Um Recomeço
Depois da chegada do povo de Erulen, o caminho natural foi preparar Néon para uma realidade diferente. A estrutura criada por Athos era extraordinária, mas temporária e pequena para tanta gente. Era preciso ampliá-la, produzir alimento e transformar abrigo em moradia.
Enquanto construíam casas, as pessoas criavam laços. Quem recebia ajuda para erguer uma parede voltava no dia seguinte para trabalhar na casa vizinha. Escolhiam cores, abriam caminhos, plantavam e começavam a chamar cada lugar pelo nome que inventavam.
As antigas divisões perderam força. Já não eram somente Gigantes, Mileniuns ou Tsun, nome adotado pelos sobreviventes do tsunami. Passaram a se identificar também pelas regiões onde viviam: Além das AM, depois das Árvores Molhadas que reapareciam conforme a maré; Águas Congeladas; Trama do Sol; Terras da Rainha, perto do Castelo de Água; e os Escondidos, que escolheram as cavernas do sul.
Durante aquele período, ninguém morreu de forma natural. Também não houve assassinatos ou novas tentativas de suicídio. A paz devia me tranquilizar, mas a passagem do tempo aumentava minha aflição. Athos prometera voltar e não voltava.
Com a tranquilidade, nós nos permitimos sentir coisas para as quais antes não havia espaço.
Eu me aproximava cada vez mais de Leiva. Ficava evidente que existia entre nós alguma coisa além da amizade, mas nenhuma das duas arriscava dizer. Tínhamos medo de perder uma relação que já era importante demais.
Natane não tinha o mesmo receio. Continuou me procurando e deixava claro o desejo que sentia. Eu também a desejava. Depois do beijo e da conversa no Castelo, ela tinha exigido que eu não escondesse a existência de outra pessoa. Mesmo assim, cada encontro com Leiva me fazia sentir que eu ainda ocultava uma parte importante.
Lembrei da Terra e de quantas mentiras eram justificadas como uma maneira de não machucar. Eu não queria repetir aquilo num mundo em que ajudava a definir novas formas de convivência.
Procurei Natane primeiro.
— Eu quero ter um relacionamento com você — disse. — Mas também amo Leiva. Não quero mentir para nenhuma das duas.
Natane me observou por alguns segundos.
— Você sente atração por mim, mas nós duas sabemos que não sou eu quem você mais ama.
— Não quero transformar isso numa disputa. Pensei em perguntar se ela aceitaria tentar uma relação conosco. Só farei isso se você realmente quiser.
— Você está me perguntando se quero dividir você ou se quero me relacionar com vocês duas?
A pergunta me fez perceber que eu ainda pensava na ideia a partir de mim.
— Com nós duas — respondi. — Se for desejo seu também. E se não for, preciso saber.
Natane sorriu, mas não respondeu de imediato.
— Acho Leiva linda. Acho divertida a maneira como ela finge que não gosta de mim. E quero ver a expressão dela quando você finalmente disser o que sente.
— Isso é um sim?
— É um sim para conversarmos. O resto não depende só da gente.
Concordei. Eu pretendia esperar até encontrar o momento certo, mas Natane se levantou e segurou minha mão.
— Vamos agora.
— Agora?
— Se esperar demais, você vai encontrar outra guerra para usar como desculpa.
Saímos do Castelo e atravessamos o Jardim dos Fundos até as casas das guerreiras. Natane chamou por Leiva, que apareceu na sacada e ficou surpresa ao nos ver juntas.
— Entrem. A porta está aberta. Já estou descendo.
Eu nunca tinha entrado na casa dela. O espaço era simples e acolhedor, decorado com peças que se moviam com a água e o vento. Leiva desceu ajeitando o cabelo, como se tivesse tentado se arrumar durante os poucos segundos que levou para chegar até nós.
— Eu jamais esperaria receber a rainha aqui, ainda mais acompanhada de Natane. Espero que não tenham vindo anunciar o casamento de vocês e me convidar para madrinha.
Leiva riu. Nossa falta de reação fez o sorriso desaparecer.
— Não acredito. É isso? Desculpem. Que coisa idiota para eu dizer.
— Calma, não é isso — respondi.
— Emma quer contar uma coisa e está apavorada — disse Natane.
— Obrigada pela ajuda — murmurei.
Leiva alternou o olhar entre nós.
— Eu amo você — falei. — Faz tempo. Também estou me envolvendo com Natane e contei a ela o que sinto. Nós viemos perguntar se você teria vontade de tentar alguma coisa conosco. Não precisa responder agora. E não precisa aceitar para continuar ao meu lado ou para preservar o que já temos.
Leiva ficou vermelha. Havia alegria em seu rosto, mas também desconforto.
— Você decidiu tudo isso e só depois veio falar comigo?
A pergunta era justa.
— Nós decidimos apenas fazer a pergunta — respondeu Natane. — Eu também não quero uma relação em que uma de nós seja tolerada para que as outras duas fiquem juntas.
Leiva olhou para ela com surpresa.
— Eu não esperava ouvir isso de você.
— As pessoas quase nunca esperam as coisas certas de mim.
Leiva riu e a tensão diminuiu.
— Eu amo você também, Emma. E sinto alguma coisa por Natane, embora ela me irrite quase sempre. Só não sei ainda como isso funcionaria.
— Nem nós — respondi.
— Então não prometam que será simples.
Natane estendeu uma das mãos para ela e manteve a outra junto à minha.
— Podemos tentar sem fingir que já sabemos como.
Leiva aceitou a mão, aproximou-se e me beijou. Foi um beijo longo, acompanhado de um abraço que carregava tudo o que nós duas havíamos evitado dizer.
Quando nos afastamos, Natane ainda segurava nossas mãos.
— Isso significa que vamos tentar? — perguntou.
Leiva olhou primeiro para ela, depois para mim.
— Significa que vamos tentar. Devagar.