Quando Luiz chegou, o cheiro bom chegou junto. Bem-arrumado: calça jeans escura, tênis preto. Só a camisa do Darth Vader destoava.
Seu cabelo castanho-escuro um pouco molhado, com aquele corte de asa-delta tipo: “enfiei uma panela na cabeça e cortei”, mas estava bem feito e bonito. Olhos escuros como os meus; lábios carnudos. Devia beijar bem.
A viagem para Búzios começou no Ecosport verde, daqueles contadores de histórias: um pouco bagunçado, banco de trás cheio de equipamentos para o show.
— Seu irmão já foi? — perguntou, quebrando o silêncio.
— Não sei, ele saiu de casa. Só o vi ontem no show.
— Depois você sumiu, fiquei te procurando o tempo todo.
— Não me senti bem, fui para o quarto deitar.
— Por que? O que você estava sentindo? — o olhar preocupado era fofo, mas…
Como explicar o efeito do Eduardo sobre mim?
— Eu não gosto de exibições em público.
— Ups! Bola fora do Eduardo — ele riu enquanto dirigia.
— Ele sabia disso.
— Sério? — virou para mim por um instante com os olhos arregalados e negou com a cabeça.
Confirmei.
— Soubesse disso antes, não teria permitido — reclamou com seriedade. — Sinto muito, nossa intenção era fazê-la sentir bem-recebida.
— Sim, eu sei. Foi ótimo, adorei de verdade. Me emocionou muito ver vocês todos no microfone, foi… Não tenho palavras. Muito obrigada, mesmo.
Luiz sorriu novamente, olhos fixos na estrada, e ligou o som do carro. A música da noite de Búzios nos acompanhou até a boate. Volta e meia ele me olhava enquanto cantava e batucava os dedos no volante no ritmo.
Ao chegarmos, estacionou na rua anterior à Pachá, a boate onde eles iam tocar. Me ofereceu o braço para caminharmos até a entrada da boate.
O vestidinho preto básico que escolhi equilibrava na linha tênue: curtinho sem ser piriguete, justo sem parecer embalada à vácuo.
Babi fez uma maquiagem roxa, iluminou meus olhos e finalizou com o delineador no final, levantando o meu olhar. Minha mãe me emprestou um salto preto, a sandália prende na parte debaixo da perna estilo romana, mas tem um salto capaz de empinar bem a minha bunda.
E por baixo de toda essa produção, lingerie do sexo que ninguém ia ver.
Rua das pedras e salto alto nunca foram boa combinação. Sem o braço de Luiz para me apoiar, teria virado o pé três vezes pelo menos.
O pior eram os tombos. As meninas de vestido curtinho e salto agulha tentando atravessar as pedras: a primeira virava o pé mas se recuperava, a segunda virava o pé mas se recuperava, a terceira caía no chão. O pessoal do bar da frente tinha visão panorâmica da calcinha. Terrível! Ou adorável para aquela cambada de bêbados levantando o copo.
— Me desculpa falar assim, Natalie, mas você está muito gostosa — Luiz confessou. Soltei um sorrisinho de satisfação com o olhar no chão, tentando desviar dos olhos dele. — Estou me sentindo um molambo perto de você vestida assim.
Eu ri.
— Você está ótimo, Luiz! — tomei coragem de olhar para ele diretamente. — E obrigada.
— Eu sabia que não deveria ter vindo com essa camisa! — olhando para o céu estrelado, balançou a cabeça em desapontamento.
— Ei! Não fale assim: é o Darth Vader. Você deveria sentir-se honrado de usar a camisa dele.
Luiz riu do comentário e beijou as costas da minha mão.
— Você é uma pessoa singular.
Não sabia o que falar, mas por sorte não precisava; havíamos chegado na Pachá e entramos pela área VIP.
Fila quilométrica de um lado. Eu passando direto pelo outro. De graça.
A Pachá enchia durante o nosso percurso. Descemos para o subsolo do show, atravessamos o bar lotado de gente aglomerada, depois a área VIP, até os camarotes no fundo.
Chegamos por último. O camarote apresentava territórios marcados: Nekinho e Ingrid em um canto, Eduardo com a esposa no outro, meu irmão no sofá com a namorada, Pedro cercado por uma fã.
— Chegamos, pessoal! — Luiz anunciou.
