íntimo dessas coisas, para merecerem de Deus tão grande formosura.
Vindo de visitar a Universidade de Coritiba, que parece ser uma daquelas em que melhor e mais se estuda no Brasil, vejo passar na rua um batalhão de boys scout marchando com garbo e convicção, seguido por um grupo de girls scout, grupo igualmente disciplinado e convicto.
É uma meninada forte e simpática, em que se entrevê a alma de amanhã irradiando honestamente numa bem pronunciada expressão de energia moral. Pergunto a alguém a meu lado quais são as atribuições das meninas no escotismo, ou se já haverá funcionando no Paraná a famosa associação da — Girls Guide — tão ardentemente chefiada na Inglaterra por Lady Baden Pawell, na moderna mania de tudo militarizar Respondem-me que não; o traje que vejo nas meninas que vão passando em ritmo marcial diante dos meus olhos, é meramente um uniforme colegial.
Vejo que há no Paraná a preocupação patriótica da criança. Compreende-se aqui a simples e pura verdade de que tudo que se quer perfeito deve ser começado pelo princípio. Assim o homem precisa aprender desde o berço a ser gente, mas gente útil, boa, sã de corpo e de espírito. Esse desejo de aperfeiçoamento moral e físico está bem evidenciado na iniciativa do governo que não se cansa de criar escolas e disseminar pela população o gosto pelo estudo, feito com a alegria e o interesse que a pedagogia moderna preceitua.
Tenho visitado vários colégios públicos em Coritiba e em todos encontro entusiasmo, tanto nas professoras como nos discípulos, mas em nenhum deles a impressão que recebi de agrado foi tão profunda como no do Jardim da Infância, adoravelmente dirigido por uma moça de expressiva bondade e manifesta competência para o cargo que lhe foi confiado e que, mais do que nenhum outro, exige dotes especiais, quer os adquiridos por uma instrução sólida, quer os da alegria natural, e benignidade de caráter.
A criançada, toda pecurruchinha e vestida de branco da cabeça aos pés, dava à Escola uma impressão de pombal, fremente de asas rumorejantes.
E de tal modo se divertem os petizinhos nas marchas e cantos das suas disciplinas e na convivência com as mestras e os condiscípulos, que, em dia em que as mamãs não os deixam ir às aulas por qualquer motivo imperioso, eles se desfazem em lágrimas de desespero.
A culpa não é minha se excedo os minutos da pragmática na primeira visita de cumprimentos ao chefe do Estado, Dr. Afonso Camargo; a culpa é toda sua, que me prende a atenção falando-me das belezas naturais do seu querido Paraná.
Conversamos na sala do seu palacete particular, em um dia de frio e de beleza, enquanto que de um compartimento próximo nos chegam aos ouvidos os sons de um piano tocado em surdina. As mãos que o dedilham, leves e virginais, não foram feitas para arranhar, sente-se-lhes a tendência da ternura no modo ainda tímido por que percorrem o teclado
Dr. Afonso Camargo, estadista moderno e conciliador, que a minha perspicácia não adivinha por que motivo não aparecéu ainda na cena do nosso palco político do Rio de Janeiro, preferindo conservar-se nas altas terras serranas de Coritiba, conta-me o prazer que teve um dia com uma visita de Santos Dumont, pelo que essa visita lhe revelou de patriotismo e de entusiasmo.
Nenhum de nós, que ame a sua terra com um pouco de intelectualidade além de coração, procura conhecer o Brasil no que ele tem de mais ignorado e maravilhoso com maior empenho ou paixão do que esse ilustre aviador, que é quase um parisiense. Se ainda ao menos ele pudesse realizar as suas excursões aos pontos menos favorecidos, ou mais inacessíveis, em aeroplano, compreender-se-ia, mas não! ele aventura-se a todos os perigos e a todas as maçadas das brenhas selvagens, lançando-se para o ignorado, não como um semideus por entre as nuvens, mas como um simples mortal por sobre terras pedregosas, duras ou espinhentas. Nada o aterroriza, nenhum desconforto o despersuade de ir até ao fim do seu desejo. Qual de nós, que tenha um pouco de imaginação, não sonhará com o ver a cascata de Paulo Afonso; a Serra do Cristal; o Amazonas; e essas prodigiosas sete quedas do Iguassú, cujas vozes onipotentes atroam pelas florestas e pelos campos a muitos quilômetros de distância?
