Passei em casa e entreguei as chaves do carro para a minha mãe.
— Onde você vai? — perguntou quando eu estava com um pé do lado de fora.
— Vou passar a tarde com o Eduardo.
— Hm — ela disse — Interessante.
— Mãe, não começa.
Minha mãe sonhava com o dia que eu fosse casar com o Eduardo. O genro perfeito, segundo ela. Só que ignorava um detalhe: ELE É CASADO!
— Ahh, minha filha você deveria me escutar mais — resmungou sem que eu lhe desse muita atenção. Eu desistia de falar qualquer coisa porque sabia que essa fé cega não ia permitir que fosse racional. Saí de casa de uma vez por todas.
Não é que eu não queria. Não ia me enganar, eu era apaixonada por ele. Mas eu tinha o meu pezinho no chão, ok? Sabia muito bem que esse era um amor platônico. E sinceramente não importava não ser retribuída desse sentimento. A simples presença dele já me fazia bem, e a nossa amizade enchia meu coração de felicidade.
Saí de casa e do lado de fora dos portões, Eduardo esperava encostado em sua Harley. Ele já tinha me despejado um manual inteiro sobre o motor, blá blá blá eterno. Não me peça detalhes; nunca dei a mínima. Bastava saber que era uma Harley, não acha?
Um pedacinho de pecado encostado na Harley: braços cruzados, pernas esticadas, aquele olhar que prometia problemas. O calor subiu antes mesmo de eu tentar disfarçar. Sabia que estava prestes a me fazer de idiota ou gaguejar.
Não gagueje Natalie. Olha o senso de ridículo.
— Pronta? — ele perguntou entregando o capacete.
— Sim! Vamos — peguei de suas mãos. Aproximou-se para ajeitar para mim e sorriu.
Eduardo montou na moto. Segui logo depois, apoiando os pés e passando a mão pelo abdômen definido — ui! — dele. Fechei o abraço em volta da sua cintura. Suas mãos acariciaram as minhas antes de ligar o veículo e dar partida.
Partimos. De frente para a praia do Forte, o apartamento dele oferecia aquela vista privilegiada. Ele conhecia todo mundo do prédio, ao chegarmos já cumprimentou o porteiro. Este mal nos deu atenção, mas se atentou para um comentário:
— Vai começar o jogo da Holanda e Espanha.
— Esse promete! — Eduardo respondeu enquanto entrávamos no elevador.
A cobertura pertencia a ele, tinha um estúdio dentro de casa, foi lá que a banda começou.
A tevê já gritava quando entramos. A sala, toda em preto e branco com aquele toque prateado moderninho, estava tomada por alguns integrantes da banda.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou aos meninos da banda.
— Decidimos assistir ao jogo aqui, irmão. — Nekinho soltou com uma intimidade exagerada.
— Não me lembro de ter marcado nada. — Eduardo respondeu seco — Minha intenção era de passar a tarde com a Natalie.
Houve um coro de “Oi Natalie” dos meninos que tiraram os olhos da tevê e perceberam que eu estava ali ao lado do Dudu.
— Oi galera! — dei um sorriso e um tchauzinho para todos.
— Vem — Dudu me puxou na direção do estúdio — Esquece eles, quero te mostrar uma coisa.
Entramos no estúdio de som, todo equipado. Ao centro, um piano de cauda preto roubava a cena.
O piano de calda preto — digital, poderoso — sempre me tirava o fôlego. Dudu tinha a mesma queda por ele. Ele fazia sons de diversos instrumentos, de cravo, teclado, piano, era sensacional.
Eduardo se ajeitou ao piano, mexeu no computador interno e, por fim, voltou o olhar para mim.
— Escrevi essa melodia na terça, depois da sua formatura. Acho que todo o seu sucesso e superação me inspirou, queria te mostrar.
Não tinha palavras. Sorri e balancei a cabeça para que começasse.