Sorri até me deparar com o olhar de surpresa do meu irmão e do Eduardo.
— O que você está fazendo aqui, Natalie? — meu irmão se levantou quase gritando.
— Vim acompanhar o Luiz — disse, olhando mais para a reação do Eduardo do que do meu irmão.
— Pirou, cara? — meu irmão deu um salto na nossa direção. Pensei que fosse passar por cima da gente como um trator derrubando meros pinos de boliche.
— Ei, ei! Ei, ei, ei! — corpos se movimentaram rápido. Nekinho me protegendo, Pedro na frente do Luiz, Eduardo com um toque no ombro impedindo meu irmão antes que avançasse.
— Minha irmã? Cara! Perdeu a noção? — Caio gritava. Nunca presenciei aquele nível de fúria protetora. — Que droga de vestido é esse, Natalie?
— Cara, se acalma! Trouxe a Natalie como amigo, para assistir ao show. Fica frio aí, meu chapa; não tem nada rolando entre a gente, não — Luiz falou, também com a voz alterada; ainda bem que tocava uma música no fundo e o resto das pessoas não podia notar o barraco. — Depois que o Eduardo fez ela subir no palco, a mina passou mal — virou-se para o Eduardo, que me encarou. — Cara, onde você estava com a cabeça? Tu não tá ligado como a Natalie odeia exibição? Nem assistiu o resto do show ontem — voltou a olhar para meu irmão. — Foi por isso. Fiz um favor para você e trouxe sua irmã para assistir esse aqui. Vê se pega leve nessa proteção, meu bom. Natalie sabe se cuidar sozinha.
— Me larga — meu irmão gritou com o Pedro e com o Eduardo. — Sai da frente dela — falou, olhando para o Nekinho que me protegia.
— Deixa ela, cara; o Luiz disse não estar rolando nada — Nekinho tentou.
— Beleza! Já entendi, mesmo assim. Que porcaria de roupa é essa, Natalie? Tá querendo dar pra quem?
— Ahh, vai te catar! Se eu quisesse, ficava sem roupa ali no teu palco. Você não manda em mim; uso o que quiser!
Ele voou na minha direção, empurrando Nekinho para o lado. Segurou no meu braço com força e puxou pelo corredor de volta para as escadas.
Os cabelos castanhos da piriguete do meu irmão passaram por mim quando ela deu uma corridinha até ele e envolveu o pescoço dele com os braços. No mesmo movimento, senti alguém alcançar minha outra mão, enquanto a força no meu pulso diminuía. A cunhada falou algo em seu ouvido, baixo demais, e meu irmão parou. Eduardo passou à minha frente e, ao fazê-lo me largar, me puxou para seus braços, onde me aninhei.
— Cara! Se acalma. A Natalie está aqui; agora ela vai ficar até o final. O que pretende fazer? — Dudu interrompeu o raciocínio, deixando meu irmão pensar por um tempo. — Colocar ela pra fora da boate? Ela não tem nem como voltar pra casa.
Olhei para a minha cunhada e agradeci com um olhar. Sorriu para mim e balançou a cabeça, sinalizando para deixar pra lá.
Piriguete ou não, ela me salvara do meu irmão. Merecia uma chance. Minha cunhada levou Caio de volta enquanto Eduardo me levou em direção ao bar.
— Fred! Uma água e um saco com gelo — pediu para o menino do bar.
Depois pegou um guardanapo e começou a enxugar o meu rosto.
— Para de chorar, Natalie.
Sentou-se no banco e me colocou no banquinho à frente.
— Por que ele fez isso, Dudu? — eu soluçava; só esperava não estar borrando a minha maquiagem.
— Ele só quer te proteger. O Luiz não é boa coisa; só pega mulher pra… transar e depois larga.
— Todos vocês são assim.
— Claro que não, Natalie! Nekinho está com a Ingrid há cinco anos, Pedro não dorme com ninguém há um bom tempo, teu irmão encontrou alguém para amar de verdade e eu… — não terminou, mas completei:
— E você pegou tanta mulher que não dá para contar nem nos dedos das minhas mãos nem dos meus pés; nem se pedir emprestado a alguém os pés e as mãos vão dar!
— Não foram tantas assim! — havia uma tensão discreta entre as sobrancelhas dele.
