Dudu marcou comigo em um restaurante do canal, o mais difícil foi achar vaga nas ruazinhas na hora do almoço. Você tinha que ficar rodando e rodando, até uma boa alma resolver sair e te liberar uma vaga. Demorei para conseguir, rodei umas três vezes até estacionar um pouco distante do restaurante, mas perto o suficiente para ir andando.
Fui pelo calçadão reparando a vista espetacular à minha frente. A água tinha um tom de azul turquesa lindo, e o sol que se abriu refletia nela deixando o dia mágico. Não me cansava dessa vista, não me cansaria nunca.
Os barcos e lanchas completavam a paisagem deixando a natureza que já era bela com um tom mais sofisticado que me lembrava férias. Já tinha feito várias vezes esses passeios de barco ao redor das praias e ilhas da região dos lagos, foram todos lindos, dava até vontade de ir de novo.
Os animadores dos passeios se juntaram em cima de um barco e começaram a dançar uma música da Claudia Leitte. Eles faziam a mesma coreografia convidando as pessoas que estavam no calçadão para o passeio.
Sorri animada, e fui andando no embalo da música. Quando cheguei no restaurante, Dudu já me esperava sentado em uma das mesas da parte externa.
— Ei! Rainha do pepperoni! — Ele chamou quando me viu, fazendo com que todos à sua volta olhassem para mim. Que mico!
— Cala boca, retardado! — eu bati no ombro dele amigavelmente no momento em que me aproximei.
Estava bem vestido com camisa branca, calça jeans e barba feita — o que era muito estranho. Dudu sempre foi mais largadão, usando calças largas do tipo que deixam a cueca aparecendo e aquele cabelo cheio — e quando eu digo cheio, não é só de pontas duplas. O antigo Dudu parecia estar sempre fumando um baseado, e geralmente estava mesmo. Mas o homem à minha frente já não carregava nada dessa fase. O visual agora era limpo, cabelo baixo como se tivesse raspado com máquina dois, penteado para cima num mini moicano estilo David Beckham comportado. Eu nem acreditei no que estava vendo.
— Vem cá! — passou a mão pela minha cintura e me envolveu em um abraço demorado. — Senti a sua falta — sussurrou no meu ouvido.
— Eu também, dudis! — Passei os braços pelo pescoço dele e o puxei mais para perto.
— Chegou quando?
— Ontem.
— Por que não avisou? Eu teria ido te pegar no Rio.
— Pensei que você tivesse algo de útil para fazer!
Realmente nem passou pela minha cabeça que ele poderia querer me encontrar no Rio quando chegasse de Sampa. Ele poderia estar bancando o maridinho para senhorita barriga negativa, eu não ia atrapalhar.
— Que nada! Ontem eu dormi o dia todo.
Essa confissão me surpreendeu. Será que estava dormindo sozinho? Não tinha coragem de perguntar.
— Vagabundo! — falei me soltando do abraço e sentando numa cadeira a sua frente. — Daria tudo para ter essa sua vida fácil!
— Vida de músico, minha rainha! — ele sorriu, deixando a covinha solitária do lado esquerdo aparecer.
— Como está a banda?
— Seu irmão anda compondo bastante. O Nelson está ocupado programando uma turnê.
— Ainda não vi o Caio. Não foi pra casa ontem.
— Vamos tocar na pizzaria hoje. Você poderá vê-lo — segurou a minha mão por cima da mesa e completou — Ele tem uma namorada nova.
— Sério? Novidade! Ele está sempre trocando.
— Mas acho que essa é diferente.
— Por que?
Era difícil de acreditar que o meu irmão estivesse levando alguém a sério, achava que eles todos jogavam no mesmo time: músicos, safados, cheio de mulheres derretendo e os atacando só por causa de uma canção.
Aff!
— Não sei, ele ta vidrado nela.
— Espero que não seja mais uma louca — disse sem acreditar muito nessa possibilidade. Meu irmão era para-raios de maluca. Por incrível que parecesse achava que ele nunca tinha tido um relacionamento com uma pessoa normal.
A primeira que eu lembrava o chamava de pãozinho de queijo. E ele a chamava de bolinho de chocolate. Patético. A segunda tinha um cabelo que não era só vermelho, daqueles de papel crepom, além do cabelo completamente vermelho ela tinha duas mechas na frente azuis. Era vermelho com azul! A terceira gostava de entornar um whisky e volta e meia aparecia na praia. A quarta era psicóloga. Essa, até que não era das piores, mas sempre que eu conversava com ela sentia que ela era capaz de ler a minha alma só pelos meus movimentos corporais. Tinha medo de psicólogos, eles sabem coisas sobre a gente que nem a gente sabe. É assustador!
Bem, depois dessas eu simplesmente parei de contar e não me lembrava mais as características marcantes de todas as seguintes. E depois eu fui para São Paulo, aí mesmo que parei de acompanhar os casos do Caio.