Não tinha letra, ele apenas tocou no piano sorrindo e olhando para mim. A música começou bem leve, me fazendo ter vontade de embalar o meu corpo no ritmo.
Ele fechou os olhos enquanto ela acelerou, seu rosto estava sério, e então se entregou a música de corpo e alma.
Era linda, mas ele fazia ficar melhor ainda. A música ficou cada vez mais rápida, e o corpo dele se movimentou e acompanhou a fúria que passava. Aquela vontade de chorar me alcançou, sempre surgia quando ele mostrava algo assim.
Por fim ele se acalmou, e eu deixei uma lágrima escorrer do meu olho no mesmo instante em que ele abriu os olhos e me encarou.
— O que foi? — Pareceu assustado.
— É linda — confessei de uma vez.
— E porque você está chorando?
Sequei a lágrima, virando o rosto para não precisar encará-lo assim.
— Me emocionei. Ela é perfeita.
— Agora só falta o seu irmão escrever uma letra pra ela.
— Por que você não escreve? — fui para trás dele lhe oferecendo uma massagem nos ombros.
— Não sou bom isso.
— Não seja ridículo — me aproximei de sua orelha e sussurrei — você fez isso antes. Para a Michele, para a Fátima, Isabela, Thalia, Roberta, faltou alguma?
— Não escrevo mais para mulheres.
— Por quê?
Fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, aliviando a tensão sob minha massagem.
— É complicado. Elas veem isso como um pedido de casamento.
— Não se preocupe, você é casado — eu ri.
— Exatamente. Não quero que a Camila pense que é um convite.
— Convite de quê?
— Para morarmos juntos.
— Pensei que ela que quisesse que cada um tivesse o seu apartamento por um tempo — eu disse lembrando a ele o que me confessou assim que eles voltaram de Las Vegas.
— É, acho que ela está mudando de ideia.
— E isso é ruim? — que pergunta idiota. Mas precisava saber.
— Não. Mas você sabe, eu nunca morei com ninguém. Esse aqui é o meu espaço e eu estou acostumado com ele assim.
— Hm. — continuei a massagem pensativa.
— Você pensa em se casar?
Pergunta difícil, pensar eu pensava, mas não agora. O pior de tudo era que eu estava na fase dos casamentos dos amigos. Isso era meio que uma tortura psicológica se você não tinha nem um namorado. Parecia que a idade estava passando, estava todo mundo resolvido e só você encalhada sobrando para titia. A cada casamento de amigos que ia me sentia mais desesperada.
— Quero. Mas ainda não me sinto no clima disso — respondi com sinceridade.
— Eu não me sinto casado.
— Talvez vocês devessem tentar morar junto — disse da forma mais imbecil possível.
Por que eu sugeri isso? Estúpida!
— Você acha?
Não! Claro que não, idiota!
— Talvez — falei covardemente.
— Eu não sei — levantou-se e caminhou na direção da sala de som.
— O que ela acha?
— A gente não conversa muito. Nossa relação se resume a sexo — colocou o fone e começou a mexer na mesa de controle do equalizador.
Sexo. Ótimo. Perguntei, tomei. Parabéns, Natalie.
Mordi os lábios tentando disfarçar os ciúmes. Ele é seu amigo! Não tinha direito nenhum de sentir isso.
Sentei no banco do piano, os ombros caídos. Aquela decepção boba de sempre. Saber da vida sexual dele com a senhora barriga negativa, me dava a sensação de ter tomado um soco no estômago.
Permaneceu no equalizador, completamente alheio à minha presença.
Chega Natalie! Você não é esse tipo de mulher. Se levanta!
Joguei meus cabelos pra trás e levantei do banco em direção à porta. Seu olhar estava acompanhando os meus passos. Fiz um sinal de que ia até a sala e voltava em seguida. Ele balançou a cabeça concordando.
Os meninos berravam no sofá. Cheguei a tempo de ver algum holandês — não faço a menor ideia de quem seja — fazer um gol de peixinho sensacional.
