O Plano Fúria das Águas · Capítulo 6 de 51
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O Plano

As algas seguiam contra a forte correnteza das cachoeiras invertidas, abrindo caminho pela água que parecia subir e descer ao mesmo tempo. Pela primeira vez desde a simbiose, senti que meu novo corpo não bastava. Eu podia nadar melhor, mover-me com precisão e sentir cada mudança do fluxo, mas a corrente empurrava meus ombros, prendia minhas pernas e dobrava minhas asas-nadadeiras. Poder recém-descoberto ainda era poder sem educação.

— Lute com sua mente antes de lutar com o corpo — disseram as algas, e a voz chegou limpa apesar da distância, dentro de mim, atravessando a água sem depender dos ouvidos. — Ninguém atravessa esse fluxo pela força bruta, muito menos o reverte, por maior que seja. Se você se concentrar, poderá passar por entre suas moléculas, fazendo a corrente desviar ao redor de você. Esse é o primeiro passo para controlar o elemento.

Foi a primeira vez que percebi com clareza que já não as escutava pelos ouvidos. A comunicação vinha por pensamento, talvez pela própria ligação criada entre nós, talvez por alguma consequência de Namos que eu ainda não sabia nomear. Em qualquer hipótese, ouvir conselhos de algas telepáticas dentro de uma cachoeira invertida era uma daquelas situações em que minha antiga vida parecia ter pertencido a outra pessoa, uma pessoa com boletos, senhas de aplicativo e preocupações maravilhosamente medíocres.

No momento em que parei de lutar contra o fluxo, fui levada por ele. Meu corpo disparou como um tronco despencando de uma cachoeira, girando em meio à pressão e ao estrondo, mas me obriguei a permanecer calma. Segui a instrução das algas e tentei sentir a força da água sem tratá-la como inimiga. Ela tocava minha pele com peso e leveza ao mesmo tempo, fria em alguns pontos, morna em outros, cheia de microcorrentes que se chocavam, se abriam, se fechavam. Parecia matéria inanimada e, ao mesmo tempo, alguém com humor, memória e vontade própria.

Aos poucos, a corrente deixou de me arrastar. A água encontrou passagem ao redor do meu corpo. Eu não a vencia; aprendia a não oferecer resistência no ponto errado. A pressão diminuiu o bastante para que eu seguisse o rastro luminoso das algas.

Voltei ao ponto de onde havia sido puxada durante a queda, perto das margens da rota das cachoeiras. Já conseguia ouvir as guerreiras me procurando. As vozes chegavam distorcidas pela água, cheias de urgência, medo e confusão. Reconheci Leiva antes de entender as palavras. Havia algo no tom dela que misturava comando e preocupação, e essa mistura me atingiu mais do que eu esperava. Até pouco tempo, eu era apenas a novata condenada. Agora, talvez, alguém estivesse realmente com medo de me perder.

Tentei sair da água, mas meu corpo não respondeu. A margem estava próxima, as pedras brilhavam sob a luz das estrelas de Neon, e eu sabia que bastava um impulso para saltar. Mesmo assim, algo travou dentro de mim. Um medo bruto tomou conta do peito, antigo demais para ter nascido naquele instante. Entendi que não era exatamente meu. Era de Namos. Uma fobia de terra, de ar seco, de folhas, de raízes, de tudo que existia fora do ambiente onde seu corpo aprendera a sobreviver.

A memória veio como uma onda suja. Vi um homem, seu antigo dono, segurando-o com descuido. Depois o ar, o mato, o impacto contra folhas e galhos. Eu estava vivendo aquilo por dentro. Eu era um animal retirado da água e lançado no meio de árvores, como um peixe de aquário jogado fora por alguém que se cansou de cuidar. Sufocava. O desespero lembrava minha própria morte por afogamento, só que invertido. Namos conhecia a mão que o havia lançado.

Precisei separar meus pensamentos dos de Namos com cuidado. A fusão entre nós ainda era recente, e as dores dele tinham força para se passar por minhas. Fiquei parada dentro da água, diante da margem, tentando acalmar algo imenso dentro da minha cabeça. A imagem que me veio foi ridícula e precisa: eu estava frente a frente com um touro bravo, tentando ganhar sua confiança com carinho logo depois de alguém enfiar uma espada em seu lombo. Qualquer movimento brusco faria a ferida falar mais alto.

Pedi a Namos que confiasse em mim. Disse, por pensamento ou por sentimento, que agora éramos parte um do outro e que eu jamais faria mal a ele. Prometi que, se alguma coisa desse errado em terra, voltaríamos para a água imediatamente. Fiquei repetindo essa promessa até sentir o corpo destravar aos poucos. As asas-nadadeiras se ajustaram, minhas pernas responderam, e a margem deixou de parecer uma sentença.