Levantei a mão chamando o garçom para perto da gente. Dudu soltou meus dedos e se virou para pegar o cardápio.
— Já querem algo pra beber? — O garçom perguntou.
— Cerveja — Dudu respondeu — e … — Disse olhando para mim.
— Uma coca! — Respondi para o garçom.
— Pera aí! — Dudu impediu o rapaz de ir, me deixando confusa com seu movimento repentino — sua mãe disse que você ia em uma entrevista de emprego hoje.
— Sim!
— Como foi?
— Acho que péssimo! — Respondi, meus ombros caíram em derrota.
— Traz um balde de cerveja pra gente! Esquece a coca! — Ele falou para o garçom dando um suspiro em meu apoio.
— Eu não vou tomar cerveja agora!
— Vai sim! Você precisa afogar as mágoas.
Sorri.
— Talvez eu precise. Mas não posso morgar que a tarde vou começar a estudar para os concursos, e de noite tenho que ajudar a mamma na pizzaria.
— Não senhora! Larga de ser chata, hoje você vai passar o dia comigo. Deixa o estudo pra começar amanhã.
— Dudu, concurso é que nem academia, se você deixar pra depois nunca que começa, vai enrolar sempre. Eu tenho que começar logo.
Sentia que precisava fazer a minha vida andar, ou melhor, correr. Eu tinha emprego em Sampa e larguei tudo para voltar pra cá, não imaginei que seria tão difícil de achar um emprego aqui. Papà queria que eu tomasse as rédeas da pizzaria, ele até me deu carta branca para fazer tudo o que eu achava necessário lá. Mas eu sentia que precisava de um pouco mais de experiência. Tinha medo de estragar o bom trabalho que ele e mamma fizeram todos esses anos.
— Natalie, não tem papo! Hoje você vai passar o dia co-mi-go
— Você não tem mais o que fazer? Tipo trabalhar?
— Não! Hoje eu acordei às cinco da manhã para adiantar todos os meus compromissos e passar a tarde com a minha melhor amiga que há tanto tempo me abandonou.
— Falando desse jeito até parece que eu sou uma pessoa má!
— Mas você é! — ele sorriu — sinto a sua falta, por favor?
Pedindo assim, não tinha como dizer não. Senti meu rosto corar. Esse rubor infeliz sempre me entregava, aí eu tinha que bancar a durona para que ele não achasse que eu era apaixonada por ele. Como eu realmente era — dei um suspiro longo. A pior coisa que eu fiz foi cair na zona da amizade, ele nunca ia me enxergar de forma diferente.
— Tá! Não precisa chorar! — tirei onda com a cara dele.
— Cadê esse cara? — Dudu olhou de um lado pro outro procurando o garçom — Já escolhi faz tempo e esse cara sumiu!
— Já escolhi também.
— Picanha?
— Picanha — respondi feliz pelo nosso gosto continuar sendo o mesmo.
— Vamos pedir uma inteira completa e dividir?
— Por mim tudo bem. — balançou os ombros.
— E você? Deixou pra lá aquele paulista que estava te secando na sua formatura?
Gargalhei lembrando da cena de ciúmes do Dudu na minha formatura quando o Ricardo me tirou pra dançar.
— Sim, ele terá que viver sem minha presença de agora em diante.
— É … azar o dele e sorte minha.
— Para de bobeira que eu sei que está mais difícil de falar com você do que com o papa. Aposto que daqui a duas horas já vai estar de saco cheio de mim e voltar para a sua vida de vagabundagem.
— Ah não fala assim de mim que você fere os meus sentimentos — ele retrucou — agora eu sou um homem responsável.
— Ahh claro! Porque no topo da responsabilidade está se casar em Vegas!
— Você nunca vai deixar essa passar, né?
— Não mesmo. Como está a sua esposa?
Ele fez uma careta.
— Não fala essa palavra que eu me sinto um velho brochado.
— Você não presta dudis.
— Ela está bem, vai se mudar para um apartamento no meu prédio. Acho que ela quer ficar de olho em mim e com quem eu ando dormindo.
— Nada mais justo, afinal ela é sua esposa.
— Não sei onde eu estava com a cabeça em aceitar essa palhaçada ao invés de anular logo aquele casamento.
— É … — me contive em concordar sutilmente.
— Você acha que eu deveria acabar com isso, não acha?
— Não importa o que eu acho, dudu.
Aprendi que até para os amigos precisava filtrar alguns dos meus pensamentos. As pessoas não estavam preparadas pra muita sinceridade. Perdi muitos amigos falando o que pensava. E quando algo se repete demais você percebe que o errado é você. Desde então resolvi polir a minha dose de sinceridade. Só falava se a pessoa implorasse muito por ela.
— Por favor Natalie! Fala a verdade.
Ele estava implorando, não estava?
Pensei rapidamente e decidi ser sincera com um grau de sutileza para não espantá-lo. O que se passou na minha cabeça foi algo do tipo “Claro Dudu! Você comeu merda? Onde você estava com a cabeça para fazer uma asneira dessas? Você nem a conhecia direito.” Mas não tive coragem de falar assim, então filtrei um pouco.
