O Raio Fulminante Fúria das Águas · Capítulo 16 de 51
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O Raio Fulminante

Apenas Athos e eu atravessamos. Para quem ficara em Néon, o portal havia se fechado e aberto no mesmo instante.

— Que susto, Emma — disse Creteas. — Parecia que Athos não conseguiria sustentar a passagem. Como recuperou o poder tão rápido?

— Não foi rápido. Passamos um longo período do outro lado, mas aqui o tempo ficou parado.

Creteas olhou para o portal.

— Vocês continuaram vivendo enquanto nós não percebemos nada?

— Foi isso que aconteceu.

Uma tempestade começava a se formar.

— Não devemos ficar aqui — gritou Athos. — Atravessem!

Parte do grupo correu. Outras mulheres hesitaram diante do portal, e algumas não conseguiam se locomover com rapidez. Saltei para o final da fila. Uma enchente já separava várias delas da passagem.

Empurrei barcos até o grupo, ajudei quem não conseguia embarcar e criei uma corrente para levá-los. Expliquei que o destino era seguro por enquanto e que as pessoas que já haviam atravessado esperavam por elas. Não prometi que seria um paraíso. O fim de Néon era motivo suficiente para partir.

A chuva caiu com força. Consegui desviá-la, mas os raios continuavam fora do meu controle. Athos tentou formar uma barreira enquanto sustentava o portal. Cada nova descarga fazia o campo de proteção oscilar.

— Mais rápido! — gritei.

— Use uma onda — pediu Athos. — Leve todas de uma vez.

Puxei a água da enchente e formei uma corrente larga. As últimas mulheres foram carregadas para dentro do portal. Corri atrás delas.

Quando Athos e eu estávamos quase do outro lado, um raio atingiu meu corpo.

Não se pareceu com nenhum raio que eu conhecia. A descarga rompeu o solo e acelerou o colapso do planeta. Ainda vi o desespero nos olhos de Athos antes de perder a consciência.

Despertei no escuro.

Não sentia meu corpo. Não havia pele, peso ou distância entre mim e o que existia ao redor. Eu me expandia, alcançando lugares que não sabia nomear. Por um instante, acreditei ser o próprio Universo.

Informações chegavam depressa demais. A cada tentativa de compreendê-las, outras surgiam. Não era conhecimento organizado, mas uma quantidade insuportável de imagens, sensações e relações.

Vi a Terra. Encontrei o instante da minha morte e a pessoa que tentou me salvar na praia. Podia observar o planeta de longe e, ao mesmo tempo, distinguir as gotas de água sobre meu rosto.

Encontrei Néon. Vi as algas atendendo ao meu chamado e o mar cobrindo as mulheres. De longe, aquilo parecia um único movimento. De perto, eram milhares de mortes.

Vi os portais de Athos atravessarem regiões que ele acreditava separadas. Cada abertura deixava uma ruptura. O Universo não se organizava apenas nos dois lados que ele conhecia. Havia outras direções partindo do mesmo centro, mas, quando tentei acompanhá-las, a imagem se desfez.

Vi Poseidon abrir passagens com o tridente. Outra figura também cruzava regiões distantes e interferia no tempo, mas não consegui reconhecer o rosto.

Então vieram acontecimentos que ainda não tinham ocorrido. Planetas demais, vidas que eu não saberia contar e escolhas se dividindo em possibilidades. Por alguns instantes, senti que poderia tocar tudo aquilo e mudar seu curso.

Foi quando percebi alguma coisa acima de mim.

Não vi uma pessoa ou uma forma. Senti uma força maior do que o espaço que eu ocupava. A expansão parou. Comecei a ser comprimida, perdendo as imagens antes de conseguir guardá-las.

Tudo foi arrancado de mim.

Abri os olhos num mar vermelho. A água se estendia até onde eu podia enxergar. O céu era roxo e o sol, alaranjado.

Eu usava a pele de Namos, mas não conseguia falar com ele nem controlar o líquido ao redor. Também não afundava. Permanecia na superfície como se aquele mar recusasse meu corpo.

Tentei me erguer. Uma dor atravessou minha coluna e me fez gritar. Voltei a ficar deitada, respirando com dificuldade.

As imagens já desapareciam. Eu sabia que vivera alguma coisa impossível, mas não conseguia separar lembrança, morte e delírio.

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