Zum, zum, zum, zum, zum…
O celular vibrou na mesinha de cabeceira. A cabeça doía. Tateei a mesa em busca do aparelho, os olhos fechados contra a claridade.
— Alô?
— Por tudo que é mais sagrado, Natalie! Onde você está?
— Ingrid? — Falei confusa, os olhos ainda pesados.
— Sim, sou eu! Onde você está?
Aos poucos o quarto ganhou forma. Azul escuro, pôsteres na parede, uma poltrona com a camisa do Darth Vader. Nessa mesma cama, ao lado…
Ai Meu Deus!
O estalo da mão na testa soou alto.
— Onde você está?
— Na casa do Luiz.
— Estou indo aí.
A enxaqueca não me deixava lembrar direito. Sentei na cama tentando achar minhas roupas jogadas pelo chão. Luiz dormia de barriga para baixo, o rosto virado para o outro lado.
As memórias voltaram em flashes. Fred e aquele drink maldito. Passei horas rindo de nada, como hiena bêbada. Ingrid notou primeiro. Eduardo foi o segundo.
Devo ter falado umas besteiras para ele. Respirei fundo conforme me lembrava da noite desastrosa. Ele quis me levar embora ao me ver bêbada. Mas respondi que não ia com ele nem no inferno. Só voltaria com o Luiz, que era o meu acompanhante, e que deveria me deixar em paz e ir cuidar da sua esposa. Devo ter cuspido ao falar. Eduardo deve estar me odiando.
A cabeceira serviu de apoio enquanto o quarto rodava. Ali, no canto da cama, a lingerie abandonada. Pelo menos serviu para alguma coisa.
Como recusei ir para casa, Luiz me trouxe para cá. Lembrei dele me fazendo um café e disponibilizando o banheiro. Ao melhorar um pouco foi quando tudo rolou. Estava afundada na fossa de novo. Eduardo e aquela esposa fazendo tudo com vontade na minha cabeça. Precisava tirar aquela imagem dos meus pensamentos, e o Luiz serviu bem à causa.
O despertador do celular mostrava 9h37. Hora de ir embora. Na ponta dos pés, catei as roupas espalhadas.
Será que eu consigo sair sem que ele me veja?
A bolsa pendurada na cadeira, última peça antes da fuga completa.
— Natalie!
Quase na porta. Merda.
— Pega em flagrante.
As mãos subiram em rendição.
— Saindo de fininho? Sem nem pagar pelo sexo?
— O quê?
— É assim que eu estou me sentindo com você fugindo desse jeito, te dei prazer e você usou meu corpo nu. Se quiser melhorar sua atitude comigo deveria ficar e tomar meu café da manhã, faço ovos mexidos muito bons.
Sorri. Pronto, lá vinha o Luiz fofo.
— Não tenho dúvidas que você faz. Mas a Ingrid me ligou preocupada, — me sentei ao lado dele — ela está vindo me buscar.
— Podemos marcar para outro dia.
— Desculpa, Luiz, eu acho melhor não fazermos isso de novo.
— Eu entendo. Você fala enquanto dorme. É o Eduardo, não é?
O chão sumiu. Ele sabia do Eduardo. O ar rareou, o coração martelando na garganta.
— Do que você está falando?
— Você sonhou com ele e disse que o ama.
— É… amo como um irmão — usei do artifício da barriga negativa.
— Seu segredo está guardado comigo, Natalie. Ele é casado, eu entendo. Eu sei que você só estava me usando.
— Luiz, não fala uma coisa dessas. A nossa noite foi especial para mim.
— Foi? — Duvidou com razão. Não foi nem um pouco especial, mais um que usei para esquecer o Eduardo e nem me fez ter um orgasmo.
— Claro que foi.
— Mas você não quer nem pensar em sair comigo de novo, quem dirá namorar.
— Isso é só porque eu estou numa fase delicada, preciso me dedicar aos estudos, arrumar um emprego. Não posso assumir um compromisso agora.
A careta dele veio acompanhada de um suspiro. As palavras do Eduardo ecoaram: “O Luiz não é boa coisa; só pega mulher pra… transar e depois larga”. Agora eu fazia o mesmo.
— Tudo bem — ele falou por fim — mas continuamos amigos, então?
— Sim, claro!
— Sem aquele estranhamento por termos transado?
— Sem o estranhamento. — Eu cruzei meus dedos e beijei, fazendo o sinal de promessa.
— Você é muito gostosa — ele riu — quando quiser me usar de novo, avisa. Seu escravo sexual estará aqui para lhe dar prazer.
Gargalhei da brincadeira. Ele piscou enquanto me levantava e saía do quarto. Na porta, mandei um beijo no ar. O engraçadinho levou a mão ao coração, com a cara de apaixonado.
Meu celular vibrou. Ingrid. A insistência dessa mulher me impressionava, devia estar lá embaixo esperando.
— Preciso ir — disse, lhe dando um tchauzinho.
— Bate com força que ela tranca sozinha.
— Ok, beijos.
Saí do prédio e fui direto pro carro onde Ingrid me esperava.
— Você dormiu com ele?
— Dormi.
— Ai, Natalie. Isso vai dar confusão com o seu irmão.
— Ele não precisa ficar sabendo com quem eu transo ou deixo de transar, ele não é meu dono.
— Pensa na confusão se ele descobrir, pode acabar com a banda.
— Ihhh, Ingrid! Dá um tempo.
— O Eduardo está ligando que nem um desesperado para mim, ele acha que você foi lá para casa. Tem alguma ligação perdida dele aí?
