O Fim do Inferno
O tempo passou e comecei a me preocupar. Não era ruim ter tranquilidade, recursos e a chance de acompanhar a recuperação das feridas. O problema era a promessa de uma guerra sobre a qual eu não sabia nada.
As meninas começaram a perguntar se podiam voltar a ter uma rotina, formar um lar, tentar viver. Eu não fazia ideia do que responder. A qualquer momento, outra guerra poderia cair sobre nossas cabeças. Incentivá-las a sonhar me parecia injusto. Proibi-las seria ainda pior.
Pedi mais um pouco de paciência, usando como desculpa os cuidados com as feridas, mas quase todas já se diziam recuperadas. Precisávamos fazer alguma coisa que não fosse esperar pelo medo.
Chamei as mulheres que tinham se tornado referências em cada grupo. Eu não estava concedendo autoridade a elas. Apenas reconhecia uma liderança que já existia.
— Podemos transformar o treinamento numa competição — sugeriu Creteas. — Pelo menos será divertido.
— Precisa ser justo — disse Leiva. — Cada grupo tem vantagens muito grandes em aspectos diferentes.
— Ainda não testamos muita coisa aqui — começou Natane. — Poderíamos desenvolver o controle da água. Todas nós conseguimos manipulá-la, mas poucas fazem mais do que criar ondas pequenas.
Fiquei confusa. Era uma informação que ninguém havia dividido comigo.
— Vocês encontraram as algas? Também conseguiram controlá-las?
Elas se entreolharam.
— Não — respondeu Darca. — As algas não foram para o mesmo planeta que nós. Descobrimos sozinhas que conseguíamos interagir com a água. Exige treino e era muito mais difícil quando ainda estávamos presas na primeira vida.
Elas haviam alcançado um poder que eu nem sabia existir.
— Então é isso que vamos treinar. E eu também vou participar da disputa.
Eu não havia morrido outra vez como elas e provavelmente teria mais dificuldade, mas queria tentar. Antes que conseguíssemos discutir as regras, um homem apareceu no meio do grupo e caiu desacordado.
— É um recém-chegado? — perguntou Leiva.
Demorei um instante para entender. Ele parecia ter acabado de morrer em outra vida.
Então outra pessoa surgiu. E mais outra.
Homens e mulheres apareciam por todos os lados e tombavam ainda inconscientes. Em seguida vieram os animais, cada um preso numa estrutura transparente semelhante àquela em que encontrei Namos.
— O que está acontecendo, Emma? — perguntou Creteas.
Eu não sabia. Era rainha de um povo que já conhecia mais daquele Universo do que eu.
— Talvez tenha relação com o que aconteceu aqui — disse Darca. — Todas nós morremos e voltamos para um planeta que não deveria nos receber outra vez. Pode ser que essas pessoas já fossem destinadas a Néon e só agora encontraram caminho.
Era uma hipótese. Nenhuma de nós tinha como confirmá-la.
O homem que aparecera perto de nós despertou. Natane se abaixou ao lado dele, explicou onde estava e perguntou do que se lembrava. Ele vinha de Erulen. Um tsunami surgira sem aviso e o mar engolira tudo.
Os outros que acordavam contavam a mesma história.
Orientei cada mulher de Néon a acolher pelo menos uma pessoa. Quem despertava chorava pela vida perdida. Muitas das mulheres choravam ao perceber que agora podiam receber alguém em vez de apenas disputar espaço e alimento.
Um dos recém-chegados encontrou dentro de um casulo o pequeno felino que morrera com ele. Quando tocou a superfície transparente, uma luz se abriu e os dois formaram uma simbiose, como acontecera comigo e Namos.
Depois disso, todos quiseram tentar.
Algumas ligações funcionaram. Outras três falharam ao mesmo tempo. Os casulos se romperam e os corpos dos animais se desfizeram no ar antes que alguém pudesse ajudá-los.
Mandei interromper as tentativas.
O silêncio durou pouco. Havia gente demais despertando, pessoas procurando parentes, animais presos e perguntas que ninguém sabia responder. As Gigantes começaram a chamar para seu grupo algumas mulheres recém-chegadas, principalmente as que haviam conseguido uma simbiose. As Mileniuns entenderam aquilo como provocação e passaram a recrutar homens.
As guerreiras esperaram uma orientação minha e de Leiva. Nós continuamos acolhendo quem surgia, na esperança de que a disputa terminasse sozinha.
Não terminou.
Uma Gigante empurrou uma Milenium. A outra respondeu com um soco. Em poucos instantes, a briga se espalhou.
A raiva cresceu dentro de mim. Depois de tudo que havíamos perdido, depois das mortes diante dos casulos, elas ainda encontravam um jeito de se dividir.
Comecei a gritar. Uma fonte rompeu a terra sob meus pés e me ergueu. Quanto mais alto eu gritava, mais a água subia.
Todos pararam para olhar.
Minha visão escureceu. Abri os braços e puxei a água do lago, cercando a multidão. Ouvi Leiva gritar meu nome e pedir que eu lembrasse quem era.
Um arrepio atravessou meu corpo e escapou pelos dedos. A água foi arremessada para longe e se transformou em gelo no ar. Os pedaços caíram além das áreas ocupadas, espalhados por quilômetros.
Só então recuperei os sentidos.
Olhei para as pessoas assustadas e lembrei do que havia feito com as mulheres de Néon. Outra vez, milhares de vidas tinham ficado ao alcance de uma decisão tomada durante minha fúria.
— Parem agora! Este lugar não é mais um inferno. Nós mudamos Néon. Isso não faz de vocês donas umas das outras e não faz de mim dona de vocês. Ninguém aqui precisa voltar a lutar por um lugar para existir.
A água que me sustentava desceu devagar.
— Nós vamos aprender a cuidar uns dos outros. Se isso é uma família, ela não pode começar escolhendo quem merece pertencer.
Uma Gigante pediu desculpas à Milenium que havia atingido. A outra ainda hesitou, mas aceitou a mão oferecida.
— Como você fez isso? — perguntou Leiva.
Olhei para o lago esvaziado, para o gelo distante e para o medo que ainda permanecia em alguns rostos.
— Eu não faço a menor ideia.