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Tiago Bianchini Fidalgo

@ tibianchini

Nível
2
Essência
💧 Água
Ritual
1 Dia

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

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15/0119:42
Qual Você
🔒 Conteúdo Exclusivo
15/0119:12
Gdánsk
(015 de 365)

Coloquei os olhos para fora da casa,
Para tentar ver um rosto amigo.
Vi as paredes de tijolos descascados,
Com panfletos colados, clamando pelo povo,
Recobertos pela fuligem das esteiras dos Panzer.

Tentei espiar algum movimento:
Agucei os ouvidos para tentar escutar
Se diziam algo aqueles velhos homens de casaco
A dar miolos de pão aos cães na calçada;
Se ainda havia sons na Dom Sprzyja
Onde as antigas prostitutas se engalfinhavam
Pelas carícias e moedas dos clientes.
Tentei abrir as narinas
Para captar o cheiro doce das broas de milho,
O cheiro acre da peixaria às sextas
O cheiro da urina dos gatos, a passear na guia.

Não consegui: o único movimento
Vinha das ratazanas a arrastar pedaços
Das carcaças dos Bohaterowie, ainda pelo chão.
O mais alto som ainda vinha
Do gorgulhar das pombas a entrar e sair
Dos telhados arrancados pelas bombas,
E dos buracos arrombados nos tijolos descascados.
As narinas só puderam captar
O resto de enxofre da pólvora,
Da carne queimada dos mieszkańców,
E do esperma alemão, sobre o sangue já seco
Das damas da Dom Sprzyja.

Coloquei os olhos para fora da alma
Para tentar ver um olhar de volta
Vindo de outra alma perdida.
E apenas vi olhares dispersos
Dos antigos soldados, a servir de cama
Para as moscas varejeiras,
A lembrar-se do fim das nossas vidas,
Da nossa Polska,
No dia primeiro e último, em Westerplatte.

Os que destruíram já se foram;
Não queriam nada aqui, apenas a destruição
Pela simples destruição.
O pó ainda revoa ao vento,
Sem achar lugar para repousar,
Nublando ainda mais o dia já nublado.
Zmiłuj!...
Vernichtung.
Os que destruíram não destruíram
Apenas casas, lojas e pessoas.
Destruíram a mim.
Destruíram a si mesmos.
Não sou mais nada.
Nem eles, tampouco.

Coloquei os olhos para fora da vida,
Para tentar não ver mais;
Para olhar com os olhos da saudade
Aquelas tardes alegres de sol
Amarelando os vermelhos tijolinhos descascados...

(Gdansk era o antigo nome da cidade polonesa de Danzig, antes da sua destruição na II Guerra. Preferi me referir ao noe original, como lembrança dos moradores mortos)
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15/0100:01
Não mereces um poema
(014 de 365)

Não mereces um poema;
Nenhuma palavra no Mundo poderá dar
A real dimensão da tua grandeza;
A verdadeira descrição da tua beleza:
És bela, somente, na sua pele fresca como a manhã;
Expiras alegria e paz por todos os poros,
E teu sorriso contido no canto dos lábios espessos,
E teu olhar suave, e teus olhos grandes e serenos
Falam-me n’alma mais que qualquer jura de amor.

Por isso não mereces um poema;
Qualquer poema que este tolo trovador pudesse compor,
Por mais perfeito que fosse,
Seria uma ofensa brutal à tua singeleza,
À tua graciosidade.
És divina, és muito mais do que
A sabedoria humana consegue definir.

Não mereces, Amor, um poema;
Mereces muito mais que isso: mereces um Amor,
Que é a melhor forma que o Homem encontrou
De dizer: “Muito obrigado por existires”
E que, também, é o único sentimento
Verdadeiramente digno de habitar o teu peito.

Não mereces poemas;
E nem precisa deles; já és por demais elevada
És mais que qualquer poesia; és uma oração
Que a mim, pobre mortal, cabe apenas repetir, em ladainha:
És, por excelência, senhora de todos os corações do Mundo
Ao mesmo tempo em que és tão simples, tão pura,
Qual uma criança na sua inocência; tal qual uma flor.

Não mereces poesias;
Mereces ser feliz; mereces amar
Mereces que a própria Criação se curve ante seus pés
Para reverenciar-te, com emoção, e abençoar-te;
Mereces que a própria vida que emanas do teu olhar
Seja tua escrava, tua ama, a lhe fazer as vontades.

