Certo ou Errado
Convenci os outros fiéis com novas demonstrações. Pimbet veio comigo até um bunker e atacou os alimentos como quem não comia havia dias.
Alguns aceitaram minha ordem por medo; outros, porque a promessa de paraíso dava sentido ao que tinham sofrido. Não tentei distinguir devoção de desespero. Precisava que abrissem os acessos e, naquele momento, considerei suficiente que obedecessem.
— Quando morrer, meu braço volta — garantiu. — A consciência reconstrói a melhor forma que lembra.
Ele sugeriu irmos aos Campis, onde Seth costumava aparecer. Carlos pedira planejamento, mas Pimbet percebeu que eu ainda buscava outro confronto.
Seth, o Demente, surgiu assim que chegamos. Disse que encontrara minha família e prometeu libertá-la depois de me matar.
Pimbet tentou me avisar. Seth não esperou uma resposta. O golpe atravessou meu corpo antes que eu organizasse qualquer defesa.
Não consegui reagir. Despertei diante de Carlos e das crianças, todos presos. Os trinta segundos terminavam. As algas fizeram o que eu não conseguia: mataram os três e garantiram a passagem.
O medo de Seth capturá-los me levou a percorrer o planeta, eliminando patrulhas. Depois ataquei a torre magnética. Retirei os fiéis, destruí parte da estrutura e usei calor para enfraquecer os ímãs sem queimar as crianças. Quando os braceletes se soltaram, levei todos para um abrigo subterrâneo.
Não havia vitória que durasse. Cada soldado morto reaparecia em outro ponto; cada criança libertada podia ser atraída para uma torre diferente. A única vantagem era entender o mecanismo um pouco melhor a cada passagem.
Matei-me e repeti o processo em outro planeta. Carlos compreendeu o plano.
— Está funcionando. São seis planetas. Continue.
Cada repetição ficou mais rápida, mas nunca simples.
Em um dos reencontros, Carlos revelou que Seth mantinha o próprio filho numa das torres.
Ele havia reunido as informações deixadas pelos soldados que começavam a desertar. Alguns queriam os filhos de volta. Outros não acreditavam que a estrutura pudesse ser rompida e temiam que qualquer tentativa apenas aumentasse as punições.
Encontrei o garoto imóvel, de costas para o mundo. Seth apareceu antes que eu o tocasse.
— Estes planetas podem sobreviver ao fim — afirmou. — Preciso da energia das crianças para sustentar a estrutura.
— O modo como se faz importa.
— Sobrevivência exige concessões.
— Você chama de concessão porque são outros que pagam.
Ele não negou. Disse que, se estivesse certo, aqueles seis planetas atravessariam uma destruição que alcançaria todo o restante. Se estivesse errado, teria cometido atrocidades para nada. Falava como se admitir o risco tornasse o método aceitável.
Seth avançou contra o filho. Interpus meu corpo. A lança atravessou minha garganta; congelei a arma e as mãos dele. Quando os trinta segundos terminaram, pai e filho desapareceram juntos.
Não soube se os havia libertado ou apenas enviado a outro ponto do sistema.
Minha visão escureceu. Despertei diante de Carlos e das crianças, apertando a garganta. Não havia sangue nem corte, mas o ar não entrava. Clara segurou meus pulsos e repetiu que eu já estava ali. Só então consegui respirar. Nas passagens seguintes, abria os olhos procurando o ferimento. Meu pescoço voltava sem marca, e eu ainda perdia alguns segundos antes de tentar respirar.
Durante semanas, Carlos e eu trocamos cartas entre mortes. Ele organizava os reencontros; eu reconstruía abrigos e desfazia os mecanismos de captura. Crianças voltaram a encontrar os pais e seguir adiante.
Clara e Eric também ajudaram. Desenhavam mapas, registravam nomes e separavam mensagens que precisavam chegar a famílias diferentes. A guerra continuava ao redor, mas o trabalho deixou de depender apenas da minha força.
Também encontrei registros de Seth. Ele falava de sofrimento, sobrevivência e do fim do Universo. A história implantada por Elaryan não explicava tudo. Seu filho não era o monstro descrito, e a justificativa do apocalipse talvez fosse crença, cálculo ou desculpa.
Nada disso absolvia o que ele fizera.
Quando o fluxo pareceu restabelecido, abracei Carlos, Clara e Eric. Pela primeira vez, deixamos os trinta segundos terminarem sem outra morte.