Creio que todos nós! Mas quem realiza esse desejo? Raros, e esses raros por circunstâncias fortuitas ou casuais.
Santos Dumont é um devaneador ativo. Tem a ventura de ter alma de poeta, espírito de matemático e caráter decidido.
Quando, ou aonde não pôde ir voando, vai por seus pés, e vai muito bem. Assim chegou com duros e ásperos esforços numa tarde à beira do grande salto do Iguassú, e tão maravilhado e estático se quedou, que a noite caiu sem que ele se pudesse arredar dali, preso à fascinação do vozear sinfônico das águas espumosas.
Despontaram as estrelas, surgiu a lua pálida no céu profundo, e o contemplador, insatisfeito, ávido de beber ainda com a vista a beleza suprema daquele quadro espantoso, resolveu dormir no mato, para surpreender à beira da cascata o despontar do sol.
Ainda era escuro e já ele, de pé, esperava o prodígio.
Outra emoção o abalou ao raiar da aurora, além do que ele gulosamente esperava da cor e da luz: foi o irromper de uma infinita quantidade de aves, de entre as rochas, os musgos e os recôncavos rochosos da cascata, como se as águas se tivessem transformado em asas para mandarem a sua embaixada de saudação ao dia.
Inebriado e feliz, o peregrino do Sonho e da Beleza sente estremecer-lhe no peito o orgulho de ser filho de um país tão prodigioso e então indaga, inquire, com sofreguidão, a quem pertencem as terras marginais do Salto.
Respondem-lhe que parte delas tinham sido adquiridas do governo paranaense por gente do Uruguay. O negócio estava realizado; era coisa feita, irremediável.
Sem querer ouvir mais, Santos Dumont abala para Coritiba e vai ao Palácio da Presidência, onde entra chispando lume dos olhos ainda deslumbrados. Vem cheio de poesia, vem transbordante de sensações espantosas, reclamar para o Brasil o trecho de terra sagrada cuja posse tinha passado ao poder do estrangeiro. Canta em todos os tons louvores à cascata maravilhosa, mais potente que a do Niagara, que entusiasma o mundo.
A questão é complicada; requisitando terras já vendidas o Estado tem de conceder indenizações colossais; mas o apelo é atendido. Santos Dumont não perdeu o seu tempo.
O Paraná está realizando agora uma obra admirável com a construção de uma estrada de rodagem, que num imenso percurso servirá de traço de união entre o mar de água salgada do Atlântico e o mar de água doce do Iguassú.
Só para a percorrer, entre montanhas verdejantes e pinheirais aromáticos, valerá a pena vir gente de qualquer ponto do Globo.
As mais famosas cachoeiras do mundo empalidecerão em face da grande cascata paranaense e a estrada macia e imensa, aberta entre seivas vivas e rochedos escarpados, dará aos automobilistas ensejo para emoções de sport e de poesia.
Dessa lindíssima estrada há feito um trecho que desce de Coritiba a Antonina e que eu deverei conhecer amanhã, a convite do Sr Presidente do Estado.
O imenso salão de um cinematógrafo regurgita de crianças. A pedido do ilustrado secretário do Interior, Dr. Enéas Marques, entro para ver, não o espetáculo, mas os espectadores. Estes enchem literalmente o recinto e estão muito à vontade, trocando impressões e rindo com alegria. É a meninada das escolas populares; há desde pequerruchos do tamanho de uma bengala até rapariguinhas já crescidotas. A festa tem um caráter muito pitoresco e jovial. Bochechinhas cor de maçã madura estão mesmo a arrebentar de alegria e pelos cabelinhos loiros que esvoaçam ao sopro dos ventiladores, como que se sente lampejar o sol. Adultos, só os mestres que acompanham os colegiais e meia dúzia, se tanto, de convidados. Tudo mais é linda e adoravelmente infantil.
