Um Planeta Recriado
O passeio logo se transformou em trabalho. Krakor pedia que eu avaliasse cada área conforme as necessidades do povo de Néon. Quando deixei de me intimidar com o que já estava pronto, começamos a mudar caminhos, casas, espaços coletivos e cursos de água.
Conservamos de Néon o que amávamos e mudamos o que havia nos aprisionado.
Krakor controlava os elementos com uma facilidade difícil de acompanhar. Recriou o funcionamento das paredes do Castelo e das cascatas que antes dependiam das algas. Quando contei o que elas tinham feito por mim e como as perdera, ele lamentou.
— Muitos animais possuem uma partícula e continuam depois da morte — explicou. — Outros morrem com o corpo. Os casulos protegem parte dos que renascem, mas não são uma regra para toda forma de vida. Por isso uma simbiose nunca deveria ser tratada como brincadeira ou prêmio.
Pensei nos três animais que se desfizeram durante as tentativas em Néon. Eu havia interrompido o processo, mas não sabia se compreendera o risco a tempo.
Krakor se interessou pela quantidade de simbioses recentes e pelas catástrofes que atingiam diferentes planetas. Ele fazia perguntas enquanto alinhava construções com as árvores para aproveitar melhor a luz. Parecia incapaz de observar um problema sem tentar também corrigir uma parede.
Não sabíamos quanto tempo passava. As várias fontes de luz no céu tornavam o anoitecer irregular. Não dormimos. Krakor não precisava e eu descobri que meu corpo exigia muito menos sono desde que deixei a Terra.
Ele também me ensinou técnicas de manipulação. Além da água, consegui movimentar o ar ao meu redor. O fogo não respondeu do mesmo modo.
Krakor contou que vivera muitas vezes e alcançara sua quinta evolução. Ele e onze companheiros acreditaram durante muito tempo que eram os seres mais evoluídos do Universo, até encontrarem Athos no nível seis. Um dos doze os traíra e provavelmente ajudava Poseidon.
Passamos tempo suficiente juntos para que a preocupação se misturasse à curiosidade. Krakor tinha um humor imprevisível. Às vezes fazia uma observação tão séria que eu demorava a perceber a provocação; em outras, ria antes de terminar a própria frase.
Quando paramos diante do Palácio de Água, ele cruzou os braços e examinou o resultado.
— Por enquanto, podemos dizer que seu país está pronto. Podemos interromper o romance de Athos e buscar seu povo. A menos que você tenha uma ideia melhor para fazermos antes.
A última frase soou menos inocente do que ele talvez pretendesse. Minha expressão o fez corrigir-se.
— Eu quis dizer descansar ou conhecer as outras regiões que Athos começou a construir.
Não consegui decidir se ele recuava de uma proposta ou de um mal-entendido. A dúvida despertou em mim uma curiosidade que não pretendia resolver naquele momento.
— Podemos conhecer os outros lugares enquanto procuramos Athos.
Sobrevoamos o território destinado a Néon e entramos num deserto. Depois dele surgiu uma região em tons de rosa, roxo e vermelho. Até as folhas das árvores acompanhavam essas cores.
— Athos usou como referência o Olimpo, onde viveu sua quinta vida — explicou Krakor.
O nome me lembrou a mitologia grega e, inevitavelmente, Poseidon.
As construções cresceram até formarem uma metrópole. Templos e edifícios altos se interligavam acima das ruas, misturando estruturas que eu reconhecia com formas que jamais tinha visto. Athos criara aquilo para receber povos de níveis e necessidades diferentes.
Mais adiante, a luz enfraqueceu.
— Aqui começa a região inspirada em Dracs, onde ele viveu sua terceira vida. Muitos habitantes têm a pele destruída pela radiação solar. A atmosfera deste trecho filtra a parte da luz que os machucaria.
Athos não estava apenas copiando planetas. Tentava corrigir aquilo que neles causava sofrimento. Ainda não sabia se isso era generosidade ou a confiança excessiva de alguém capaz de remodelar o mundo para os outros.
Cruzamos um rio e chegamos ao lugar que parecia ser a casa dele. Árvores de muitas cores sustentavam uma construção suspensa. Esculturas ocupavam o espaço entre elas e uma montanha de gelo se erguia ao fundo.
Silency apareceu à nossa frente.
— Senti vocês se aproximando. Sei que não há mais ninguém no planeta, mas preferi verificar.
Ela cobria apenas parte do corpo com uma superfície rosada semelhante a uma segunda pele. Athos surgiu logo depois com Sussurro. Os três usavam formas diferentes de simbiose.
— Está na hora de trazer os habitantes de Néon — disse Athos.
Despedi-me de Krakor e atravessei o portal com ele. Tudo em Néon permanecia como eu havia deixado. A lava ainda subia. As pessoas ainda corriam.
— Reúnam todos! — gritei. — Athos abrirá uma passagem. Entrem assim que puderem e ajudem quem tiver dificuldade.
Não expliquei que o novo lugar seria perfeito. Disse apenas que era seguro por enquanto e que nós decidiríamos juntos como viver ali.
O planeta se desmanchava depressa demais. Athos abriu o portal antes que todos chegassem e começou a transportar grandes grupos. A cada passagem, mais pessoas desapareciam de Néon e surgiam em Vésper.
Então o portal oscilou.
Athos tentou mantê-lo aberto, mas suas forças diminuíam. Quando chamou meu nome, tive tempo de alcançar Natane e Leiva. Segurei as duas e atravessamos.
O portal se fechou atrás de nós.
Athos caiu. Sussurro e Silency correram para ajudá-lo e transferiram energia para seu corpo. Ele precisava descansar antes de buscar os que ficaram.
Expliquei ao grupo que Néon seria destruído, que parte do povo ainda estava do outro lado e que, enquanto permanecêssemos em Vésper, o tempo não avançaria para eles. A informação trouxe alívio, mas não apagou o medo. Para nós, a espera continuaria existindo.
Leiva e Natane me abraçaram. Depois conduzi o grupo até as novas construções.
As pessoas reconheciam rios, árvores e formas do antigo planeta, mas também percebiam as diferenças. Algumas escolheram casas. Outras se recusaram a entrar enquanto parentes e amigos continuassem em Néon.
— Para quem vivia num inferno, até que acabamos bem — comentou Leiva.
Ela tinha razão apenas em parte. O lugar era bonito, mas metade do nosso povo ainda encarava o fim de um mundo. E aquele lar existia porque pessoas que não nos conheciam decidiram construí-lo antes de perguntar se nós o desejaríamos.