O dia invadiu a janela e eu já havia esquecido como era o canto tranquilo dos pássaros nesta parte do mundo.
Depois de fugir daquela vida corrida da cidade grande, de trânsito, buzinas e pessoas se xingando, a gente começa a duvidar que ainda existam lugares tranquilos assim.
Cabo Frio era uma pequena cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, na Região dos Lagos, famosa por praias bonitas e réveillons lotados. Vinha crescendo bastante nos últimos anos. Meus pais moravam ali, e foi para lá que voltei.
Eu cursava Administração em São Paulo e estava naquela fase da vida em que seus pais querem te ver em um bom emprego, sua mãe já quer te ver casada e seus irmãos são indiferentes à sua existência, pois há muito tempo aprenderam a viver sem você.
— Natalie! — Minha mãe gritou lá de baixo. — Você vai perder a hora!
— Estou indo.
Me levantei. A semana estava começando e eu me sentia exausta. No dia anterior fiquei trabalhando até tarde na pizzaria dos meus pais. E hoje: entrevista de emprego para dar conta.
Desci correndo depois de ter me arrumado às pressas. Quase atrasada, como sempre. A pontualidade nunca foi meu forte, mesmo sabendo que entrevistadores detestam atrasos. Quanto mais importante o compromisso, mais meu corpo resistia a sair no horário.
Encontrei minha mãe e Babi na cozinha. Peguei um pão e o café que mamma me ofereceu.
— Bom dia, dorminhoca — Babi disse, animada pendurada naquele celular. Ainda estava no ensino médio e deveria estar estudando para entrar em uma boa faculdade, mas, em vez disso, estava por aí namorando com a cidade inteira.
Babi adotou uma filosofia de amor descartável: sem compromisso, sem sentimentos. Colecionar casos virou esporte. Aos dezessete anos, tinha mais experiência que eu aos vinte e três, e nenhuma cicatriz. Dezessete anos. Jovem demais para tanta armadura, mas o que eu poderia dizer? Qualquer comentário meu viraria sermão de irmã mais velha.
— Bom dia — respondi no meu tom mais morto, com sono na cara e um dia cheio pela frente.
— Filha, Eduardo passou aqui hoje de manhã — Mamma usou a voz melodiosa que reservava para falar do Dudu.
— Ligo pra ele depois!
E assim eu parti, porque meu horário já estava mais do que esgotado.
Eduardo era meu melhor amigo desde o berço. Na adolescência, comecei a nutrir um certo sentimento por ele — sentimento que permaneceu confortavelmente ignorado enquanto uma namorada diferente desfilava ao seu lado a cada mês.
Quando passei para a faculdade em Sampa, foi bem mais fácil manter aquela amizade à distância. Meninos paulistas sabem como desviar sua atenção de qualquer amor de infância. Mas voltar para lá e encontrá-lo com a morena mais peituda da cidade não era para ser uma surpresa. Mas foi.
Pior era saber que aquela mulher não tinha um grama de gordura sequer e, para o meu maior desespero, ele estava casado.
Casado. Eduardo estava casado, mas vivia como solteiro.
Ele e a senhorita barriga negativa tinham viajado para Las Vegas com um grupo de amigos. Álcool, euforia, uma capela aberta 24 horas. No dia seguinte, acordaram casados, arrependidos e sem a menor intenção de morar juntos.
Ela, esperta, sugeriu que se conhecessem melhor primeiro. Namorassem. Vissem se dava certo antes de pedirem anulação. Casamento aberto, eles chamavam. Cada um com sua vida, seus casos, sua liberdade. Os detalhes prefiro poupar.
Peguei o carro da mamma e tirei Eduardo da cabeça. Passei pela cidade sem trânsito. Maravilha. Aquilo era o céu.
A placa exibia o nome “Administração Van der Barthon”. Pomposo e desnecessário, mas não cabia a mim julgar quando estava ali pedindo emprego. Passei meus dados para a recepcionista, fingindo confiança.
