A Lança
Os anos que vivi com Carlos e nossos filhos foram reais para mim, ainda que tivessem acontecido numa ligação entre consciências. Permanecer com eles depois parecia um presente. Saber que Elaryan tinha uma intenção por trás tornava impossível recebê-lo sem desconfiança.
Carlos queria que aproveitássemos o tempo recebido. Clara e Eric retomaram os jogos como se nenhum intervalo tivesse existido. Eu tentava acompanhá-los, mas via Elaryan em cada detalhe conveniente: o castelo, o reencontro, a promessa de que agora estaríamos seguros.
— Precisamos encontrar Athos — decidi.
Leiva pediu que eu a matasse. Se Ben ainda estivesse preso, ela queria atravessar o caminho restaurado. Ferne colocara nela o mesmo rastreador usado em mim.
Natane tentou dissuadi-la. Leiva respondeu que esperar também era uma escolha, apenas uma que beneficiava quem controlava o acesso. O rastreador permitiria que Ferne a encontrasse quando chegasse ao limite do percurso.
— Tem certeza?
— Preciso saber.
Beijei-a. Depois atravessei seu peito com a lança. Leiva desapareceu dos meus braços.
Fiquei olhando o espaço vazio. A mão que segurava a lança tremia. Leiva havia pedido, mas seu desaparecimento não parecia menos meu.
Abri um portal pensando em Fóster, o planeta que Athos mencionara como ponto de encontro. Impedi Carlos e os filhos de me acompanhar. Raquel se ofereceu para ir comigo.
O portal não mostrou destino algum. Era apenas uma abertura escura que reagia ao nome e à intenção. Carlos percebeu que eu não tinha certeza de onde sairíamos.
— Então não leve nossos filhos — disse.
Prometi voltar. Depois de tudo o que já havíamos vivido, a frase pareceu pequena.
Saímos no espaço, caímos em outra passagem e chegamos a um deserto.
Elaryan nos esperava.
Tomou a lança e prendeu meus punhos e tornozelos com metal que bloqueava meus poderes.
— Você ainda não sabe onde abre seus portais, mas já se considera capaz de me enfrentar.
Ela ameaçou Carlos, meus filhos, Natane e Leiva. Quando tentei reagir, abriu uma passagem sob mim.
— Não preciso impedir que você me desafie — disse Elaryan. — Preciso apenas fazer com que entenda o preço.
Raquel foi lançada junto.
Caímos presas num mundo de penumbra habitado por criaturas gigantescas. Elas se alimentavam do medo e sabiam manter um corpo vivo. Causavam dor, curavam e recomeçavam. Também invadiam lembranças, misturando trauma com o que acontecia ao redor.
O tempo perdeu sentido. Raquel pediu que eu a matasse, mas eu não conseguia mover as mãos. Quando a consciência falhava, alguma criatura nos despertava.
Tentamos medir a passagem pelo cansaço, pela fome e pelas mudanças na pouca luz. Nada obedecia a uma sequência confiável. As criaturas percebiam quando começávamos a nos adaptar e alteravam o ataque. Não queriam terminar conosco. Queriam impedir que preservássemos qualquer certeza.
Elaryan apareceu somente depois que já não conseguíamos resistir.
— Estão prontas para obedecer?
Raquel respondeu primeiro.
— Tire-nos daqui. Farei o que mandar.
Elaryan aproximou o rosto do meu.
— E você, Emma?
— Diga o que quer.
Ela abriu o portal somente depois da resposta. Não nos convenceu; esperou até que obedecer fosse a única maneira de sair.