Sob Ataque Fúria das Águas · Capítulo 49 de 51
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Sob Ataque

Paradise estava em guerra.

Os primeiros ataques atingiram as rotas entre os abrigos. Não eram disparos aleatórios. Os combatentes alados tentavam separar quem defendia o planeta de quem transportava crianças e feridos.

Natane percebeu antes de mim.

— Eles querem nos obrigar a abandonar os civis para proteger a linha de combate.

Usei a água do subsolo para abrir canais entre os grupos. Paredes líquidas amorteceram as explosões, e correntes levaram os feridos até as equipes de resgate. Leiva coordenava as passagens com Juper. Carlos e Carl retiravam quem ficava preso nos pontos mais expostos.

Dragões, lobos, pássaros e seres iluminados chegaram por portais diferentes. O céu se encheu de fogo, gelo e descargas. A quantidade de força reunida poderia destruir a região que tentávamos salvar.

— Ataquem para cima! — gritei. — Nada contra o solo enquanto houver gente nos abrigos.

Alguns me ouviram. Outros só mudaram quando as Rainhas da Água repetiram a ordem e ergueram juntas uma barreira sobre a cidade.

Uma fileira de combatentes alados desceu. Saki voou até a frente deles, desarmada.

— Há pessoas das suas cidades conosco — disse. — Ninguém aqui exige que abandonem suas crenças. Queremos o fim das castas, da escravidão e das expulsões.

Parte da fileira hesitou. Gabriel caiu entre os dois lados antes que alguém respondesse.

Suas asas cobriram a luz. Ele declarou que Paradise pertencia aos puros e que os demais haviam levado sujeira ao planeta destinado à salvação.

— Quem decidiu quem é puro? — perguntei.

Gabriel apareceu diante de mim. A mão dele atravessou meu peito antes que eu pudesse recuar. Consegui ferir seu olho com a lança, mas vi meu corpo cair enquanto eu já renascia longe dali.

A morte durou pouco. A lembrança do braço atravessando meu corpo durou mais.

Voltei pelo portal com medo de que ele pudesse impedir meu próximo renascimento. Athos gritava para que todos protegessem o peito. Os alados mais poderosos sabiam atingir a partícula que carregava nossa continuidade.

Gabriel ordenou um novo avanço. Nem todos obedeceram. Saki havia aberto uma ruptura pequena, mas suficiente para que vários recuassem.

Elaryan surgiu diante dele.

— Você sabia que eu viria — disse Gabriel. — E mesmo assim acredita que conhece o resultado.

— Conheço o caminho que nos trouxe até aqui.

— Caminho não é destino.

Ele a atacou. A luta se espalhou outra vez, mais rápida e destrutiva. Miguel enfrentou Lúcifer. André e Henri sustentaram a defesa no alto. Adwig usou o Cetro para afastar os combatentes que alcançavam os abrigos.

Eu permaneci perto das equipes de resgate. Era tentador correr para o centro e provar que podia enfrentar Gabriel. Cada vez que uma estrutura cedia, porém, a água sob meu controle impedia novas mortes. Aquela também era a minha batalha.

Quando Gabriel começou a absorver os próprios soldados, até quem lutava ao lado dele tentou fugir. Miguel pediu que parasse. Gabriel continuou, acumulando a força de centenas de seres.

Athos encontrou Adwig e chamou os portadores das armas místicas.

— Existe uma possibilidade de detê-lo — disse. — Mas exige reunir as armas. Não posso prometer que será possível separá-las depois.

Elaryan o encarou, impaciente.

— Não temos tempo para uma assembleia.

— Temos tempo para uma escolha — respondeu Adwig.

Um a um, os portadores concordaram em emprestar as armas para aquele ataque. Eu olhei para a Lança do Destino e para a Varunastra. A segunda ainda estava sob minha guarda, em nome das comunidades da água. Consultei as Rainhas pelo vínculo que mantínhamos. A resposta veio em conjunto: use-as para impedir o extermínio, depois devolva a decisão ao conselho.

Entreguei as duas.

Athos fez com que as quinze armas recuperassem uma única forma nas mãos de Adwig. A lâmina brilhou, pesada demais para que ela avançasse com velocidade.

André chamou Carl.

Ele olhou para Carlos, depois para os abrigos que ajudara a esvaziar.

— Carl! — gritou Carlos. — Não faça isso por mim.

Carl sorriu, assustado.

— Não é só por você.

Correu. Em vez de ser lançado por outra pessoa, direcionou a própria energia para Adwig. Seu corpo se desfez quando a alcançou, e a velocidade passou para ela.

Gabriel percebeu o movimento. Virou-se para Adwig e abriu as asas, pronto para sair da trajetória da lâmina.

Os canais de resgate mais próximos já estavam vazios. Puxei a água deles para o alto e fechei duas correntes sobre as asas de Gabriel. Ele rompeu a prisão quase no mesmo instante. Quando tornou a abrir as asas, Adwig já estava diante dele.

Adwig atravessou o coração de Gabriel.

Ele tentou dizer que renasceria. Elaryan segurou a lâmina e descarregou energia através dela. O corpo de Gabriel desapareceu, e sua partícula ficou presa à arma antes que pudesse seguir outro caminho.

O silêncio após a queda durou apenas um segundo.

Elaryan arrancou a arma das mãos de Adwig.

— Nós concordamos que ela seria separada — disse Athos.

— Vocês concordaram. Eu garanti a sobrevivência de todos.

— Devolva.

— O poder dividido nos trouxe até esta guerra.

Athos avançou. Os dois desapareceram antes que qualquer pessoa pudesse intervir.

Trovar surgiu no lugar deixado por eles. André perguntou para onde tinham ido.

— Para perto do ponto em que esta estrutura termina — respondeu. — Lá, poucos minutos corresponderão aos anos que ainda temos.

Adwig exigiu que ele explicasse como Athos previra a decisão de Elaryan.

— Porque algumas das visões não são previsões. O Universo já percorreu antes uma formação muito parecida com esta. Depois do colapso, a matéria volta a se expandir e produz quase os mesmos mundos, seres e escolhas. Elaryan conserva lembranças organizadas dessas repetições. Athos recebeu apenas fragmentos.

— Então nada pode mudar? — perguntou Móretar.

— Pode. As diferenças são pequenas, mas se acumulam. Eu sou uma delas. Elaryan não sabe tudo o que fizemos, e Athos pretende usar isso contra o resultado que ela preparou.

Trovar não explicou como Elaryan mantinha as lembranças nem por que Athos possuía fragmentos. Disse apenas que o confronto entre os dois já começara perto do fim.

— Quanto tempo temos? — perguntei.

— Cerca de vinte e cinco anos.

Ao meu redor, algumas pessoas choraram. Outras perguntaram se deveriam se preparar para lutar. Trovar respondeu que não havia batalha capaz de impedir o colapso. Voltaria perto do fim para verificar quem poderia atravessá-lo com ele.

Depois desapareceu.

Olhei para Paradise. Havia mortos que retornariam, mortos que não retornariam e sobreviventes sem casa. O prazo não encerrava nada daquilo.

Antes de voltar para o castelo, ajudei a erguer o primeiro abrigo.

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