Olhando para os camarotes e a plateia apinhada de cabecinhas curiosas, vêm-me à lembrança um certo dia em que, em Poços de Caldas, tendo eu prometido contar no teatro uma história às crianças das escolas primárias do lugar, fui para o palco esperar o momento da subida do pano a arquitectar o enredo com que entreter a pequenada. Pensei que a coisa fosse fácil; pois quando o pano se ergueu e eu vi diante de mim um público que se assemelhava a um jardim, atapetando toda a sala de oiro e rosas, tive medo. A imaginação das crianças é exigente; que poderia eu inventar que as alegrasse? Nascéu assim o conto que em outro Natal mais tarde, publiquei com o título de: — "Era uma vez. "
Quando começou a projeção da fita os comentários e as gargalhadas dos espectadores eram de tal modo engraçados e comunicativos, que os poucos adultos que assistiam à cena começaram a rir também, embora a peça fosse de uma insipidez de fazer sono.
Há ainda restos de neblina flutuando no ar da manhã, quando com duas amigas e o Sr. Heitor Stockler, homem de letras e proprietário da principal livraria de Coritiba, me aboleta no automóvel que me levará vertente abaixo até Antonina, pela lindíssima estrada da Graciosa. O longo trecho que vou percorrendo é admirável, não só como construção e delineamento, como também como beleza. As paisagens circundantes desdobram-se em declives largos, de um verde frio, de que emergem, com as suas copas como taças em ofertório, imensos pinheiros, muito altos e muito escuros. Aos meus amigos devo parecer singularmente silenciosa, tanto estas árvores infundem ao meu espírito um sentimento de poética religiosidade, intraduzível na palavra. De vez em quando fazemos parar o automóvel e seguimos a pé, para caminharmos bem junto à ourela do caminho, guarnecido aqui e além pelas flores doiro dos Espinhos do Diabo. Enfiamos então a vista pela espessura dos bosques em rampa, em que luzem as ramas da erva mate, ou espraiamo-la demoradamente por vales e quebradas sinuosas.
Mas o caminho não é deserto. De longe em longe aparece de um ou de outro lado uma casa campesina, de madeira e de forma interessante, com telhado irregular, erguido em uma parte e todo derreado em outra, em estendida meia-água que desce até pequena altura do solo. Estamos no Brasil? Estaremos na Polônia?
As crianças que aparecem em grupo diante dessas habitações, arregalando para nós curiosos olhos azuis, são loiras, rechonchudas e vermelhas.
Ao vê-las tão bonitas remexo desesperadamente na algibeira à procura de papel e de tintas com que possa fixar-lhes para sempre as carinhas, esquecida de que nem sei desenhar nem tampouco trago um simples lápis de notas comigo.
Com as repetidas paragens a que o gozo da nossa contemplação nos obriga, a viagem que deveríamos fazer em duas horas de boa marcha, fizemo-la em quatro! Ao chegarmos à cidade de Antonina já o seu amável Prefeito Snr. Wheeler, avisado da nossa visita e assustadíssimo pela demora, se dispunha a mandar um automóvel buscar os nossos cadáveres, que temia pudessem estar caídos em alguma das voltas precipitosas do caminho.
De Antonina regressámos a Coritiba pela estrada de ferro, para nos embevecermos com as peregrinas belezas do mais trágico trecho da Serra e observarmos o arrojo da obra de engenharia que nele existe.
Por muitos anos que eu viva com lucidez e memória, sentirei reproduzidos na imaginação os perfis colossais que se sucedem uns após outros, como panos de bastidores de um cenário infinito, destas montanhas de nuanças que vão do verde mais carregado ao azul-violeta mais diluído; e os seus abismos profundíssimos e mais essa cascata que se desfaz ao longe em vaporosas rendas sobre o costado de uma montanha alterosa e que foi batizada com o apropriado e lindo nome de — Véu de Noiva...
No Paraná, como no Rio Grande do Sul, oiço falar no tifo e sujeito-me ao conselho de só tomar água mineral engarrafada.
