A pizzaria lotada, e meus pais, coitados, com dois empregados a menos.
Mamãe no caixa, Babi entre as mesas com os outros garçons, meu pai preso na cozinha. Era a visão do caos, só que era sempre assim quando eles tocavam.
— Minha filha! — ela disse aliviada assim que chegamos.
— Desculpa, mamma.
— Foi culpa minha, eu pedi para a Natalie me esperar.
— Tudo bem, querido — mamma cortou o Eduardo. — Caio está nos fundos do palco junto dos meninos — ela falou para ele, que foi logo para lá. — E você, Natalie, fique aqui! Que eu vou ajudar a sua irmã com os pedidos.
— Ok — disse feliz. Preferia mil vezes ficar nos caixas do que servir as mesas. E, além disso, minha mãe sabia o quanto era arriscado que eu servisse; todas as vezes que eu tentei, pelo menos um cliente saiu sujo de algo que eu derrubei. Refrigerante, cerveja, pizza, pratos. Enfim, servir mesas não era para mim; agora, receber dinheiro sempre foi mais a minha área.
O restaurante fervilhava. Vi meu irmão arrumando os instrumentos no palco, e as tietes já ocupavam as cadeiras da frente. Ele mandou um beijo para uma menina no canto — cabelo castanho, bastante peito, corpo curvilíneo. A blusinha justa marcava tudo, e a saia minúscula mal chegava a um quarto da coxa. Ela ria de algo no celular, completamente à vontade.
Esse tempo todo vivendo em São Paulo me fez desacostumar com como as pessoas se vestiam no Rio. Chinelo, bermuda e pouca roupa era a vestimenta padrão para o calor dessa cidade. Confortável, sim. Mas brega também. Elegância não era o forte da maioria das pessoas ali.
Talvez meu problema não fosse com ela especificamente. A Bárbara, magra feito um palito, também usava aquelas roupas coladas que pareciam embaladas a vácuo. Minha irmã de dezessete anos saía de casa com cada look que… enfim.
Me chamem de velha, recalcada, encalhada. Mas não conseguia deixar de pensar: expor o corpo assim não era um pouco… desesperado? Tá, eu sabia. Estava me iludindo. Devia ser por isso que a menina ali estava com meu irmão, que a Barbie esquelética tinha o Eduardo, que minha irmã tinha vida social ativa. E eu, inteligente e de classe, estava encalhada aos vinte e três.
Meu celular vibrou no bolso. Mensagem da Babi: “Sobrevivendo aí?”. Comecei a digitar uma resposta, mas as luzes do palco acenderam.
— Boa noite, pessoal! — Dudu falou do palco.
Piriguetes do gargalo gritaram.
— Como estão essas pizzas aí? — ele perguntou para a plateia.
Ouvi a saraivada de “uhull”, “uma delícia”, “você é mais gostoso”, “ahh”, “muito bom”, enquanto outros só levantavam os dedos fazendo sinal de legal.
— E a galera do boliche? Estão se divertindo?
Olhei para o lado, para a parte do boliche, e vi as pessoas levantando as mãos e aplaudindo. Sorri para ele; Eduardo se enturmava tão bem quando estava no palco que era inspirador.
— Bem, a primeira música da noite vai para uma pessoa muito especial — falou olhando para mim. Comecei a corar.
Não fala isso, Eduardo, não fala isso, Eduardo, não fala isso, Eduardo.
— Vai para a minha melhor amiga que finalmente voltou para casa — disse, e as pessoas me encararam. As fãs provavelmente queriam comer meus rins no café da manhã com manteiga e pão.
Meu rosto queimou. Devia estar patética. Como um pimentão.
— Ela é a rainha do pepperoni , por isso, por ela, nós vamos fazer bonito aqui hoje.
Meu irmão foi pro microfone, junto dos outros meninos.
— Pimentinha! Bem-vinda de volta — meu irmão disse, e meu sorriso abriu imensamente.
— Natalie, os Hafts te amam — todos eles disseram juntos.
Pressionei os dedos contra o peito e mandei beijos pelo ar para todos eles. Esses meninos sempre me bajularam muito; eu cresci no meio deles, achava que era por isso que eu era mais moleca do que mocinha.
