O Soro Fúria das Águas · Capítulo 25 de 51
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O Soro

Contei a Leiva e Natane o que Elaryan havia mostrado. Falei de Carlos, do amor que vivemos na Terra, dos nossos filhos e do acidente em que apenas eu sobrevivi.

— Eu não fazia ideia — disse Natane. — Fui órfã e nunca construí uma relação profunda antes de vocês. Não sei se isso é sorte ou uma falta que eu já nem percebia.

Leiva permanecia calada.

— Você também perdeu alguém? — perguntei.

— Em Erulen, demorei muito para encontrar a pessoa certa. Lá, duas mulheres podiam ter filhos naturalmente. Minha esposa e eu tivemos Ben. Um ano e meio depois, os dois morreram numa guerra regional. Pouco tempo depois, tomei comprimidos para dormir e entrei na piscina.

Leiva quase não conseguia falar.

— Se o que Elaryan mostrou é verdade, Ben pode estar preso como bebê, sem nenhuma das mães.

Eu a abracei. Natane nos envolveu e o choro que Leiva segurava finalmente saiu.

— Como alguém entrou nesses planetas se ninguém consegue atravessar a barreira? — perguntou Natane.

Enquanto tentava responder, informações surgiram em minha memória. Elaryan as havia colocado ali durante o sono.

Segundo a história, um homem possuía uma arma capaz de acompanhá-lo depois da morte. Ele tivera um filho com graves limitações, matou a mulher, a criança e a si próprio. Ao reencontrar o filho num dos planetas, matou-o outra vez e interrompeu a passagem que deveria levá-los adiante.

Preso naquela região e ainda com a arma, descobriu que as mortes das crianças liberavam energia. Com o tempo, criou exércitos e mecanismos para controlar os reencontros.

— Essa é a versão de Elaryan — ressaltei. — Não sei o que ela omitiu ou alterou.

— Existe algo que pode ser feito agora — disse a própria Elaryan, surgindo no quarto.

Natane quase caiu.

— Desculpem. Interações sociais frequentes ainda não são meu ponto forte.

Ela explicou que um soro poderia matar alguém e orientar o renascimento para um destino escolhido. Nunca o haviam testado contra a barreira dos planetas das crianças, mas o método oferecia uma possibilidade.

— Você sabe se dará certo — falei. — Disse que conhece o curso dos acontecimentos.

— Sei onde certas sequências terminam. Contar cada resultado muda escolhas, e nem toda mudança me interessa. Posso apenas dizer que existe uma chance de você chegar.

— Envie-me com ela — pediu Leiva.

— Não. O corpo de Emma já atravessou rupturas que o seu não atravessou. Você poderia permanecer ligada à consciência de outra pessoa sem conseguir se materializar.

— Então vamos assistir — propôs Elaryan. — Posso projetar alguns momentos para vocês. Não poderei alterar o que acontecer.

— Salvar as crianças não parece uma preocupação pequena demais para você? — perguntou Natane.

— Talvez as crianças não sejam o único objetivo — respondeu Leiva.

Elaryan sorriu.

— Emma escolheu companheiras observadoras. Vamos antes que façam perguntas melhores.

Tocamos seu braço e chegamos a um laboratório.

— Tudo pronto, doutor Ferne? — perguntou Elaryan.

O homem usava um avental manchado e parecia não dormir havia dias.

— Ficou mais fácil depois que você alterou a gravidade da lua.

Elaryan mudou a aparência dele com um movimento da mão, retirando a sujeira e alinhando os cabelos. Ferne pareceu mais irritado do que agradecido.

Estávamos numa lua próxima de K5, um dos sete planetas onde Carlos e as crianças podiam estar. Ferne explicou que a proximidade ajudaria a ajustar o destino do soro, embora nem Elaryan compreendesse totalmente a barreira.

Sentei-me numa cadeira reclinada.

— Estou pronta.

Ferne aplicou a injeção em meu braço. O líquido gelado avançou por alguns segundos.

Depois, não senti mais nada.

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