É aborrecido sentir por toda a parte onde se vá este fantasma da febre apavorando as populações. No que não deixo de achar graça, é na afirmação que me fazem em todas as localidades, de que os doentes que lá existem não são do lugar, mas vieram atacados de fora!
Assim os tifosos de Porto Alegre tinham vindo da Cachoeira, os de Cachoeira de Porto Alegre, os de Pelotas de Bagé. os de Bagé de Pelotas, etc.!
É viajando pelo interior do Brasil que nos capacitamos da urgência com que devemos resolver estes três problemas nacionais: — Salubridade, — Viação, — Instrução.
Este último tem logrado, ainda assim, uma certa e eficaz atenção dos poderes públicos. Não estive em uma só cidade do Sul em que não visitasse as suas escolas populares e em todas encontrei sempre excelentes mestras e boas disciplinas. Não sei se o mesmo acontecerá nas vilas e nas aldeias mais obscuras e que o meu pouco tempo me não permite ver; mas tudo me leva a crer que sim. A continuar assim, dentro em pouco haverá mais mestres do que discípulos...
Se a Exma. Sra. Natureza me permite um reparo, eu sempre lhe direi que ela não soube distribuir bem as águas no Brasil. País dos mais notáveis rios do mundo, quer pela sua extensão, quer pelo seu volume, ele sente, em grande parte das suas regiões, falta desses modestos e serviçais cursos de água que se cruzam e cortam frequentemente a paisagem, enriquecendo-a com a sua rega e aformoseando-a com o seu pitoresco. Antes toda a capacidade das nossas grandes cachoeiras e correntezas fluviais estivesse dividida em riachos fertilizadores por todos os nossos campos e devesas.
Os rios muitos largos e profundos têm imensa majestade, mas também uma certa monotonia melancólica. Os rios estreitos têm talvez mais poesia. São as margens destes, com as suas alfombras, ou os seus cordões de florinhas, as suas pedras musgosas e galharias tortas a reflectirem-se na água fresca, que dão ao rio essas manchas de sombra e de sol, negror de sangue pisado ou cristalino azul da alegria, em que o sentimento humano encontra analogia e comoção.
Terra sem água é como carne sem sangue; antes as grandes artérias se subdividissem em ramas de veias finas e espalhadas...
Páginas de uma carteira:
Manhã: — visita ao atelier do pintor dinamarquês Alfredo Andersen. Atravesso um pátio húmido e atravancado de casa antiga, subo ao fundo à direita uns poucos de degraus e encontro-me em uma vasta sala, em que o mestre trabalha rodeado de discípulos e discípulas em frente de um modelo vivo.
Sim senhores! é já uma excelente prova de progresso intelectual e artístico, esta que venho surpreender neste cantinho obscuro da cidade. Já as moças do Paraná compreendem que, para se chegar a pintar razoavelmente, ao menos, é indispensável insistir no desenho do modelo vivo, e este progresso é alguma coisa.
O artista que fincou aqui há muitos anos a sua tenda de trabalho, seduzido pela amenidade do clima e a pureza das paisagens paranaenses que reproduz nas suas telas, vai assim contribuindo de um modo eficaz para o desenvolvimento do gosto artístico da gente coritibana. Assim houvesse um mestre em todas as nossas cidades do interior
Quatro horas: — chá em casa da elegante Mme. Fido Fontana. Dir-se-ia que estamos num dos mais exigentes salões de Botafogo. Senhoras elegantes e meninas amáveis; excelente piano em que a alma de Chopin ressuscita entre perfumados ramos de violetas. Após o chá, passeio pelo parque, que o frio da estação desfolhou e entristecéu.
Acabo o meu dia assistindo a uma sessão cívica no teatro Guahyra — organizada em homenagem à embaixada Italiana, que veio em missão especial do seu governo ao Brasil observar as condições dos lugares em que a sua colonização se intensifica.
Suponho que o embaixador deve estar contente. A julgar pelo que vejo na assembleia, há aqui muito entusiasmo pela Itália. Um orador brasileiro faz mesmo o seu grande discurso em língua toscana, em que zurze os alemães, e a fluência com que se exprime é tal, que muito deve ter lisongeado os senhores da missão patriótica!
