literunico
@literunico
Pavões em Linha Reta

O homem que vendia relógios
dizia que o tempo era caro,
mas aceitava figurinhas
em troca de segundos falsos.

Um peixe gritava no metrô:
“Comprem sapatos de vento!”
e ninguém achava estranho,
porque os pés já estavam cansados
de pisar em promessas de cimento.

Na escola ensinaram a contar
até treze, mas pularam o vinte
porque disseram que pensar demais
causava inchaço nas ideias.

Tinha um ministério só de espelhos,
mas todos quebrados
para refletir a liberdade
em fragmentos bem editados.

O juiz da noite
proibia o pôr do sol
com medo que as pessoas
vissem as cores
e lembrassem de sonhos.

Mulheres plantavam trovões
em vasos de cerâmica,
porque ouviam que flores
só servem pra decorar tragédias.

No fim, um cartaz dizia:
“Proibido entender.
Sentir também está sob análise.”
Mas era tarde
as crianças já estavam
brincando de revolução
com giz de cera
e as caras pintadas.

Desde que a ficção
Virou ação
Virou nação
Virou subversão...

Eder B. Jr.