— Quer que eu cite nomes? Você mencionou o nome de todas.
— Mas tinha sentimento; não usei o corpo delas só para sexo como o Luiz está acostumado a fazer. Ele nem sabe o nome das meninas com quem dorme.
Não ouvi o resto. Só a parte em que disse: “tinha sentimento”. Foi o que doeu. O olhar me escapou para qualquer lugar que não fosse o Eduardo. O frio veio de uma vez, pesado, e o ar ficou difícil de puxar.
— É claro — murmurei. — Você era tão apaixonado: escrevia músicas para elas e tudo mais.
— Eu… — parou pensativo. — Não quis dizer isso. — coçou a cabeça —Nunca as tratei como objeto. As tratava como seres humanos; nós tínhamos uma amizade, respeito e…
Escapei para o banheiro antes dele completar a frase. Não estava disposta a ouvir uma palestrinha do Dudu sobre o quanto amou suas garotas.
Ao menos não fui seguida.
O espelho do banheiro mostrou uma realidade cruel: maquiagem à prova d’água resistiu, valeu cada centavo. Entretanto, o rosto inchado foi impossível disfarçar.
Depois de um tempo sozinha, a porta abriu. A senhora barriga negativa entrou: copo d’água numa mão, saco de gelo na outra.
Tudo o que eu precisava, com a exceção dela.
— Oi! — a mulher de Eduardo me olhou. — O Edu pediu para te dar isso; vai te ajudar a se acalmar — entregou o copo, que bebi num gole só. — Quer colocar o gelo no braço, onde seu irmão… — estendeu o gelo, sem coragem de terminar a frase.
Olhei para o braço vermelho. Marcas dos dedos do ogro violento, impulsivo, ciumento, patético. Peguei o gelo e coloquei no local. Deixei de pensar no odioso do meu irmão para me dar conta de que a esposa do Eduardo continuava ali, esperando por alguma coisa.
— Obrigada, Camila.
— De nada.
— Cadê a Ingrid?
— Ela já vem. O Nekinho está sentindo um pouco de dor no pulso. Na hora que seu irmão o empurrou, ele acabou caindo no sofá de mau jeito.
— Ahh!
— Quer voltar comigo? — mordeu os lábios, em dúvida. — Digo, eles foram para o palco.
Praticamente dizendo para que eu não esperasse pelo seu marido aqui.
Como se eu quisesse a companhia dele.
— Boa noite, galera! — ouvi a voz do Eduardo.
— Está vendo? — levantou o dedo. — É o Edu!
— Sim — cortei e acompanhei de volta para o camarote. Esse assunto já estava desconfortável demais.
O lugar destinado às acompanhantes da banda oferecia uma visão privilegiada do palco, ao lado deles; se a fã do Pedro estendesse a mão, conseguiria tocar nele. Minha cunhada ocupava o sofá, Camila ao lado. Bateu com as palmas das mãos do outro lado, me indicando para sentar ali.
Aceitei o convite um pouco deslocada.
— Desculpa pelo seu irmão — disse quando Eduardo começou a cantar. — Ele anda mal, não consegue escrever, e o Nelson pressionando por músicas novas para a turnê.
Balancei a cabeça. Não precisava se desculpar por ele — cada um respondia por si. Mas aceitei a gentileza com um sorriso educado. Talvez tivesse julgado ela rápido demais.
— Meu nome é Fabiana, mas pode me chamar de Fabi — estendeu a mão e cumprimentei.
— Natalie — disse. — Irmã do seu namorado Ogro.
Riram. Olhei para frente: público pulando animado, Ingrid nos bastidores de prontidão caso Nekinho precisasse. A fã do Pedro estava no canto, como se estivesse com medo da gente. Eduardo pulava de um lado para o outro enquanto cantava, agitando a galera; meu irmão batia na bateria com tanta vontade que apostei imaginava a minha cara e a do Luiz ali.
— Sabe, acho fofo esse jeito protetor deles. No início, confesso, senti ciúmes de você e o Edu — Camila declarou —, mas ele me explicou que vocês são como irmãos, e agora vi. Você é como uma irmã para todos eles. O Luiz se preocupou com você por causa de ontem e lhe cedeu o lugar de uma garota que podia levar para a cama hoje à noite — riu.