Ouvir falar bem a sua língua por estranha gente é sempre razão de gáudio.
À noite, ao recolher-me, encontro sobre a mesa do meu quarto vários livros. São quase todos de versos. O Paraná é a terra dos poetas. A luminosidade deste céu constelado; a doçura destes ares embalsamados pelos pinheirais da Serra, excitam a imaginação.
Começo a ler.
Depois de um desenxabido almoço de hotel, saio a passear a pé, porque o sol está brando e o frio é convidativo. Entro no salão da Cruz Vermelha, em que algumas senhoras da sociedade cozem para os soldados da guerra. Abrem-se e fecham-se gavetas para a arrecadação de roupas já feitas; Zila, a infatigável presidente, interrompe a contagem de uma rima de lençóis e vem relatar-me a imensa importância dos serviços feitos pelos médicos e pelas enfermeiras da associação no tempo de epidemia do tifo.
Agrada-me ver a actividade inteligente destas senhoras. Realmente estamos na alvorada de uma era nova.
Para onde iremos?
De passagem por uma rua larga e sossegada, vejo dispostos em fila na calçada uns tantos surrões de couro a arrebentar de cheios. Estão atafulhados de mate e à espera da condução que os levará ao despacho para alguma das Repúblicas vizinhas ou para o Chile. Esta erva preciosa, e que não custa ao homem senão o trabalho da colheita e consequente preparo, por ser de nascimento espontâneo, ainda está longe de provar ao mundo todo o seu merecimento.
E a culpa não é dela, que faz o que pôde para ser amável!
Mesmo aqui, no seu torrão natal, parece que não lhe dão um apreço por aí além, pois que ainda não vi servir mate a ninguém.
Seria até o caso de haver nas cidades, assim com há cafés e casas de chá, casas de mate, mantidas pelos Estados produtores, e em que ele seja servido pelas diferentes formas por que é usado no Sul.
Manhã de domingo: tomo o primeiro bonde que vejo passar à porta do meu hotel e vou até ao ponto terminal da linha, voltando depois a pé durante um largo trecho. Paro em certo ponto do caminho de onde se descortina parte do casario da cidade, aqui em linhas cerradas, acolá em sítios disseminados, sob a flutuação violeta de uma hora impecável.
Supunha eu, pelo que me diziam, que toda Coritiba rescendesse a pomares, que não houvesse nela um pedaço de muro ou gradil de quintal atrás dos quais não surgissem galhos dos pecegueiros que lhe dão fama, ou de nespereiras odoríferas e que até mesmo as torres das suas igrejas ou os torreões dos seus palacetes, vistos de longe, parecessem emergir de encantadores bosques de ameixeeiras ou de cerejeiras. Assim não é, e eu tenho pena que não seja, que isso em nada lhe prejudicaria a importância. As árvores espiritualizam a caliça e as telhas dos prédios, dão-lhes um reflexo da sua alma sensível. Que seria a encantadora Haya sem o seu bosque? Digam!
Passo a tarde numa festividade artística no Club Thalia, a ouvir música, a ouvir prosa e a ouvir versos, mas versos e prosa originais, ditos pelos autores, e música excelentemente interpretada. Graças aos Deuses da Arte, por todo o Brasil a poesia e a música elevam ao alto o coração dos homens. O nosso país poderia mesmo ser classificado o país do ritmo — de tal modo os nossos versejadores e maestros têm o instinto da métrica e do compasso. Quando não haja outras qualidades, como as há frequentemente, tanto em autores como em intérpretes, essa é, pelo menos, admirável. O mesmo acontece geralmente na dança. O brasileiro pôde ser elegante ou deselegante, dar largas passadas ou passadas miúdas, correr ou arrastar-se, mas de um ou de outro modo dançando, ele dançará no compasso determinado pela música. "Sempre certo e direitinho", como se diz numa dança portuguesa.
Nos vastíssimos salões, adornados com elegância, entre flores de inverno e mulheres formosas, as vozes dos prosadores e dos poetas que falam, estão penetradas de uma tal emoção e tão grande febre de entusiasmo, que todos que os ouvem se sentem também compenetrados e felizes.