Saltei. Foi um salto digno de super-herói de cinema, desses que deveriam vir acompanhados de música dramática e câmera lenta, embora meu público fosse formado por guerreiras traumatizadas, algas escondidas e uma parte animal de mim tentando decidir se confiava mesmo na minha sanidade. Aterrissei diante de Leiva, ainda envolta na pele azul-marinho de Namos, com garras, proteções e detalhes brancos que provavelmente não ajudavam em nada a tranquilizar ninguém.

Leiva tomou um susto tão grande que quase caiu para trás. Em seguida, quando percebeu que era eu, ou algo muito parecido comigo, abriu a boca sem emitir som por um segundo. As outras guerreiras pararam ao redor. Algumas ergueram armas por instinto. Outras recuaram. Krata arregalou os olhos com uma expressão que, por uma vez, não parecia apenas rabugice profissional.

— Novata, é você mesma? — perguntou Leiva, incrédula, olhando da minha cabeça aos meus pés como quem tentava encontrar um pedaço reconhecível sob aquela couraça viva.

— Emma — respondi, levantando as mãos para mostrar que eu ainda era relativamente inofensiva, ao menos para elas. — Meu nome é Emma. Acho que já tinha passado da hora de falar isso para vocês.

Os rostos continuaram espantados. Meu nome claramente não era a principal dúvida daquele momento, talvez nem entrasse no top dez. Ainda assim, dizê-lo me devolveu alguma coisa. Eu precisava ser Emma antes de ser Salvadora, simbiose, arma, profecia ou qualquer outro título que aquele planeta quisesse pendurar no meu pescoço.

— Eu ainda não sei explicar tudo o que aconteceu — continuei, tentando escolher palavras que não soassem como delírio completo. — Vou contar o máximo que conseguir, mas preciso que vocês respirem comigo por alguns minutos antes de decidirem me atacar por susto.

Contei. Falei das algas, da gruta, da voz coletiva, da profecia da Salvadora, da incubadora e de Namos. Expliquei que ele não era armadura nem roupa, e sim uma simbiose, um ser com história, medo, memória e vontade, agora ligado a mim de forma profunda. Não sabia se existiam outros como ele naquele mundo, nem até onde iam minhas novas habilidades. Enquanto falava, via as guerreiras alternarem entre fascínio, esperança e desconfiança. Ao final, talvez contaminada pela força inflada que ainda corria dentro de mim, disse que iria confrontar a Rainha.

Falei isso com uma tranquilidade que me assustou depois. Naquele instante, parte de mim não imaginava outro resultado além da vitória. Essa certeza tinha gosto de poder novo e podia embriagar mais do que qualquer bebida da Terra. As algas tinham razão. Namos me dera força, mas também me aproximara de uma versão de mim que achava simples demais destruir quem merecesse destruição.

— E tudo isso aconteceu dentro de uma queda d’água? — perguntou Shanera, com os olhos fixos em minhas garras. — Ainda estou tentando decidir em que parte começo a acreditar.

Leiva não respondeu de imediato. Afastou-se alguns passos, virou-se para a água e passou as mãos pelo rosto. Depois olhou para Namos e para as guerreiras que aguardavam sua resposta.

— Leiva, e agora? — perguntou Anna, baixinho, embora todas estivessem esperando a mesma resposta e ninguém tivesse coragem de assumir a pergunta.

— Preciso pensar — respondeu Leiva. A voz saiu baixa e falhou na última palavra.

— Leiva, talvez não tenhamos tempo para pensar tanto — disse Fanare, mantendo os olhos nas águas, como se esperasse a Rainha surgir a qualquer momento da correnteza.

Leiva se virou para ela e apertou a boca antes de responder. Seus olhos passaram pelas guerreiras reunidas.

— Claro que precisamos pensar — disse Leiva. — Vocês entendem quanto tempo levamos para conquistar a confiança da Rainha? Quantas batalhas, quantos riscos, quanto sofrimento até nos aproximarmos dela? Eu sou responsável por vocês. Como posso confiar uma revolução a uma desconhecida, por mais extraordinária que seja a história dela? Ainda não consigo saber o que é certo, o que é errado, nem qual esperança é armadilha.

Ouvi aquilo sem me ofender, o que talvez tenha sido meu primeiro bom sinal desde a simbiose. Leiva estava certa. Eu mesma, no lugar dela, provavelmente teria amarrado a novata azul em uma pedra até entender melhor a situação. A resposta que saiu de mim, porém, veio antes de qualquer elaboração inteligente.

