Eduardo sentou do meu lado e todos voltaram a ser seres humanos civilizados, ou pelo menos tentaram. Luiz ocupou meu outro lado, o braço passando pelo meu ombro enquanto me puxava para perto.
O olhar de Dudu grudou no ponto exato onde o braço de Luiz tocava minha pele.
— Te pego em casa amanhã à noite? — Luiz sussurrou no meu ouvido.
Balancei a cabeça. Dudu torceu o nariz.
— Desculpa por isso. — Eduardo falou, a covinha aparecendo.
— Pelo quê?
— Isso — apontou para os meninos. — Não imaginei que eles fossem invadir a minha casa.
— Qual é, cara? A gente sempre faz isso. — Nekinho reclamou da cadeira ao lado.
— Mas eu combinei uma tarde com a Natalie, não com todos os Hafts.
Haft era o nome da banda e significava cabo de machado. Segundo os integrantes, as músicas eram machadadas na sociedade opressora. Patético, eu sei. Mas eles tinham criado esse nome ainda no ensino médio, cabeça de moleque revoltado. Deu ibope, fez sucesso com esse nome esdrúxulo.
— Tenho certeza que a Natalie está curtindo muito mais conosco. — Luiz pegou uma mecha do meu cabelo entre os dedos, os olhos na TV.
Nenhum deles se encarava. Todos acompanhavam o jogo.
— GOLLL!
Eles gritaram, se levantaram, derrubaram garrafas de cerveja. Pedro deu uma topada no sofá e saiu pulando. Mais um gol da Holanda. Ri da cena.
— Holanda está massacrando! — Eduardo falou.
— Piqué já deve saber que hoje não tem waka waka com a Shakira. — Nekinho soltou.
Gargalhei. Eduardo olhou para mim e sorriu. Nos jogamos no sofá juntos. Dessa vez caí em seus braços, encostei a cabeça no ombro dele e fechei os olhos.
Ele beijou minha testa.
— Senti tanta falta disso. Não abri mais os olhos. Fiquei ali respirando o cheiro dele, aproveitando o momento, como se tudo tivesse voltado a ser como era anos atrás.
O resto do jogo se perdeu. Dormir no ombro dele era permitido. Acordar querendo mais, não.
— Natalie.
Senti alguém balançar meu ombro devagar.
— Natalie.
Abri os olhos. Estava completamente deitada no sofá. Eduardo, agachado na minha frente, me esperava.
— Oi! — sorri.
— Você acorda sempre assim?
— Como? — a mão foi imediatamente para o cabelo.
Ai meu Deus!
Levantei do sofá num pulo. Ele se ergueu assustado.
— Eu…
— Estava me referindo ao sorriso que você abriu quando te acordei — explicou.
— Ah! — respirei — Sei lá.
Menti, claro que não acordava sempre com um sorriso desse, porque não era todo dia que um homem como ele me despertava.
— Sua mãe está te ligando. — Acho que ela precisa de ajuda na pizzaria.
— Nossa! — Eu falei confusa — Que horas são?
— Oito.
— Caramba! Eu dormi muito.
— Você estava cansada, e dormindo tão bonito que não tive coragem de te acordar.
Meu rosto esquentou.
— Te levo. Começo a tocar lá às nove.
— Não precisa, eu vou de ônibus.
— Para de bobeira, estamos indo para o mesmo lugar. Só tenho que tomar um banho rápido, avisa a sua mãe que chegaremos em quinze minutos.
— Hm, tá.
— Liga do telefone lá do quarto. Vem! — segurou minha mão e me puxou.
— Não precisa, estou com o celular aqui
— Não tem necessidade de gastar seus créditos, tenho um fixo aqui. O da sala o Pedro acabou de quebrar, mas o do quarto funciona perfeitamente. — Abriu a porta e apontou o telefone na mesa de cabeceira.
Peguei o telefone sem fio preto, e me virei de volta para fazer a ligação da sala, mas fiquei boquiaberta com a cena à minha frente.
Eduardo acabara de tirar a camisa, jogou numa cadeira e foi na direção do banheiro, esses anos em que pouco nos víamos fizeram muito bem a ele, e precisava acrescentar que a porta não fora fechada completamente
Balancei a cabeça. Meu Deus! O que estava fazendo? Espiando o melhor amigo, casado, tomar banho — ai que vergonha — saí pela porta do quarto em passos largos morrendo de vontade de voltar. Parei no corredor, respirei fundo, olhei para o telefone e liguei para minha mãe.
— Esse número não existe.
Digitei algo de errado, tentei novamente, tremendo.
— Esse número não existe. — A mulher repetiu.
Ai que desgraçada, mas é claro que existe, sua infeliz.
Passei os dedos pelo cabelo lembrando do corpo dele sem camisa, do jeito que a jogou ao lado e tirou o cinto — bem melhor do que os trezentos de Esparta — suspirei.
Natalie sua devassa. Ele é seu amigo.
Olhei na direção do quarto, andei na ponta dos pés, passei a cabeça pela fresta e mirei o banheiro.
Estava me comportando como um moleque de onze anos espiando as amigas da irmã tomarem banho, vergonhoso, eu sei! Patético!
