O Soro
Contei a Leiva e Natane o que Elaryan havia mostrado. Falei de Carlos, do amor que vivemos na Terra, dos nossos filhos e do acidente em que apenas eu sobrevivi.
— Eu não fazia ideia — disse Natane. — Fui órfã e nunca construí uma relação profunda antes de vocês. Não sei se isso é sorte ou uma falta que eu já nem percebia.
Leiva permanecia calada.
— Você também perdeu alguém? — perguntei.
— Em Erulen, demorei muito para encontrar a pessoa certa. Lá, duas mulheres podiam ter filhos naturalmente. Minha esposa e eu tivemos Ben. Um ano e meio depois, os dois morreram numa guerra regional. Pouco tempo depois, tomei comprimidos para dormir e entrei na piscina.
Leiva quase não conseguia falar.
— Se o que Elaryan mostrou é verdade, Ben pode estar preso como bebê, sem nenhuma das mães.
Eu a abracei. Natane nos envolveu e o choro que Leiva segurava finalmente saiu.
— Como alguém entrou nesses planetas se ninguém consegue atravessar a barreira? — perguntou Natane.
Enquanto tentava responder, informações surgiram em minha memória. Elaryan as havia colocado ali durante o sono.
Segundo a história, um homem possuía uma arma capaz de acompanhá-lo depois da morte. Ele tivera um filho com graves limitações, matou a mulher, a criança e a si próprio. Ao reencontrar o filho num dos planetas, matou-o outra vez e interrompeu a passagem que deveria levá-los adiante.
Preso naquela região e ainda com a arma, descobriu que as mortes das crianças liberavam energia. Com o tempo, criou exércitos e mecanismos para controlar os reencontros.
— Essa é a versão de Elaryan — ressaltei. — Não sei o que ela omitiu ou alterou.
— Existe algo que pode ser feito agora — disse a própria Elaryan, surgindo no quarto.
Natane quase caiu.
— Desculpem. Interações sociais frequentes ainda não são meu ponto forte.
Ela explicou que um soro poderia matar alguém e orientar o renascimento para um destino escolhido. Nunca o haviam testado contra a barreira dos planetas das crianças, mas o método oferecia uma possibilidade.
— Você sabe se dará certo — falei. — Disse que conhece o curso dos acontecimentos.
— Sei onde certas sequências terminam. Contar cada resultado muda escolhas, e nem toda mudança me interessa. Posso apenas dizer que existe uma chance de você chegar.
— Envie-me com ela — pediu Leiva.
— Não. O corpo de Emma já atravessou rupturas que o seu não atravessou. Você poderia permanecer ligada à consciência de outra pessoa sem conseguir se materializar.
— Então vamos assistir — propôs Elaryan. — Posso projetar alguns momentos para vocês. Não poderei alterar o que acontecer.
— Salvar as crianças não parece uma preocupação pequena demais para você? — perguntou Natane.
— Talvez as crianças não sejam o único objetivo — respondeu Leiva.
Elaryan sorriu.
— Emma escolheu companheiras observadoras. Vamos antes que façam perguntas melhores.
Tocamos seu braço e chegamos a um laboratório.
— Tudo pronto, doutor Ferne? — perguntou Elaryan.
O homem usava um avental manchado e parecia não dormir havia dias.
— Ficou mais fácil depois que você alterou a gravidade da lua.
Elaryan mudou a aparência dele com um movimento da mão, retirando a sujeira e alinhando os cabelos. Ferne pareceu mais irritado do que agradecido.
Estávamos numa lua próxima de K5, um dos sete planetas onde Carlos e as crianças podiam estar. Ferne explicou que a proximidade ajudaria a ajustar o destino do soro, embora nem Elaryan compreendesse totalmente a barreira.
Sentei-me numa cadeira reclinada.
— Estou pronta.
Ferne aplicou a injeção em meu braço. O líquido gelado avançou por alguns segundos.
Depois, não senti mais nada.