A recepcionista de nariz pontudo usava óculos meia-lua, daqueles que eu só via em filmes antigos. Me olhou por cima das lentes, avaliando.
— Senhorita Azzulari, está atrasada!
Olhei o relógio. Cinco minutos. Para mim, atraso insignificante. Para ela, atentado grave à vida da empresa.
— O Dr. Juan irá recebê-la.
Saiu do balcão pela lateral e me indicou um corredor bem iluminado. Pegamos o elevador até o sexto andar. Caminhava a passos calmos; eu a seguia um pouco ansiosa.
Passamos por salas e baias com economistas, administradores e contadores. Chegamos à sala do Dr. Juan.
Abriu a porta de madeira clara e me deu passagem. Entrei no escritório, que mais parecia um cubo de gelo, com móveis frios, paredes cinzas e um silêncio que dava vontade de falar mais baixo.
Dr. Juan, advogado — como estava escrito em sua porta —, apresentava o tipo de aparência que justificava o nome. Don Juan. Bonito demais para ser levado a sério.
— Bom dia, senhorita Azzulari — Estendeu-me a mão com um sorriso que provavelmente já tinha causado problemas para recursos humanos. Jovem, devia ter uns vinte e sete anos.
— Bom dia, senhor — respondi, contida.
— Sente-se, por favor.
Fui até a cadeira de couro à minha frente, mantendo a compostura e a tensão normal de uma entrevista de emprego.
— Seu currículo é maravilhoso — ele começou. — Por que Cabo Frio e não uma cidade maior?
— Estou cansada de cidade grande, senhor.
— Entendo.
O silêncio fez minhas mãos suarem. Devia estar acostumada com entrevistas depois de tantas em São Paulo, mas não estava.
— Não tenho muito a perguntar, senhorita Azzulari. Seu currículo fala por si.
Sorri, sem querer contar vitória antes do tempo.
— Vejamos — ele pegou a bolinha de pingue-pongue em cima da mesa — quantas dessas cabem nesta sala?
Franzi o cenho.
Ele falou isso mesmo ou meu cérebro estava pregando peças?
— Desculpa, senhor. O que disse? — me ajeitei na cadeira.
— Quantas bolinhas dessas você acha que cabem nesta sala?
A tensão subiu pela minha espinha. Meus olhos percorreram o escritório em busca de uma resposta que não estava nas paredes. Medir a sala? Calcular o volume de olhar? Estimar no chute? Qual a resposta certa?
Meu cérebro quase soltou fumaça quando ele falou novamente:
— E então?
— Não sei. Várias — péssima resposta.
— Claro. Você sabe que pelo menos uma cabe — ele disse, me fazendo perceber que minha resposta foi a pior possível — uma, duas, dez, vinte, cem, talvez mil.
Acenei, confirmando o raciocínio dele.
— Foi um prazer. Entraremos em contato. Boa sorte.
A despedida foi mecânica: mão estendida, agradecimento protocolar, porta se fechando. Do lado de fora, o corredor se esticava diante de mim, mas não conseguia focar direito. Meus pés seguiram para o elevador automaticamente, o piloto automático assumindo enquanto eu ainda estava presa naquela sala.
Que tipo de pergunta foi aquela?
Entrei no carro. Não estava em condições de dirigir. O celular vibrou na bolsa. Mensagem do Eduardo:
“Almoça comigo?”
🍕 RECADO DO CHEF – ANTES DE VOCÊ IR EMBORA DA MESA 🍕
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Esperamos que este capítulo tenha sido tão saboroso quanto um pedaço de marguerita na madrugada.
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🍕 Pergunta do Dia:
Depois de toda essa loucura na entrevista…
👉 Você acha que a Natalie passou no processo ou vai acabar entregando pizza por mais um mês?
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A casa agradece — e a Natalie também, porque ela realmente precisa de um emprego. 🍕✨