Os meninos gritaram entusiasmados, sorri e me aproximei deles. Luiz abriu espaço pra mim no sofá e me ofereceu uma garrafa de cerveja.
— Gol bonito — mencionei.
— Já fiz melhores — Luiz falou.
— Cala a boca Luiz, você é um perna de pau. — Nekinho rebateu.
Luiz sorriu e passou a mão pelo meu ombro.
— Bom saber que você está de volta, senti sua falta.
Sorri de volta. Aquela gentileza de sempre.
— Eu também Luiz. Senti saudades de todos vocês.
— Mas agora você está de volta — ele falou olhando para mim e pra tevê quase que ao mesmo tempo.
— Sim, estou — sorri.
— Natalie, eu … — ele pausou — amanhã vamos fazer um show lá em Búzios. E cada um pode levar alguém, seu irmão vai com a namorada, o Eduardo com a Camila, Nekinho vai com a Ingrid, e o Pedro vai arranjar uma fã enlouquecida. Eu ia também, mas… — ele desviou o olhar para o chão — se você quisesse ir comigo, eu iria adorar, se você puder, quero dizer…
— Cala boca, cara — Nekinho interrompeu — Deixa eu ouvir as merdas que o Galvão está falando.
— Oh! — fui pega de surpresa com esse convite. Será que ele está querendo sair comigo? Tipo um encontro?
— Está bem em cima da hora, eu sei. Vou entender se você já tiver compromisso. Sem pressão! — Ele levantou as mãos se rendendo.
Sorri e senti meu rosto corar.
— Talvez eu tenha que ajudar meus pais na pizzaria — tentei parecer casual, para que ele não recebesse isso como um fora.
— Ah… — pareceu desapontado, voltou a olhar para a tevê.
— Mas, eu vejo com a minha mãe, de repente ela consegue alguém pra ficar no meu lugar.
— Seria legal! — deixou escapar um sorriso pequeno, quase envergonhado, enquanto desviava o olhar — Não é nada tipo um encontro, fica tranquila. — acrescentou como se tivesse lido os meus pensamentos — Eu tenho amor a minha vida e o seu irmão deixou claro para todos nós que você está fora dos limites.
— Ele o quê? — pulei do sofá de frente para ele.
— GOLLL!!!!!! — os meninos do meu lado gritaram comemorando mais um gol da Holanda em cima da Espanha.
A algazarra começou, claramente nenhum deles estava torcendo para a Espanha. Luiz pulou e entrou na comemoração, esquecendo completamente da minha pergunta.
Olhei para o lado e vi Eduardo saindo do estúdio. Ele sorriu para mim. Será que meu irmão também deu essa intimação a ele? De que eu estava fora dos limites?
Meu coração pulou só de pensar que ele pudesse um dia ter sentido algo por mim.
🍕 RECADO DO CHEF – SABOR NÚMERO 3: CIÚME À MODA DA CASA 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo na nossa cozinha literária!
O menu de hoje veio carregado, hein? Tivemos:
• Harley crocante com recheio de tentações proibidas
• Mãe italiana conspirando casamento al dente
• Música artesanal feita no forno do estúdio do Dudu
• Ciúme temperado com vergonha e um toque de autoengano
• Luiz oferecendo combo “show + possível encontro”
• E o irmão da Natalie distribuindo decreto municipal: ELA ESTÁ FORA DOS LIMITES
Servimos tudo quente, direto da cozinha do caos emocional de Cabo Frio.
🍕 Pergunta do dia da Pizzaria:
👉 Você acha que o Dudu realmente não vê a Natalie… ou ele só finge porque tem aliança no dedo?
E outra:
👉 O convite do Luiz foi casual… ou foi um “quero, mas tenho medo do seu irmão”?
Comenta aí embaixo — a casa agradece, e o Dudu agradeceria também… se não estivesse ocupado tocando piano dramaticamente.