Peguei o aparelho na bolsa. Não consegui acreditar no que aparecia na tela. Mostrei para Ingrid ao mesmo tempo em que dava partida no carro.
— Duzentas e quatorze ligações perdidas? Não é possível! Ele não dormiu?
— Ele que se ferre! — Apaguei as ligações e abaixei o vidro da janela do carro, deixando o vento levar meus pensamentos sobre Eduardo. Precisava mudar a minha vida. Ele estava casado, servindo a mulher dele com sexo oral. Hora de seguir em frente e achar alguém capaz de me proporcionar um orgasmo. Chega de fazer sexo para esquecê-lo. Ia começar a fazer sexo por prazer.
Isso, ia me abrir para o prazer de verdade. Ia dar certo se tirasse o Eduardo da minha vida de vez.
Ingrid estacionou em frente ao portão. Os planos, traçados durante o caminho, estavam prontos: sem Eduardo, sem migalhas de afeto, sem esperar por elas.
— Me desculpa por ter te deixado preocupada.
— Sexo é sempre uma boa causa, está perdoada — sorriu e partiu.
Entrei pelo portão. A sala vazia, silêncio absoluto. Na cozinha, um bilhete da minha mãe sobre a mesa: “Fomos todos ao mercado”. Ela e Bárbara deviam imaginar onde passei a noite e com quem, não ligaram nem uma vez. Subi, entrei no banho e relaxei por um tempo. A cabeça ainda estava uma bagunça total.
Quando saí do boxe o celular tocava em cima da pia. No visor apenas o nome: “Eduardo”. Primeiro teste de determinação. Não adiantava ter planos feitos e não colocá-los em prática.
Desliguei a ligação. Repousei o telefone em cima da pia.
Foco, Natalie!
A escova deslizou pelos fios com uma calma que não me visitava há tempos. Luxo estranho, fazer as coisas sem pressa, sem estar atrasada.
O aparelho tocava enquanto eu me enrolava na toalha. Suspirei. Ia ser difícil.
— Desiste! Eu não vou te atender.
Abri a porta do banheiro. Uma figura parada no centro do quarto. O celular escapou das minhas mãos.
Eduardo, plantado ali, os braços cruzados.
— Por que você não atende essa droga, porra?
— Tá maluco? — Minha mão voou para o peito, o coração aos pulos. — Puta merda! Quer me matar?
Abaixou e recolheu o aparelho do chão.
— Você viu as minhas ligações? — sacudiu o objeto na minha cara. — E por que não atendeu?
— Estava ocupada.
— Desde ontem? Fazendo o quê?
— Dormindo, ué! Sai do meu quarto que eu quero mudar de roupa — dei um empurrão nele e fui direto para o armário.
— Você viu que eu acabei de te ligar e você desligou ali dentro do banheiro.
— Sim, estava no chuveiro.
— Você tinha saído, não havia barulho de água corrente.
— Okay, Eduardo! — comecei a gritar. — Tava penteando o meu cabelo e não podia atender.
Tirei as roupas do armário e estiquei sobre o colchão. Ele bufou.
— Você deixou de me atender porque estava penteando o cabelo? Tem noção do quanto eu fiquei preocupado com você a noite inteira? Nem dormi, sua louca!
— Sai daqui. Vou trocar de roupa.
A indiferença funcionava. E ia continuar funcionando.
Que vá fazer sexo oral com a barriga negativa!
Não vou mais perder tempo amando alguém sem o menor interesse em mim, cansei dessa amizade.
— Onde você dormiu? — exigiu.
— Você não vai sair? — Encarei os seus olhos. — Quero trocar de roupa. Não vou repetir.
— Não vou sair daqui até você me dizer onde você estava.
Ah, ele não vai?
— Tudo bem, pode ficar. Onde eu passo as minhas noites não é da sua conta — tirei a toalha e joguei na cama.
Com as mãos na cintura, encarei. Que visse tudo.
Sua sobrancelha arqueou, seus olhos percorreram de cima abaixo com uma expressão embasbacada. Quando percebeu o que fazia virou o rosto, pegou a toalha e esticou.
— Coloca! — a voz falhando.
— O que foi? Não quer ver a sua irmãzinha nua?
Uma veia pulsou na lateral do seu rosto, e virou lentamente para mim. Jogou o pano com agressividade e me avaliou.
— Você não é minha irmã! — as palavras saíram cuspidas numa mistura de raiva e ódio. Pesada e grossa, arrepiei. Saiu batendo os pés e bateu a porta, quase quebrando a madeira ao fechar.
Puxei a toalha e sentei. As mãos tremiam, mas um sorriso teimoso crescia. Dessa vez, ponto para mim.
🍕 RECADO DO CHEF – CAFÉ DA MANHÃ COM RESSACA 🍕
Obrigada por voltar à nossa cozinha literária.
No cardápio de hoje tivemos:
• acordar em território desconhecido,
• lembranças voltando em capítulos picados,
• despedida educada com clima estranho,
• amizade “sem constrangimento” (segundo o combinado),
• 214 ligações perdidas,
• planos novos feitos no banco do carro,
• e uma visita surpresa que ninguém pediu.
Tudo servido frio,
com dor de cabeça,
orgulho intacto
e zero paciência.
🍕 Pergunta da Pizzaria:
👉 Quem passou mais dos limites aqui?
👉 Natalie, Eduardo…
ou todo mundo junto?
Conta pra gente nos comentários ⤵️
A casa segue aberta.
E o café, forte. ☕🍕