— Olha como as meninas babam nele; ainda pode levar uma delas para a cama — acrescentou Fabiana.
— Eu sei, mas foi fofo. Nekinho, Pedro e o Eduardo foram ajudar para evitar uma briga; vocês são uma família e me sinto tão bem de estar entrando nessa família.
A conversa delas continuou. Parei em “irmã”. Melhor amiga, aceito de boa. Mas irmã? Pensando nele do jeito como penso, incesto seria pouco.
Ele realmente me via assim?
Me desfaleci no sofá e ignorei a conversa; foquei na voz dele. Uma música lenta e romântica. Olhos fechados, segurava o microfone como quem confessava segredo. Os lábios roçavam o metal; a voz saía rouca.
Suspirei devastada.
Por que me consideraria uma irmã?
Será que… fiz alguma coisa para me olhar desse jeito?
Ouvi a risada estridente da minha cunhada.
— Ah, minha filha, o Edu fica louco; o corpo dele se contorce de uma forma — se abanou. — É maravilhoso!
— Então, o segredo é colocar tudo na boca? — Fabiana perguntou.
— Tudinho, meu bem — Camila falou animada. — Tudinho e chupa com vontade. O Edu gosta quando fico olhando para ele, porque quando vem, meu bem, é um jato carregado. Adoro fazer o meu homem gozar!
— Ai, meu Deus! Do que vocês estão falando? — extravasei, mortificada.
— Sexo oral com os meninos — Fabiana riu, cobrindo a boca com a mão. — Desculpa, Natalie; pensamos que não estava nos dando atenção.
— Você olhava para o show; jamais seríamos loucas de falar sobre sexo com os seus irmãos com você — Camila acrescentou.
“Irmãos” de novo.
— Eu vou pro bar; fiquem à vontade.
— Não, Natalie. Volta! Desculpa, por favor — Fabi tentou.
Mas já saíra do camarote. Movimentei os lábios ao longe, dizendo um “não se preocupe, estou bem”.
Sentei no bar. A voz de Camila ecoava: “Tudinho e chupa com vontade”.
Argh!
Sei que ela é a mulher dele e sexo é parte do casamento — esposa ou não, doía. Meu lugar na vida dele era tão patético: nem amiga, nem irmã. Eduardo tinha uma vida — com orgasmos — enquanto só me iludia com as migalhas de uma amizade inferior a um por cento da vida dele.
Não era nem mais uma; era insignificante mesmo.
— Fred! — chamei o barman pelo nome como se nos conhecêssemos há anos e não há dez minutos.
— Está melhor? — piscou para mim.
— Não! Quero ficar bêbada. Muito bêbada. Me dá o que você tiver de mais forte aí!
— Seu irmão não vai querer me espancar depois?
— Invento uma história sobre ter roubado do bar quando você não olhava — coloquei um dedo na boca, fazendo sinal de segredo.
Fred olhou para o teto, pesando as opções.
— E eu ganho o quê com esse risco? — voltou a me olhar. Os olhos desceram pelo vestido.
— Quer me beijar?
O barman sorriu. Pegou duas garrafas, um copo, morangos. O resto não vi, mas acreditei. Ia me derrubar como precisava.
🍕 RECADO DO CHEF – SABOR DO DIA: NOITE EM BÚZIOS, CLIMA AZEDO 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje o forno saiu do controle e servimos:
• carona com cheiro bom e intenções confusas,
• vestido curto, salto alto e uma rua que claramente odeia mulheres,
• irmão surtado achando que é dono do corpo alheio,
• amizade, proteção… e uma linha perigosamente borrada,
• e Natalie descobrindo, do jeito mais doloroso possível, qual é o lugar dela nessa história.
Esperamos que esse prato tenha deixado aquele gosto estranho na boca:
não chega a ser ruim, mas definitivamente machuca.
🍕 Pergunta do dia da Pizzaria:
👉 Você ficou com mais raiva de quem hoje:
do irmão surtado ou do Eduardo falando demais?
👉 E essa bebida forte no final…
vai dar ruim ou vai dar muito ruim?
Comenta aí embaixo e deixe a sua estrelinha ⤵️
A casa agradece — e a Natalie também, porque hoje ela pediu bebida forte e desistiu de fingir que está tudo bem. 🍕✨