Acordei suspirando de alegria. Sonhei com os melhores momentos do dia anterior. Foi tudo muito bagunçado, como meus sonhos sempre são.
Estávamos num palco vazio. Graças a Deus, porque o Dudu cantava nu para mim. Se vestido foi difícil manter a concentração, imagina nu. Repeti o sonho tantas vezes quanto os acontecimentos de ontem.
O despertador mostrava oito da manhã quando tomei banho para organizar os pensamentos. A pergunta de todos os dias pairava na minha mente: “O que fazer hoje?”
Academia, estudar para o concurso, show em Búzios com o Luiz. Caramba! Bati a mão na testa. Esqueci de avisar minha mãe que não poderia trabalhar. Depois do banho escaldante, me arrumei rápido e já fui pensando em como abordar o assunto com mamma.
— Oi, Pirua! — Ingrid saiu do quarto da Babi enquanto eu saía do meu.
— Ai, meu Deus! Ingrid! O que você está fazendo aqui? — Pulei nela e dei um abraço apertado. Os brincos longos dela bateram no meu rosto. Saudade de apertar o peito que eu estava da minha amiga.
— Vim buscar sua irmã para a academia. Mas a preguiçosa não levanta daquela cama. — Ingrid ajeitou a bandana estampada no cabelo afro. — E você? Sua amiga da onça! Nem me avisou que estava de volta.
— Cheguei anteontem. Estou arrumando minha vida. Ia te avisar para marcarmos um cineminha.
— Sei! Você vai ver. — Ela levantou o dedo em riste, me ameaçando. — Deixa você comigo. Aposto que saiu com o Eduardo, foram no cinema, colocaram a fofoca em dia. Você vive me desprezando por causa dele.
Dramática como sempre.
— Larga de ser ciumenta, pirua!
Conferiu de cima a baixo minha roupa esportiva.
— Vai malhar aonde?
— Ainda não sei. Tenho que me matricular em algum lugar.
— Ahh, então você vem comigo! Odeio malhar sozinha e sua irmã é a maior furona do mundo. Estou desistindo dela. Tem aquele corpinho de modelo e malha quando quer, na hora que quer. Ou seja, quase nunca. Era para ser minha companhia e sempre me dá bolo.
— Posso ser sua companhia, porque, infelizmente, Deus não me abençoou com o corpinho cabo de vassoura da minha irmã. Estou cheia de pneuzinhos e, agora que estou na praia, tenho que voltar a colocar o projeto verão em prática. Não quero que pensem que fiquei em São Paulo esquecendo da minha saúde. Apesar de ter sido exatamente isso que aconteceu. Enfim, preciso assumir um compromisso, não com o meu corpo, mas com a minha saúde. A vida de sedentarismo ficou para trás. Só que preciso falar com minha mãe antes.
— Vamos procurá-la.
Encontramos mamma arrumando as coisas na parte do boliche com a Cida, uma das senhoras da limpeza.
— Bom dia, meus amores! — Mamma nos recebeu de bom humor.
— Bom dia! — eu e Ingrid falamos em uníssono.
— Mamma, o Luiz me convidou para o show deles em Búzios hoje à noite, posso faltar aqui?
Ela me mediu com um olhar de raio-x e lançou um sorriso.
— Sim, querida, mas não vá assim. Vou marcar uma hora para você no salão, você arruma esse cabelo, as sobrancelhas, as unhas e uma depilação completa.
— Mamma! — guinchei envergonhada.
Como ela fala essas coisas, me expondo para a dona da limpeza.
— Não tem discussão. Você não vai sair com o Luiz nesse estado. O garoto não vai querer nem segurar na sua mão. Imagina outras coisinhas mais…
— Mamma!
Ela estava sugerindo que eu fosse para a cama com o Luiz na frente da Ingrid e da dona Cida? Ai, meu Deus! Que mico.
— Não tem outras coisinhas mais, pare com isso.
Ingrid pôs a mão na boca e deu um risinho. Já a dona Cida foi mais discreta, se afastou da gente e foi limpar o outro lado.
— Filha! Você anda estressada com o final da faculdade, busca de emprego, mudanças. Não existe nada melhor que sexo para aliviar as tensões.
Era por isso que minha irmã estava assim. Com uma mãe dessas, pensei que o Eduardo fosse o favorito dela, mas qualquer um servia desde que me desencalhasse e tirasse as teias de aranha de lá de baixo.
— Estou indo para a academia com a Ingrid. — decidi mudar de assunto.
— Te mando mensagem sobre o horário do salão.
Partimos para a academia.