Conseguia me dar muito bem com garotos, mais do que com mulheres. As únicas mulheres que eu conseguia manter uma relação duradoura foram a Ingrid e a minha irmã. A maioria das mulheres se aproximavam de mim com interesse no meu irmão ou no Eduardo. Era difícil confiar em uma amizade genuína de uma garota com esses dois do lado.
Ai, meu Deus! Esse podia ser um dos motivos para eu estar encalhada também. Me dava tão bem com os caras que eles me consideravam um cara. Será?
Parei de pensar nas besteiras quando a voz rouca e deliciosa que o Dudu sabia fazer anunciou a música.
— I’ll be waiting, Lenny Kravitz, pessoal.
Espera um instante. Lenny Kravitz? Eles sempre começavam com uma música deles e raramente cantavam uma música de outro cantor.
Eduardo começou. As tietes pularam de animação. Cantava olhando para mim sem sorrir. Aquele olhar sério me quebrava. Meu coração disparou. Puxei o banquinho mais alto que tinha ali atrás do balcão porque eu sabia que minhas pernas estavam a ponto de falhar.
I’m the one who really loves you, baby
(Sou eu quem realmente te ama, meu bem)
I’ve been knockin’ at your door
(Eu estive batendo na sua porta)
Sabia que qualquer um poderia pensar que estava falando aquilo de verdade para mim. Seria maravilhoso pensar assim, mas eu tinha experiência. Ele era cantor, fazia parte do show fazer cada pessoa na plateia se sentir única. Ele já cantara assim para mim antes — várias vezes. Estava simplesmente cantando, nada mais.
Eu sabia disso.
And as long as I’m livin’, I’ll be waitin’
(Enquanto eu viver, eu estarei esperando)
As long as I’m breathin’, I’ll be there
(Enquanto eu respirar, estarei lá)
Whenever you call me, I’ll be waitin’
(Sempre que você me chamar, eu estarei esperando)
Whenever you need me, I’ll be there
(Sempre que você precisar de mim, eu estarei lá)
Seria maravilhoso se tivesse algo implícito. Mas não tinha.
Achei que meu coração ia explodir.
Para de olhar para mim assim, Eduardo!
Por um momento achei que entendia meus pensamentos, e soltei um “ufa” quando ele desviou o olhar. Soltei todo o ar que estava prendendo sem perceber. Entretanto, minha alegria durou pouco quando eu percebi o que ele estava a ponto de fazer. Desceu do palco com o microfone, vindo na minha direção.
Para aí mesmo, ô garoto. Pelo amor de Deus, não vem pra cá, não vem pra cá.
Aproximou-se de mim e estendeu a mão. Nem sabia se conseguia andar com a minha perna assim. O que ele tava querendo?
You are the only one I’ve ever known
(Você é a única que eu conheci)
That makes me feel this way, couldn’t on my own
(Que faz eu me sentir assim, não poderia sozinho)
I wanna be with you until we’re old
(Quero ficar com você até envelhecermos)
You’ve got the love you need right in front of you,
(Você tem o amor que você precisa bem na sua frente)
Please come home
(Por favor volte para casa)
Cantou olhando pra mim, e eu já estava prendendo o ar de novo. Puxou a minha mão e eu saí de trás do balcão.
Eduardo andou ainda me olhando, e eu não consegui desviar os meus olhos dos dele. Não sabia o que acontecia a minha volta, não sabia nem para onde estava indo. Na verdade, eu sabia. Estava indo para qualquer lugar que ele me levasse.
A gente subiu no palco: Pedro no teclado, Nekinho no baixo, Luiz na guitarra, meu irmão na bateria. Eduardo costumava dividir-se entre o vocal e o violão, mas naquela noite só cantava.
And as long as I’m livin’, I’ll be waitin’
(E enquanto eu viver, eu estarei esperando)
As long as I’m breathin’, I’ll be there
(Enquanto eu respirar, estarei lá)
Whenever you call me, I’ll be waitin’
(Sempre que você me chamar, eu estarei esperando )
Whenever you need me, I’ll be there
(Sempre que você precisar de mim, eu estarei lá)
A mão dele no meu rosto, minha testa encostada na dele, os olhos fechados. Fiz o mesmo com os meus. Aproveitei enquanto aquele momento existia; não me importava que ele estivesse só fazendo o trabalho dele, que isso fosse só mais uma das músicas que ele tinha que cantar naquela noite.
