A Rainha Enganada
Raquel abriu os olhos, mas não soube se estavam mesmo abertos. O breu não mudava.
Preferiu engatinhar. Tateou o chão, sentindo terra ou areia sob as mãos. Respirava sem dificuldade e seu corpo mantinha forma humanoide. Os cabelos continuavam compridos. A roupa se parecia com a que usava ao morrer, embora sem os acessórios. A coroa havia desaparecido.
Não ouvia nada além dos próprios movimentos. Aos poucos, distinguiu contornos e sentiu uma brisa leve. O cheiro indicava que estava ao ar livre.
Um ponto surgiu no céu. A estrela não iluminava o chão, mas rompeu a escuridão suficiente para que Raquel enxergasse vultos.
Então ouviu correntes.
O som se aproximava. Ela se deitou e tentou permanecer imóvel. Quando percebeu que alguém já sabia onde estava, levantou-se e correu.
Uma corrente foi lançada contra suas pernas e seu tronco. Raquel caiu, bateu o queixo no chão e sentiu os elos se apertarem a cada tentativa de escapar.
— Essa foi fácil — disse um homem, rindo.
— Ainda existem mulheres que chegam ao nível três sem poder algum — respondeu outro. — Queter deve ser mesmo um paraíso.
Um terceiro se aproximou, tirando a roupa.
— Faz tempo que não aparece carne nova.
Raquel entendeu o que fariam.
Pensou em tudo que não aprendera. Dependia das algas para controlar a água e jamais se esforçara para desenvolver outra defesa. Poseidon prometera redenção, mas não estava ali. O arrependimento se misturou a uma culpa que não lhe pertencia, embora naquele instante ela não conseguisse separar uma coisa da outra.
Na primeira vida, Raquel fora estuprada. O trauma a levara ao suicídio. Depois conhecera um homem que considerou divino, apaixonou-se e recebeu dele uma punição cruel. Poseidon apareceu em seguida como salvador e nunca exigiu dela intimidade. Agora, imobilizada outra vez, ela se perguntava se até essa salvação havia sido apenas outra forma de uso.
Os homens a violentaram. As correntes apertavam quando Raquel reagia, até tornarem impossível qualquer movimento. O silêncio foi a única parte de si que conseguiu esconder deles. Quando tudo terminou, ela mal permanecia consciente.
Foi jogada num cubículo no porão de uma casa. Havia outras mulheres presas em compartimentos semelhantes. O isolamento abafava as vozes, mas não escondia o sofrimento.
Os dias perderam a medida. Não recebeu água ou comida. Davam-lhe apenas substâncias para impedir que morresse. Alguns homens voltavam ao cubículo para violentá-la.
Raquel tentou chamar sua simbiose. Prentes não respondeu.
Ela o conhecera em Camprim, depois de Poseidon escolher que morresse em Néon. Era um aracnídeo marinho gigantesco, criatura rara mesmo fora dos planetas de primeira vida. A ausência dele alimentava outra dúvida: teria sido a simbiose também parte de uma preparação para a guerra?
Raquel orou para Poseidon. Não sabia se ele ouvia preces sem o espelho que usavam para conversar, nem se os seres chamados de deuses mereciam esse nome. Ainda assim, precisava dirigir a esperança a algum lugar.
Tentou ferir a própria cabeça contra a parede. O material absorveu o impacto. Quanto mais força aplicava, menos dano causava.
Quando se aproximava da morte por fome e sede, um homem injetou outra dose em seu corpo. A energia voltou apenas o suficiente para prolongar o cativeiro.
Raquel deixou de esperar por Poseidon.
Passou a fingir afeição por um dos homens. Ele dizia que não acreditava, mas começou a procurá-la com mais frequência e afastou os outros. Ela o convenceu de que gostava de apanhar. Suportou os golpes até perceber que outra injeção seria aplicada em breve.
Na visita seguinte, pediu que ele batesse com mais força. Usou o que ainda tinha de energia para esconder a dor. No momento certo, atingiu o rosto dele com o queixo. Um dente se quebrou.
Raquel pegou o fragmento e cortou a própria jugular.
Os homens tentaram fechar o ferimento, mas a perda de sangue havia sido grande demais. Pela primeira vez desde que chegara, a decisão sobre seu corpo voltou a pertencer a ela.
Raquel morreu. O corpo desapareceu diante dos captores.