— Relaxa, mãe é tudo igual! — Ingrid tentou me consolar no volante.
Ela conhecia minha família desde o colégio, sabia o quanto eu era reservada, e como me sentia envergonhada por expor assuntos privados em público.
— Sua mãe também tenta fazer com que você arrume qualquer um?
— Não. Ela nem gosta do Nekinho. Diz que ele não é garoto para mim. — sorriu com uma careta. — Ela acha que ele tem cara de marginal.
Nekinho era engraçado. Tinha jeito de moleque. Malandro, falava o que pensava com dose de humor. Gostava dele com a Ingrid. Eles combinavam.
Ao chegarmos na academia, preenchi uma longa ficha de inscrição enquanto Ingrid estava fazendo os exercícios.
— Você terá que fazer um teste de esforço físico. — a recepcionista disse.
— Ok. — fui apresentada ao local enquanto me direcionava para uma salinha de vidro.
Passei pela Ingrid, que estava numa bicicleta inclinada. Um bando de marmanjo malhando atrás dela.
Entrei na sala do teste. A personal me avaliou, olhou meu corpo e deduziu que eu tinha escoliose (tinha mesmo, trinta graus à direita desde os quinze anos).
— Você veio com a Ingrid, né?
— Vim.
— Ela malha aqui desde que eu comecei, não tem pessoa mais centrada nessa academia do que aquela mulher.
— Ela sempre foi assim. Somos amigas desde o colégio. Quando bota algo na cabeça, ninguém segura.
— Que corpo, meu Deus! Aquela mulher é uma obra de arte. — A personal pegou um negócio parecido com uma pinça e começou a medir as gorduras pelo meu corpo. — E que pele, aquele bronze dourado… Ela é modelo, né?
— Da própria loja. Vende biquíni na rua dos biquínis.
— Ah, conheço! Já comprei lá. Ela que administra tudo?
— Tudo. Vende, posa, faz tudo sozinha. Ela sempre diz que os brincos destacam a elegância dos biquínis. Por isso usa aqueles enormes.
— Funciona. Eu comprei três por causa dela.
Me envergonhei quando mediu o abdômen e as costas acima e abaixo do sutiã. Não deveria ter comido a picanha com o Dudu ontem.
— E aquele namorado magrinho dela ainda tá junto?
— Nekinho? Tá. Desde o colégio.
— Sério? — A personal pausou. — Ela é rainha de bateria, né? Pensei que fosse casada com algum cantor famoso. Esse pessoal sempre se relaciona entre si.
— Todo mundo pensa. Mas ela gosta do Nekinho. Ele é um garoto esforçado. Merece um mulherão como ela. Tem dois empregos é corretor de imóveis e músico.
— Ah, então é isso. Disseram que o namorado dela tinha uma banda.
— Sim, mas ele não é o cantor. É o magrinho dos cordões e dreads.
— O povo aqui sempre conta as fofocas pelas metades. — sorriu — Vamos alongar.
A mulher me esticou de um lado para o outro de formas inimagináveis e doloridas. Me encheu de eletrodos e pediu para que eu subisse na esteira. Tive que correr uma maratona no primeiro dia.
Terminei morta de cansaço. Devia ter emagrecido tanto que podia voar.
— E aí, gostou? — Ingrid perguntou no final.
— Adorei! Agora só ano que vem. — falei sorrindo.
— Não seja fraca. Amanhã te busco para malharmos juntas.
Meu Deus! Quanta disposição. Pensando bem, para ter um décimo do corpo dela, melhor seguir os seus passos.
Em casa, Mamma havia feito o almoço. Tomei banho rápido e desci para almoçar na sua companhia. Talvez tenha sido um erro, porque ela imediatamente começou:
— Filha, marquei tudo para você. Até massagem.
Que mãe maravilhosa. Você ia querer uma mãe assim se não soubesse das segundas intenções dela. ME DESENCALHAR.
— Comprei também uma lingerie. Depois experimenta para ver se serviu.
— Mamma! — voltei ao meu estado de horror. — Eu não vou transar com ele!
— Tá, tá, tá. — ela falou, balançando as mãos, irritada. — Mas é bom estar preparada, vai que?
Desisti de discutir. Ela bancaria o cupido e fada madrinha. Íamos ver se o plano dela daria certo. Quando terminei fui direto para o salão. Das duas às seis da tarde.
Como estudar para um concurso assim?
A equipe do Paolo estava pronta para mim. Parecia uma noiva. Regina lavou o cabelo enquanto Martha fazia as unhas.
— Querida, não se preocupe, você vai ficar um arraso hoje à noite. O bofe vai cair de boca. — Eu ri.