— A verdade é que eu não sei onde você estava com a cabeça para se casar assim. — Ok! Eu filtrei muito.
— Eu estava bêbado, entre outras coisas. Mas estou deixando essa vida agora, juro! — Olhei para ele com dúvida. — Sério, tô limpinho há seis meses: não uso nada, não cheiro nada, não tomo nada. Só cerveja.
— Difícil de acreditar.
— Você vai ver. Sou outra pessoa!
— E como que a Camila lida com suas tietes? — falei como se ela não tivesse sido uma das tietes também. Vai ver ela devia se entender bem com as amiguinhas.
— Fãs! — ele me corrigiu.
— Eduardo, elas te cercam e levantam a camisa para que você veja o que tem em baixo. Isso é tietar! É pornografia ao vivo!
— Você é tão careta, rainha do frango com catupiri — disse e eu sorri. Não tinha jeito, não sabia porque eu ainda tentava enfiar algo que prestasse naquela cabecinha cheia de fumaça. Era como se ainda tivéssemos quinze anos, me dando esses apelidos de nomes de pizza para fugir de bons argumentos.
A nossa comida chegou e o momento das conversas cessou. Aproveitamos a mais deliciosa picanha sangrenta, hm, uma delícia! Batata-frita, arroz, farofa. Depois eu pensava em academia em formas de gastar esses quilos, agora eu precisava apenas ser feliz desfrutando aquela maravilha.
Ao fim do nosso almoço, Dudu não me deixou pagar. Ele tinha uma boa herança, seus pais morreram quando ele era pequeno em um acidente de carro, mas deixaram dez casas em cabo frio para ele. Só dez! — quisera eu ter dez casas. Ele vivia do aluguel delas por temporada que era dinheiro o suficiente para ele não precisar trabalhar.
Mas ele trabalhava, era músico e tinha uma banda junto do meu irmão. Dudu tocava guitarra, e cantava. O meu irmão, Caio, era o baterista. A banda tinha outros meninos, um deles era o Nékinho. Não sabia o nome real dele até hoje, todo mundo o chamava pelo apelido. Nékinho namorava com minha amiga Ingrid. Além dele, Pedro e o Luiz completavam o time, todos músicos. E o Nelson era o empresário deles.
— Vamos lá pra casa — convidou quando estávamos saindo do restaurante. — Quero te mostrar uma coisa.
Levantei a sobrancelha em dúvida.
— Sei não, hein! O que você quer me mostrar?
— Minha rainha da calabresa! Se eu te mostrasse isso aí tenho certeza que você ia se apaixonar — retrucou.
— Duvido, acho que lhe falta algum ingrediente para ser gostoso de verdade — eu rebati já contando vitória.
— Por que?
— Ahh com a quantidade de mulheres que eu já vi rodarem na sua vida, é claro que você não consegue satisfazer nenhuma. Elas desistem e vão procurar alguém melhor.
Rá! Acabei com ele. Dava até pra ver sua cara de decepção depois dessa.
Me puxou pela cintura com força, colando o corpo no meu. Minha pressão subiu na hora; prendi a respiração e o coração deu um pulinho de carnaval.
— Acho bom você não me provocar, ô rainha napolitana — falou com um olhar sério e um sorriso fininho no canto da boca. O suficiente para fazer a covinha aparecer e acelerar ainda mais a minha respiração.
— Me larga — o empurrei, e ele soltou na mesma hora. Ainda bem! Porque eu estava prestes a desfalecer naqueles braços. A mão grande e firme, mesmo quando ele brincava, pegava de um jeito que fazia um calor subir pelo meu corpo. Me sentia pequena e fraca quando era puxada assim. Fazia muito tempo que não ficávamos a sós de verdade para voltar a ter esse tipo de intimidade.
— Então? Você vem? — Ele perguntou já do lado de fora do restaurante.
— Tenho que deixar o carro na mamma. Ela vai usar a tarde.
— Tudo bem, eu te sigo até lá. Depois você vem comigo.
— Ok.
Eu lhe dei um beijo na bochecha e nos separamos.
🍕 RECADO DO CHEF – SEGUNDO ROUND DE SABORES 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje servimos:
• picanha sangrenta,
• Dudu temperado com nostalgia,
• uma dose generosa de ciúme com cheiro de moicano estilizado,
• e aquela pitadinha básica de “eu finjo que não gosto, mas gosto sim”.
Esperamos que o sabor tenha te deixado com vontade de lamber o prato — ou pelo menos seguir para o próximo capítulo sem nem levantar da mesa.
🍕 Pergunta do dia da Pizzaria:
👉 Você acha que o Dudu está realmente “limpinho” ?
E mais importante:
👉 Natalie está entrando numa fria… ou numa pizza quentinha?
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A casa agradece — e o Dudu também, porque ele vive de atenção alheia.