Mereces alguém que te faça feliz
Mereces alguém que te sinta na pele; que te faça se sentires viva.
Mereces mais que palavras, mais que gestos de carinho:
Mereces um Amor Sincero.

Como eu.
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11/0123:40
A leveza
(011 de 365)

*Para o poema a seguir, eu sugiro o seguinte: Em algum lugar desse post, eu inseri o vídeo de uma música chamada "Cantabile", de um pianista de jazz chamado Michel Peteucciani. Coloquem para ouvir, e, depois que começar, leiam o poema... Foi assim que o fiz, e percebi que, sem a conexão com a música, o poema muda um pouco o clima...

O vídeo é de 1998, uma de suas últimas apresentações.

******

Brumas que se movem sobre a superfície,
Dançante união dos três mundos de Escher,
Flutuando no sal que há demais no Morto.
O sal.

Passos que flutuam sobre a areia clara,
Elefantes que se movem nas pontas dos dedos,
Abanando as orelhas aos ventos do sul.
O sul.

Sombras que se apoiam nas copas das árvores,
Árvores ao vento, a balançar, fugazes.
Folhas que planam e secam sob o sol.
O sol.

Cores que se mesclam a dançar nas nuvens.
Olhos que repousam sobre a sombra fresca.
Asas abertas a siar no cio.
O cio.

Nuvens que naufragam no azul celeste,
Horizonte de eventos de onde não há mais volta.
Almas de dois amantes a galgar o céu.
O céu.

******

Michael Peteucciani foi um pianista de jazz, um dos mais notáveis da sua geração. Ele nasceu com uma deformidade chamada "Síndrome dos ossos de vidro", que causa fragilidade óssea e impede o crescimento. Ele chegava a quebrar as falanges dos dedos ao tocar piano. Apesar disso, sempre superou a dor, e, usando um piano adaptado ao seu tamanho, nos deu interpretações maravilhosas como "Cantabile".
No último dia 06, rememoramos 26 anos de sua morte; morreu aos 38 anos, por complicações da síndrome.
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07/0104:53
A palavra proibida
(007 de 365)

(trecho de uma história inacabada)

Perguntei aos meus pais:
“Posso comer só a sobremesa?”
“Sim”, me disseram.
“E posso jogar videogame até mais tarde, e faltar à escola amanhã?”, arrisquei um teste mais desafiador.
“Claro, filho! Pode ligar o videogame na TV da sala, que é maior“, me responderam, com um sorriso nos lábios.
Eu sabia que eles não podiam me dizer a palavra proibida. Eles teriam que me dar o universo, teriam que concordar com tudo o que eu dissesse, e teriam que assentir seja lá o que fosse dito. Agora, eu podia tudo.
Fiquei intrigado. Se era possível me permitir tudo isso, por que é que nunca me deixavam fazer essas coisas? Se agora era possível me dar apenas afirmativas, qual a razão de todas as negativas que haviam me dado até aquele momento?
Sem entender, perguntei, por fim:
“Vocês me odeiam?”
Vi o sorriso de mamãe murchar. O ‘s’ do sim chegou a se formar em seus lábios - afinal, ela só poderia me falar isso. Papai pigarreou e pareceu engasgar.
Os olhos de mamãe me olharam, piedosos e marejados. Ela não conseguia dizer ‘Não, claro que não, nós te amamos!’, porque o ‘não’ parecia ter sumido da sua mente. Ela começou a chorar copiosamente, abraçando-se a papai, que, com força, apertava os olhos, entre soluços. Não; eles não eram capazes de dizer “sim” para tudo, não importava qual fosse a mandinga de um Deus ou um Diabo qualquer.
Mamãe me olhava em súplica. Ela não tinha uma resposta possível - e se negava a me dizer a única palavra permitida naquele jogo idiota. Senti o quanto me amavam e o quanto havia sido dolorido, para eles, todos os ‘nãos’ que já haviam me dado.
“Quer saber?”, eu disse, por fim, “Vamos parar com essa brincadeira? Desejo que vocês voltem a poder me dar todas as respostas que eu mereço e preciso ouvir”.
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04/0118:22
Anatomia

(em três poemas)
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VIP
02/0113:12
Crônica: Prova de Composição
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