— Leiva, talvez a gente nunca tenha certeza — falei. — Só sei que continuar assim também está matando vocês.

O olhar dela mudou. A dúvida continuava ali, mas ela me estudou por mais alguns segundos e respirou fundo.

— Então, qual é o seu plano? — perguntou ela, sem desviar os olhos de mim.

— Acredito que você seja muito mais capaz de criar um plano do que eu — respondi, honesta demais para fingir estratégia. — Minha vontade é ir direto até a Rainha e acabar com ela, o que talvez seja exatamente o tipo de ideia que prova que eu preciso de você pensando.

Leiva hesitou. Olhou para as guerreiras, para mim, para a água, depois para o caminho que levava ao Castelo de Água. Quando voltou a falar, a líder havia reaparecido sob o abalo.

— Nosso maior trunfo é que a Rainha não sabe o que aconteceu — disse ela. — Precisamos manter isso assim até o momento certo. Se ela for pega de surpresa, talvez tenhamos chance. O problema é sua aparência. Existe alguma forma de se separar do animal que se uniu a você?

— Eu não fui incorporada — corrigi, com mais cuidado do que impaciência. — É uma simbiose. Estamos juntos. E sim, podemos nos separar.

Assim que falei, senti Namos responder. A pele azul se abriu sem dor, como água se separando de água, e ele surgiu ao meu lado em sua forma própria. As guerreiras recuaram. Não as culpei. Namos era grande, imponente, belo e assustador, com olhos roxos atentos, corpo azul-marinho, detalhes brancos e vermelhos, garras, penas e asas-nadadeiras que pareciam pertencer a várias criaturas reunidas em uma só. Ele não passaria despercebido nem se tentasse carregar uma placa pedindo discrição.

— Agora precisamos pensar em como disfarçá-lo — disse Leiva, franzindo a testa. — Não vejo como entrar no castelo com ele escondido.

— Na verdade, existe uma forma — respondi, descobrindo a informação enquanto falava, como acontecia com muitas coisas desde que Namos se unira a mim. — Eu posso fazer com que ele se torne um desenho no meu corpo, uma espécie de tatuagem. Ele também poderia fazer isso comigo. Adquirimos esse poder de camuflar um ao outro, e isso exige confiança, porque apenas nós dois podemos iniciar ou desfazer essa ação um no outro.

A maioria das coisas que eu sabia agora vinha pronta, sem lembrança de aprendizado. Toquei a cabeça de Namos com delicadeza. Ele me olhou, e a fobia da terra ainda estava ali, contida pela coragem que fazia por mim. Esperei que aceitasse o toque antes de ativar o que sabíamos fazer.

Namos desapareceu aos poucos, transformando-se em uma imagem sobre meu braço e subindo até o ombro, como uma tatuagem viva de linhas azul-marinho, brancas e vermelhas. A pele marcada pulsou levemente, e eu senti a presença dele recolhida ali, consciente, atenta, confiando. Passei os dedos pela imagem com um cuidado que me surpreendeu.

— Obrigada, meu amigo — murmurei, sentindo a imagem responder com um pulso discreto sob meus dedos. — Vou tirar você daí o mais rápido que puder.

Eu sentia que conhecia Namos havia muito mais do que aquelas poucas horas. Leiva observou a tatuagem, avaliou meu rosto e encontrou um plano.

— Vamos levá-la como prisioneira — disse ela, e as guerreiras entenderam o risco antes mesmo que terminasse. — Quando estiver bem próxima da Rainha, você usará as algas para atacá-la.

O plano parecia bom justamente por ser simples. A Rainha esperava que eu chegasse como condenada, talvez como curiosidade, talvez como futura peça de seus jogos. Se Leiva e as guerreiras mantivessem o papel de servas obedientes, poderíamos atravessar parte da defesa sem levantar suspeitas. O problema, naturalmente, era todo o resto.

— E se as algas não a matarem? — perguntei, sentindo a confiança inflada de Namos diminuir o bastante para minha insegurança aparecer. — Ou se ela puder controlar as algas mais do que eu?

Leiva sustentou meu olhar. Depois olhou para as mulheres atrás dela. Nenhuma se afastou.

— Então todas teremos que ter um pouco de fé em você, inclusive você mesma — respondeu ela. — Em último caso, se não funcionar, peço que faça algo por nós. Mande as algas nos destruírem.

A voz dela falhou no fim. Algumas mulheres choravam. Outras mantinham o queixo erguido. Leiva passou os olhos por cada uma antes de voltar a mim. Ninguém protestou.

— Espero não precisar fazer isso — respondi. — Prometo tentar tirar vocês daqui. Se não conseguir, não vou deixá-las nas mãos dela.

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