Não me importava que talvez nem tivesse sido ele que escolhera essa música; devia ter sido o meu irmão. Ele que costumava escolher o repertório da noite.
Não me importava que ele fosse casado e que provavelmente a mulher dele estava ali embaixo olhando para nós no palco quase se beijando. Não me importava com mais nada naquele momento. Eu só queria me iludir que talvez em um universo paralelo ele poderia me dizer isso tudo de verdade.
Nossas mãos entrelaçadas, a minha úmida e escorregadia. A música terminava com floreios, e eu já tinha a pele arrepiada. Abri meus olhos e Eduardo abriu os dele um pouco antes do fim.
Sorriu, a plateia aplaudiu. E eu não fazia ideia de como sair dali. Odiava exibições em público, e, como melhor amigo, ele sabia perfeitamente disso.
Não conseguia andar. Por fim, me abraçou, conduzindo-me até o canto do palco, fez um sinal para a Babi; minha irmã se aproximou do canto, e foi quando entregou minha mão para ela e deu um beijo na minha testa. Foi bom enquanto durou.
— Me desculpa fazer isso com você — sussurrou no meu ouvido com o microfone bem longe. — Mas eu não me arrependo. — Completou, sorriu e subiu novamente no palco para a próxima música.
— Você está branca! — Babi comentou. — Consegue andar?
Não conseguia nem falar. Apenas balancei a cabeça para ela e fiquei agradecida de ela me entender.
Babi me deu apoio em seu braço, guiando direto para a cozinha; lá, meu pai me colocou sentada em uma cadeira e me serviu um copo d’água com açúcar.
— Respira, filha! — ele falou, me lembrando que tinha que parar de prender a minha respiração. Era difícil não prendê-la.
Dei uma puxada forte no ar e fechei os meus olhos, repassando mil vezes na minha cabeça tudo o que acabara de acontecer.
Ele não estava dizendo nada daquilo realmente, mas pouco importava; eu podia fingir que ele estava.
🍕 RECADO DO CHEF — SABOR #5: ILUSÃO GRATINADA COM CALOR DE PALCO 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo direto do forno superlotado da Pizzaria Azzulari — hoje a casa estava tão cheia que até o ar-condicionado pediu demissão.
O prato do dia veio servido no modo “me segura que eu vou desmaiar”, com:
🍽️ Menu Especial do Capítulo 5
• Entrada: pizzaria abarrotada, mamma no caos, papà refém da cozinha e Natalie fugindo do destino trágico de derrubar bebidas em desconhecidos.
• Prato principal: Eduardo no palco distribuindo carisma, charme e possíveis infartos emocionais.
• Acompanhamento: piriguetes do gargalo competindo pelo título de “quem grita mais alto pelo Dudu”.
• Salada de inseguranças: roupas curtas, clima quente e Natalie refletindo se é recalcada, encalhada ou apenas elegante demais para o Rio.
• Prato do Chef: música dedicada — I’ll Be Waiting — com direito a olhar penetrante, mão estendida, subida ao palco e química que fritou até a lâmpada do refletor.
• Sobremesa: testa encostada, mãos dadas, voz rouca no ouvido e a plateia assistindo um quase-beijo digno de novela das oito.
• Digestivo: Natalie desmaiando por dentro, Babi carregando o corpo, papà servindo água e o espírito da dignidade pedindo férias.
Servimos tudo quente, suculento e cheio de ilusão consciente — aquela que a gente sabe que não é real, mas deixa a gente sorrindo feito boba mesmo assim.
🍕 Perguntas do Chef para você:
👉 O Eduardo passou dos limites… ou só entregou o show que todo mundo queria ver?
👉 Aquela cena no palco foi romance proibido… ou tortura emocional com efeitos especiais?
👉 Natalie deveria:
a) Processar o Dudu por tentativa de assassinato cardíaco
b) Agradecer pelo serviço prestado à autoestima
c) Fugir para o Alaska
d) Todas as alternativas acima
Comenta aí embaixo 🍕
A pizzaria agradece — e a Natalie também, porque ela ainda não recuperou o fôlego