O Reencontro com o Inimigo
Acordei sem me lembrar de ter saído da piscina. Raquel comia diante de uma mesa baixa e me ofereceu um pão torrado coberto por uma pasta verde.
— Elaryan encontrou você dormindo na borda e a trouxe para cá — explicou. — Depois foi embora.
— E você?
Raquel entendeu a pergunta.
— Eu a recusei. Sem a espuma, não quis continuar.
Elaryan apareceu entre nós, mordendo um fruto.
— O tempo responde a quase todas as perguntas — disse. — Ainda não posso devolvê-las aos outros. Há uma missão adiante, mas a ocasião não chegou.
— Então isto continua sendo uma prisão — falei.
— Uma prisão com boa comida, pelo menos.
Ela prometeu voltar para nos levar a uma comunidade ligada ao fogo e desapareceu.
Um portal se abriu pouco depois.
Poseidon atravessou.
Ele olhou primeiro para Raquel. Por um instante, a segurança com que entrara desapareceu. Havia reconhecimento e uma dor que não combinava com a provocação preparada. Poseidon recompôs o rosto antes que ela percebesse.
Raquel se levantou antes de mim. Duas espadas de gelo se formaram em suas mãos.
— Que reencontro comovente — disse ele. — A rainha e a mulher que tomou o lugar dela.
Raquel atacou. Poseidon conteve a primeira lâmina com um bracelete e desviou da segunda. Ela soltou uma das espadas, acertou a lateral do corpo dele com um soco e congelou o músculo. Criou uma adaga e a cravou no ponto atingido.
Poseidon arrancou a adaga e fechou o ferimento. Arremessou a arma contra Raquel e lançou uma descarga através dela. O raio a atingiu primeiro, impedindo-a de se mover; logo depois, a adaga se cravou no peito de Raquel.
Ele poderia ter terminado o ataque. Em vez disso, tentou alcançá-la e carregá-la até o portal.
Corri para ajudá-la e fui afastada por uma onda criada no ar. Reduzi a temperatura do salão. O gelo cobriu o chão, subiu pelas pernas de Poseidon e atrasou cada passo que ele dava na direção dela.
Ele transformou parte do gelo numa lança e a disparou contra mim. Desfiz a arma antes que chegasse. Quando Poseidon voltou a avançar, saltei sobre ele e segurei sua cabeça. Ele agarrou meu pescoço.
Congelei seu rosto. Poseidon tentou fazer o mesmo dentro das minhas narinas. Concentrei energia nos olhos e queimei a mão que me prendia. Ele respondeu com golpes e descargas elétricas.
Nenhum dos dois conseguiria sustentar aquilo por muito tempo. Poseidon abriu um portal. Não vi o tridente nem consegui distinguir se outro instrumento estava escondido com ele. Soltei-o antes que pudesse me arrastar junto.
Caí desacordada ao lado de Raquel.
Quando despertei, Elaryan terminava de curar nossas feridas.
— Essa visita não aconteceu nas sequências que conheço — disse. — Ou aconteceu sem produzir consequência suficiente para permanecer nas minhas lembranças.
— Ele se teletransportou sem o tridente — observou Raquel.
— E tentou levar você — acrescentei. — Teve oportunidade de matar e não matou.
— Isso não torna nada melhor.
Elaryan ficou séria.
— Isso é mais importante do que o ataque. Significa que ele obteve um caminho que não conheço ou que não reconheci como importante quando aconteceu antes.
Elaryan examinou Raquel antes de continuar.
— Emma tem razão sobre outra coisa. Poseidon não veio apenas para derrotá-las. Queria retirar Raquel daqui.
— Por quê? — perguntou ela.
— Essa resposta pertence a ele.
Raquel ainda olhava para o ferimento que desaparecia.
— Eu queria ter acabado com ele.
— Parte das ordens que Poseidon deu a você começou comigo — admitiu Elaryan. — Eu precisava que certas decisões fossem tomadas. Ele escolheu como executá-las e escolheu muito do que fez além delas.
— Se eu pudesse, acabaria com vocês dois.
Elaryan recebeu a ameaça sem sorrir.
— Eu sei. E ainda assim voltei para salvá-las.
Ela nos salvara e ainda devia respostas pelo que fizera antes.
Ela disse que o tempo de espera havia terminado. A próxima visita seria para uma missão difícil.
Depois que desapareceu, virei para o lado e dormi outra vez. Meu corpo ainda não conseguia distinguir cura de exaustão.