Como as brancas pétalas das camélias que se desfolham lentamente do cristal das jarras, caem as rimas dos sonetos que os autores dizem sem afectação, traindo apenas no calor e na intensidade da voz a luz divina que lhes incendeia a alma.
Terra de Poetas, terra de céu constelado, terra de serras religiosas, sê bendita!
Parto numa fria madrugada do fim de Julho, num trem que me levará a S. Paulo, e levo grande pena de não poder ficar por mais algum tempo a viajar pelo interior do Paraná, através das suas decantadas florestas e campos não menos louvados. Nas violetas que mãos delicadas vieram trazer-me à estação apesar do desconforto da hora, roubada ao melhor do seu sono, como que sinto concretizada na doçura do perfume e na beleza da cor, a alma da cidade serrana que tão carinhosamente me acolheu e de que me vou afastando rapidamente.
Amanhece o dia sem estremeções de luz, como o descerrar das pálpebras de uma criança que acorda suave e naturalmente, e por muito tempo vejo agarrados aqui e além nos aranhiços da grama seca dos prados, como uma floração virginal de levíssimas papoulas de escomilha branca, pedaços de neblina a que faltou força para a cristalização.
Mas durante o dia essa visão delicada e fria é substituída por outra oposta: a do rubor queimante das chamas vivas que lambem a terra em grandes extensões, crepitando alto. Suponho ao princípio que esses sucessivos incêndios que vou observando tenham sido originados pelas fagulhas das locomotivas, alimentadas a lenha e que chispam com uma violência de chuveiro de ouro; mas um passageiro, filho da região, afirma-me que o fogo é propositado: trata-se das queimadas preparatórias da plantação.
Parece-me cedo de mais para a aplicação dessa rotina, que a minha razão não compreende por que é ainda mantida pelos nossos lavradores.
A paisagem não tem lances dramáticos, entre o Paraná e S. Paulo, pelo menos aquela que o trem atravessa durante as horas de claridade, mas o que lhe sobeja, como sobeja em todo o Brasil, é espaço e magnífico, para a formação de pequenos sítios, que engordem a terra com as suas lavouras intensas, dando-lhe feição mais carinhosa, mais pitoresca e mais próspera.
No Brasil, têm reparado? não há aldeias, há cidades. Mal começa um pequeno arraial a reunir uns tantos telhados, logo outros surgem ao derredor deles, como tocados por varinha mágica e a vida comercial se estabelece na localidade em pinchos de de progresso.
As grandes fazendas de léguas de extensão, muitas das quais inaproveitadas, têm nessas pequenas cidades as suas válvulas de expansão, mas se cada um desses latifúndios fosse dividido em pequenos sítios bem cultivados, muito maior seria ainda a prosperidade das povoações que eles favorecem. E isto parece já um pouco realizado em São Paulo, na zona que eles chamam do Paraná e que o meu trem vai atravessando, à clara luz de uma manhã cor de hortênsia. Sucedem-se com pequenas interrupções chácaras cultivadas, onde a vinha desabrolha e os ramos das batatas e dos feijões acolchoam trechos de terreno, cobrindo-os de frescura.
Ao meio-dia chego a S. Paulo. Venho cansada e cheirando a chamusco, de tal modo as faíscas da Sorocabana me queimaram a lã do vestido e as peles do agasalho.
Na Rotisserie hospedo-me no mesmo quarto que ocupei no ano passado e sinto-me talvez por isso como que um pouco em minha casa. Saio: a cidade está cada vez mais bonita, mais rica e movimentada, revolvo-a toda; visito amigos, parentes e lugares, paro em frente às casas em que morei outrora.
Dir-se-ia que era só dar volta ao trinco... e iria encontrar lá dentro uma mulher a acalentar dois berços. Cala-te, coração!
3 de Agosto:
Volto ao Rio de Janeiro.
FIM
Jornadas no meu país reúne as crônicas da viagem de Júlia Lopes de Almeida pelo sul do Brasil em 1918, publicadas em volume em 1920. Esta edição Literunico preserva integralmente os 37 capítulos e apresenta o texto com ortografia atualizada para o português brasileiro contemporâneo.
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