A porta do banheiro ainda estava entreaberta, mas não conseguia ver mais nada porque o espelho embaçara e vapor escapava dali.
— O que eu estou fazendo? — Disse baixinho virando de volta para o corredor e encostando na parede. Fechei os olhos e tentei acalmar a ansiedade, será que o que estava sentindo era abstinência?
Fazia um tempo que não tinha namorado e consequentemente não fazia nada com ninguém. Tanto tempo que já perdera a conta.
A conclusão óbvia era que precisava de sexo. De preferência com uma pessoa solteira, que não fosse o melhor amigo.
— O que você está fazendo? — Eduardo parou na porta de seu quarto só de toalha. Deixa eu repetir para ver se ficou claro:
Ele estava só com uma toalha enrolada na cintura. Entendeu?
Por que ele estava fazendo isso comigo?
— O telefone — foi a única coisa que consegui falar. Patética! Sorriu, provavelmente reparou que não conseguia olhar nos olhos dele como uma pessoa normal, ao invés disso encarava descaradamente o tórax malhado — ui — dele.
— Avisou a ela? — A covinha delícia apareceu.
O corpo ainda estava um pouco molhado, o cabelo pingava, e embora não quisesse, era impossível não acompanhar a gota descendo pelo pescoço, até a clavícula dele e quando ela continuou por aquele peitoral protuberante… Já era, me peguei umedecendo os lábios, com a respiração acelerada. Sabia que parecia uma cadela no cio me jogando para cima do meu melhor amigo casado.
— Natalie? — Ele repetiu devagar e eu gemi alto demais.
Ao ponto de me assustar e me tirar do transe. Olhei rápido para o chão.
Foca no chão! Idiota!
— Está dando número desconhecido. — Estiquei o telefone.
Eduardo pegou. Nossos dedos se tocaram. Olhei para as paredes, depois a janela, qualquer lugar que não fosse a delícia daquele corpo. Porque um toque e eu já estava fervendo. Ouvi o barulho dele digitando no telefone e então começou…
— Mamma! É o Eduardo. Vou passar pra Natalie.
Ele me entregou o telefone, e eu forcei um sorriso sem graça. Como ele conseguiu ligar tão rápido? Será que eu estava errando o número da minha própria casa?
— Mamma? — minha voz saiu fraca, mas pelo menos saiu.
— Natalie! A pizzaria está lotada, eu estou sem dois empregados que resolveram faltar sem ao menos me avisar. E você some a tarde inteira. Minha filha, seu pai está atolado na cozinha, preciso de você urgentemente.
Olhei para Dudu. Ele sorriu e me deu as costas, voltando para o quarto.
— Quando você disse que ia nos ajudar aqui, eu pensei que você estava realmente se comprometendo em ser empregada enquanto não arrumasse outro emprego.
O usual esporro materno deu continuidade mesmo depois que eu me desliguei no exato momento em que Eduardo, de costas, tirou a toalha.
Minha boca abriu completamente. Ele abriu a porta do armário. Costas. Bunda. Pernas. Estava ali, o panorama completo. Em alta definição e a cores.
Ai Meu Deus!
Coloquei a mão nos olhos, virei correndo de volta para a sala. Não acredito que estava espiando descaradamente. Voei para o sofá, bem longe da vista perigosa.
— Natalie! NATALIE.
— Oi oi, eu to aqui. To aqui. Eu, a…
— O que está acontecendo?
Como se diz: “Mamma, o que está acontecendo é que eu estou subindo pelas paredes só de ver o Eduardo sem roupa”?
— Nada! Estamos indo.
— Não demore!
— Ok — desliguei. Me desfiz no sofá com um suspiro.
Fechei os olhos e sorri, desejando sonhar com ele naquela noite.
Patético, Natalie. Você é uma en-ca-lha-da.
🍕 RECADO DO CHEF — SABOR #4: TENTAÇÃO GRATINADA COM VAPOR QUENTE 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo direto do forno emocional da nossa história!
O prato de hoje… ah, meu bem… veio escaldante:
🍽️ Menu Especial do Capítulo 4
• Entrada: Luiz temperando ciúme sutil com um fundinho de “te pego amanhã, gata”.
• Prato principal: Eduardo servindo intimidade vintage com aroma de nostalgia.
• Acompanhamento: Os Hafts gritando “GOL” como se fosse ritual pagão.
• Sobremesa: Um banho proibido, vapor aromatizado, gotinhas estrategicamente colocadas e uma toalha que… meu Deus do céu.
• Digestivo: Natalie lutando contra o instinto de virar xereta do próprio melhor amigo casado.
E tudo isso servido com aquela pitada clássica da Pizzaria Azzulari:
caos, crush e vergonha alheia que a gente finge que não sente.
🍕 Pergunta do Chef para você:
👉 A cena do Eduardo de toalha foi uma falta de respeito… ou um presente dos céus para a Natalie (e para nós)?
👉 E você? Está no #TeamLuiz (o que joga limpo) ou #TeamEduardo (o que joga sem camisa)?
Comenta aí! A pizzaria agradece e a Natalie precisa de apoio moral, porque coragem ela claramente não tem.