Morte nas Águas
A água corre nas nossas veias, nos rios e nos oceanos. Renova as forças de quem atravessa um deserto, sustenta corpos, colheitas e cidades inteiras. A mesma água também se ergue em tempestades, invade casas e arrasta pessoas para profundezas onde o último suspiro desaparece.
Essa contradição se espalha por tudo o que conhecemos. O oxigênio que nos salva também pode nos intoxicar. O conhecimento usado para iluminar cidades pode produzir uma bomba. Toda ação provoca outras, e raramente conseguimos prever até onde elas chegarão.
O que me assombrava era saber que nunca estávamos sozinhos nessa conta. Mesmo quando seguíamos regras, respeitávamos limites e tentávamos viver de acordo com a própria consciência, a ação de outra pessoa, a omissão de muitas ou uma circunstância cruel podia nos arrastar para a catástrofe. Nunca tivemos controle total sobre a própria vida.
Esses pensamentos giravam pela minha mente como correnteza enquanto eu andava sem rumo pelas ruas da cidade. A paisagem ao redor parecia refletir o que restava de mim. O céu cinzento, pesado, pressionava os prédios e sufocava a pouca luz que ainda ousava atravessar as nuvens. O vento trazia o cheiro forte da maresia misturado ao fedor de gasolina, lixo úmido e resíduos esquecidos nas calçadas.
Carros e pedestres seguiam apressados. Ninguém me notava, e eu também já não me importava. Era uma dor invisível ocupando um corpo que continuava andando por hábito.
A fome e a sede tinham deixado de ser necessidades. Eram sinais distantes de uma vida que eu já não reconhecia como minha. Minhas roupas pendiam largas no corpo magro, sujas e gastas. Meus olhos, que um dia carregaram um azul vivo, estavam secos. A morte parecia caminhar ao meu lado, paciente, aguardando que eu finalmente aceitasse sua mão.
Sem perceber, meus pés me levaram ao centro da cidade. Prédios de aço e vidro se erguiam como guardiões de um mundo que continuava funcionando apesar de tudo. Ali, onde antes eu talvez enxergasse movimento, trabalho, ambição e vida, eu só via uma estrutura fria, incapaz de se abalar pela dor de alguém.
Ao longe, luzes vermelhas e azuis piscavam contra as janelas espelhadas. Uma ambulância. A curiosidade que me puxou até lá não era viva; era mórbida, quase automática.
Socorristas corriam ao redor de um homem idoso estendido em uma maca. O terno dele, que provavelmente havia começado o dia impecável, estava amarrotado e sujo. O rosto pálido, quase translúcido, parecia já se afastar do mundo. Uma máscara de oxigênio cobria sua boca enquanto os paramédicos lutavam para mantê-lo aqui.
Ao lado dele, um rapaz ajoelhado segurava sua mão com desespero. Devia ser seu filho. Os cabelos castanhos estavam desalinhados, os olhos cor de mel vermelhos de tanto chorar. Ele apertava os dedos do pai como se pudesse puxá-lo de volta da beira do abismo apenas pela força daquele gesto.
Quando nossos olhares se cruzaram, senti a compaixão que julgava ter perdido. A dor dele era tão urgente que por um instante me arrancou da minha própria desistência. Rezei em silêncio. Se Deus ainda estivesse ouvindo alguém, que salvasse aquele homem. Para mim, não havia mais nada a pedir. A única saída era o mar.
O mesmo mar que já havia levado tudo de mim parecia me aguardar uma última vez. A lembrança daquele dia nunca me abandonou. Estava gravada em algum lugar profundo, onde a memória deixa de ser imagem e passa a ser ferida.
Tudo havia começado perfeito. O sol brilhava alto, espalhando reflexos dourados sobre a superfície calma. Estávamos todos no barco: meus pais, meus irmãos, meu marido e meus filhos. As crianças corriam de um lado para o outro, os cabelos loiros bagunçados pela brisa, maravilhadas com aquele oceano que parecia não terminar nunca.
Eu me lembro das risadas. Dos rostos. Da paz absurda daquele instante em que a felicidade parecia uma coisa simples, possível, merecida.
Então o céu começou a mudar.
As nuvens chegaram devagar, densas e escuras, cobrindo o azul. Um vento gelado soprou contra nossos corpos. O mar se ergueu em ondas cada vez maiores. Em minutos, a calma virou caos.
