Os Piratas
Enquanto flutuava, vi Athos diante de mim. Não era como alguém chegando pelo horizonte. Por um instante, olhei através dos olhos dele.
Vi meu corpo em Vésper, de pé e quase imóvel. Leiva e Natane chamavam meu nome. Eu respondia a alguns estímulos, mas as palavras não faziam sentido. Athos me observava, tentando encontrar em meus olhos a pessoa que deveria estar ali.
Um portal se abriu sobre o mar vermelho. Uma quantidade de sensações invadiu meu corpo. Era como se pele, respiração e peso retornassem ao mesmo tempo.
— Emma! — gritou Athos ao atravessar.
— Athos! É você?
Ele voou até mim e tentou pousar sobre o líquido. Não afundou.
— Eu sabia que você viria. Não ia me deixar perdida depois que eu morresse.
— Morresse?
— Você viu o raio. Eu não renasci logo depois. Primeiro fiquei presa. Então me tornei alguma coisa grande demais. Era como se eu fosse o Universo. Vi o começo, o fim e coisas que não consigo mais lembrar. Depois uma força me comprimiu e acordei aqui.
Athos me ouviu sem interromper.
— Seu corpo atravessou o portal conosco — explicou. — Você estava em Vésper, mas reagia como se sua consciência não estivesse ligada a ele. Quando olhei nos seus olhos, vi você neste planeta. Abri a passagem e seu corpo foi puxado comigo.
— Então eu morri ou não?
— Eu não sei. O raio atingiu você no momento em que eu fechava o portal e o tempo parava deste lado. Talvez a ligação entre seu corpo e sua partícula cerebral tenha sido interrompida antes que a morte ou o renascimento se completassem. Talvez o que viveu tenha sido uma transição. Também pode ter sido um sonho produzido por um corpo ferido.
— Eu vi rotas que não cabiam nos dois lados do Universo.
Athos se aproximou.
— Quantas?
Tentei recuperar a imagem. Quanto mais procurava, menos conseguia vê-la.
— Não sei. Lembro apenas que eram mais do que você conhece. E vi alguém atravessando entre elas.
— Poseidon?
— Ele também. Mas havia outra pessoa.
Athos não tentou preencher a lacuna com uma resposta. Pela primeira vez desde que eu o conhecera, o desconhecido pareceu deixá-lo mais cauteloso do que entusiasmado.
— Se o que você viveu não foi um delírio, talvez tenha tocado uma estrutura do Universo que nenhum de nós consegue perceber de dentro. Ainda não temos evidência para afirmar mais do que isso.
Olhei ao redor.
— Que planeta é este?
— Lagos. É pouco habitado e muito perigoso. E isso não é água.
Mergulhei os dedos no líquido vermelho.
— Sangue?
Athos confirmou. Contou que os habitantes repetiam uma lenda segundo a qual os corpos de certos mortos não desapareciam, mas tinham suas estruturas espalhadas pelo espaço. O mar seria formado pelo sangue acumulado dessas mortes. Era uma história local, não uma regra comprovada, mas bastou para que a tranquilidade da paisagem se tornasse repulsiva.
— Onde ficam as cidades?
— Existe apenas uma. A entrada fica no fundo do mar.
— Podemos conhecê-la em outro dia. Quero voltar.
Athos tentou abrir um portal. Nada aconteceu. Tentou outra vez e olhou para as próprias mãos.
Um navio enorme emergiu diante de nós. No convés, homens e mulheres vestidos como piratas comemoravam.
— Capturados! — gritou um deles. — E estes parecem valiosos.
O capitão se apresentou como Pronte. Era alto, magro, usava um chapéu pontiagudo, roupas de muitas cores e carregava uma espada curta com duas pontas.
— Vocês ficarão conosco até descobrirmos quanto valem — anunciou. — Não adianta insistir, rapaz alado. Caíram numa armadilha que drena a energia dos recém-chegados antes que percebam.
Athos continuou tentando abrir uma passagem.
— Depois de quase me tornar o Universo, fui capturada por um pirata vestido como palhaço ao lado de um dos seres mais poderosos que conheço. É uma ironia cruel.
Os olhos de Pronte se iluminaram.
— Um dos mais poderosos? Acabou de aumentar o preço do seu amigo. Obrigado, moça bonita.
Ele lançou um gás amarelo. Apaguei antes de conseguir responder.
Acordei presa a um tronco por algemas transparentes nos pulsos e tornozelos. Estava fraca demais para permanecer em pé sem o apoio. Athos e muitos outros prisioneiros estavam presos ao meu lado.
Pronte os oferecia como escravos. Inventava uma história diferente para cada pessoa. Quando chegou a Athos, repetiu minhas palavras.
— Segundo a companheira, este é um dos homens mais poderosos do Universo.
Um possível comprador riu.
— Você já contou histórias melhores, Pronte. Um homem poderoso, preso desse jeito por você?
Athos ainda estava de olhos fechados.
— Talvez seja melhor confiar um pouco mais no vendedor — disse. — Afinal, vocês já aceitaram negociar com um pirata.
As gargalhadas começaram. Athos rompeu as algemas e o tronco antes que terminassem.
Ele saltou e descobriu que estávamos dentro da cidade submersa. A água era tão fácil de respirar e atravessar que eu a confundira com ar. Athos lançou descargas pelas travas, soltou os prisioneiros e fechou os piratas e compradores nas mesmas estruturas.
Uma corrente me levou até ele. Athos abriu um portal e atravessamos.