— Olha, Paolo, não sei o que minha mãe falou, mas é melhor esquecer.
— Ela me disse que eu precisava te colocar comestível. — ele completou. — E vou dar o meu melhor. Hoje à noite tem, meu bem!
Gargalhei. Nessa altura já era um pimentão de tão vermelha.
Depois da hidratação, unha com francesinha, vi o meu rosto claro e limpo. Meu Deus! Não imaginava que minhas sobrancelhas estavam tensas assim. Fui para a massagem. Maravilhosa. Martha tinha mãos de anjo.
Em seguida, a parte tensa. Depilação: axilas, buço, pernas e virilha. Ai, socorro! Horrível, a morte! Nunca mais. Homem nenhum merecia tanto sofrimento.
Voltei para o salão andando dura e ardida. Paolo assumiu o resto do cabelo. Secou, fez escova, enrolou os cachos grandes. Quase uma Gisele Bündchen.
Me sentia linda, poderosa e pronta para dar! Patético! Mentira, eu não ia dar nada para ninguém. Talvez minha irmã conseguisse um pretendente essa noite. Eu, mesmo linda, não era tão confiante assim.
Mamãe e Babi se animaram quando voltei para casa.
— Você está linda. — Bárbara se empolgou. — Eu faço a maquiagem.
— Experimentou a lingerie?
Minha mãe só estava preocupada com minha procriação.
— Vou experimentar. — disse sem discutir.
Subi, vesti. As duas invadiram o quarto.
— Nossa, ele vai ficar maluco. Você está gostosa, maninha. — Babi encheu minha bola, me fazendo sentir sensual.
— Mas se proteja, meu bem!
— Mamma! Pelo amor de Deus. Chega! Fora daqui, as duas.
— Ok, ok. — saíram resmungando.
Voltei a me olhar no espelho.
Para minha irmã essas coisas eram fáceis. Sabia bancar a fácil e conseguir o homem que queria aos pés.
Eu só tinha dormido com três garotos na minha vida, todos para esquecer o Eduardo.
O primeiro foi o Thiago, assim que cheguei em São Paulo. Tínhamos um trabalho para fazer juntos e o convidei para fazer na minha casa. Durante o trabalho, o Eduardo ligou. Larguei o menino fazendo tudo sozinho enquanto fiquei horas ouvindo o Eduardo falar das namoradas e das viagens que estava planejando. Eu queria ir, mas não podia, estava no meio das aulas. Quando ele disse quais meninas iam junto, fiquei deprimida. Chorei na frente do Thiago. Ele foi um fofo de me consolar. Uma coisa levou a outra e usei ele para esquecer o Eduardo.
Na segunda vez foi com o Cauê, meu amigo da aula de economia. O Eduardo contou que casou em Las Vegas. Fui para um bar na frente da faculdade e bebi. Encontrei o Cauê e fomos para a casa dele. Tentei esquecer o Eduardo.
O último foi antes da formatura, com o Ricardo. Vim para Cabo Frio num feriado ficar com meus pais e encontrei o Eduardo. Ele me apresentou a senhora barriga negativa, morena, peituda, olhos verdes. Voltei para São Paulo e fui para os braços do Ricardo afogar as mágoas.
Namorei todos por meses. Não durou porque não existia interesse real, menos ainda amor. Não fazia ideia do que era um orgasmo. Por motivos desconhecidos, esses homens não despertaram nada em mim. Nada. Maravilhoso para eles, para mim mais uma tentativa frustrada.
Pensei na possibilidade de acontecer algo com o Luiz. Não sentia nada por ele. Suspirei. Será que devia?
🍕 RECADO DO CHEF – SABOR DO DIA: PROJETO VERÃO COM SEGUNDAS INTENÇÕES 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje o forno trabalhou pesado e servimos:
• sonho proibido demais pra ser contado em voz alta,
• academia no modo “prometi e já me arrependi”,
• mamma italiana confundindo autocuidado com plano de reprodução,
• e Natalie fingindo que está pronta… enquanto claramente não está.
Esperamos que esse prato tenha te deixado com aquela sensação clássica da casa:
vergonha alheia, dúvida existencial e um leve desconforto emocional.
🍕 Pergunta do dia da Pizzaria:
👉 A mamma está exagerando… ou só quer o bem genético da família?
👉 E o Luiz… é candidato a romance sincero ou apenas parte do plano maquiavélico da pizzaiola-mãe?
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A casa agradece — e a Natalie também, porque ela não sabe se vai pra Búzios… ou pra terapia. 🍕✨