O riso das crianças se transformou em gritos. Meu coração disparou. Tentei segurá-las, abraçá-las, prender seus corpos ao meu, protegê-las de uma força que não aceitava súplicas. O barco balançava violentamente, jogando-nos de um lado para o outro. As ondas batiam contra a madeira com um som brutal, e eu soube, com um horror que ainda hoje me atravessa, que éramos pequenos demais diante daquela fúria.
O barco virou com um estrondo ensurdecedor.
Lembro do som da madeira se partindo. Do impacto contra a água gelada. Do sal queimando meus olhos. Do rugido das ondas engolindo todos os outros sons. Tentei alcançar meus filhos, mas o mar nos arrancava uns dos outros, empurrando cada corpo em uma direção. Eu me afogava na água e em uma dor ainda maior: a de vê-los desaparecer diante de mim.
Um a um, meus filhos, meu marido, meus irmãos, meus pais, todos foram levados. Mãos que antes seguravam as minhas com confiança e amor sumiram entre ondas furiosas. Gritos foram cortados pelo mar. Depois, o mundo inteiro pareceu calar.
Fui lançada contra uma rocha. A dor atravessou meu corpo, mas já não importava. Quando acordei na areia, estava sozinha.
O mar havia tirado tudo de mim e poupado apenas a minha vida.
Agora, de volta à praia, senti a areia fria sob meus pés descalços. O grão fino afundava sob meu peso a cada passo. A praia estava quase vazia. As ondas quebravam suavemente na costa. O céu continuava carregado, e o mar refletia o cinza profundo das nuvens.
A brisa marítima cortava minha pele, mas o frio já não me importava. Eu tremia, sim, mas não de medo. Era a ansiedade de quem finalmente chega ao único lugar que ainda parecia possível.
Entrei na água. A primeira onda cobriu meus pés, depois os tornozelos e as pernas. A cada avanço, senti mãos conhecidas tocando meu corpo. Por um momento, era ele, meu marido, a lembrança de seus dedos subindo pela minha pele, me segurando e trazendo aquela intensidade carinhosa que eu tanto amava. Como ele me fazia falta.
Senti saudade da maneira como me olhava, do sorriso que me desmontava, da paz do seu peito me acolhendo e do desejo com que me tirava do eixo. Essas lembranças aqueceram meu coração enquanto a água subia, mas não foram suficientes para me deter.
A água alcançou minha cintura, meu peito, meu pescoço. Já não sentia o frio. As ondas quebravam acima da minha cabeça, e eu comecei a engasgar. Então vieram meus filhos, pequenos, rindo, correndo pela areia ao nosso redor. A verdadeira felicidade era aquilo: a alegria pura nos olhos deles, uma luz que já não existia em lugar algum. As mesmas águas que os tinham levado agora tentavam me levar também. Eu estava pronta.
A água invadiu meus pulmões. Por um instante, a escuridão me tomou. Quando recuperei a consciência, ouvi gritos. Alguém na praia tentava me alcançar, tentava me salvar. Eu não queria ser salva.
Tentei afundar mais, ir mais longe, fugir das mãos que ainda podiam me devolver ao mundo. Já não tinha forças. Só queria que a morte viesse rápido, antes que alguém conseguisse impedir.
Então o breu voltou. O frio, a dor, os gritos, as ondas e o mundo desapareceram. Era o fim.
Sinopse
A água é vida e morte, salva e afoga. Depois de perder tudo no mar, Emma escolhe as ondas como último abrigo... e desperta em uma outra realidade, um mundo onde a morte não encerra nada: recomeça. Ali, guerreiras lideradas por Leiva lutam sob a sombra da Rainha Raquel, que controla o povo, composto apenas por mulheres, através do medo e de uma esperança sombria. Mas será que sair dali significará o fim ou revelará tudo que está por trás daquela lógica? Entre beijos que arrancam mentes do abismo, mares que se erguem no ar e jogos de poder que atravessam dimensões, Emma precisa decidir que vida vale a pena depois do fim, encontrando o que perdeu e entendendo se continua a mesma pessoa diante do seu destino transformado. Fúria das Águas abre a saga Universo em Órbita com um mergulho visceral em perda, poder e escolhas.
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