As Gigantes e as Mileniuns
Com minha fúria, explodi para longe todo o líquido à minha volta. Não sei se foi instinto, Namos, desespero ou a soma do que eu ainda não entendia em mim. A água se abriu, empurrando paredes, algas e corpos para todos os lados. O impulso me lançou para o alto e depois para longe do Castelo.
Caí em algum lugar que não reconhecia. Até então, Neon costumava ser brilhante, colorido, cheio de reflexos e águas exibicionistas. Ali, os dois sóis mal apareciam, quase alinhados ao horizonte em direções opostas. Aos poucos, meus olhos distinguiram construções enormes em ruínas, blocos quebrados, arcos partidos, torres sem topo e corredores de pedra invadidos por plantas escuras.
Grandes sombras se moviam ao redor. Logo vieram passos pesados, ritmados, profundos. Minha imaginação escolheu dinossauros, porque a mente humana gosta do pior catálogo disponível quando sente medo. O que havia acontecido com Leiva ainda me preocupava mais. Eu continuava em simbiose com Namos, e ele me fez entender uma coisa antes que eu aceitasse: nós havíamos morrido.
Fui agarrada por uma mão gigantesca. O mundo subiu de uma vez quando ela me ergueu até seu rosto, e só então percebi a escala daquela mulher. Tinha pele marcada por cicatrizes e olhos atentos que me estudavam. Ao redor havia pelo menos outras seis, todas enormes e silenciosas.
— Você é a prometida? — perguntou a gigante, com uma voz forte, grave, digna de alguém que poderia conversar com tempestades sem levantar o tom. — A Salvadora deste mundo?
— Olha, me disseram que sim — respondi, sem muita energia para cerimônias, apesar de estar sendo segurada como uma boneca. — Mas eu não sei mais nem em que mundo estou. Aparentemente morri, então minha certeza está um pouco comprometida. Ainda estamos em Neon?
— Sim, você está em Neon — respondeu a gigante, levando-me com cuidado até o topo de uma construção de pedras que parecia uma torre partida. — Recuperou-se bem para alguém que morreu aqui. Vimos o que fez no lago e como saltou para fora. Estou há quinhentos anos neste planeta e nunca vi alguém fazer isso, nem mesmo a Rainha usando as algas.
Ela me colocou sobre a pedra com uma delicadeza surpreendente. Do alto, consegui ver melhor as ruínas, a região escurecida e as outras gigantes reunidas como guardiãs de uma cidade esquecida.
— Meu nome é Creteas — continuou. — Somos as Gigantes, como você deve ter percebido. Refugiamo-nos aqui desde a chegada da Rainha, esperando a Salvadora Prometida. Nunca confiamos nela e jamais quisemos acabar como as Mileniuns.
Namos sabia do que ela falava, e as lembranças dele abriram espaço dentro da minha cabeça. As Mileniuns viviam em Neon havia mais de mil anos. Antes de Raquel, haviam transformado aquele inferno aquático em um planeta de recuperação, onde as condenadas se ajudavam a atravessar uma eternidade menos cruel. Tudo mudou quando uma mulher que elas consideraram Deusa surgiu trazendo a profecia do caos e da Salvadora. A crença dividiu o povo, orientou escolhas e destruiu certezas. As Mileniuns exilaram-se ao norte, na parte congelada do planeta.
— Nossa vida nunca foi fácil — disse Creteas, olhando para as ruínas como quem também olhava para séculos. — Descobrir sozinhas o funcionamento deste planeta foi terrível. Talvez por isso, durante séculos, apenas nós, gigantes, viemos para cá. Talvez fôssemos mais preparadas para sobreviver ao peso bruto de Neon. Quando outros povos começaram a chegar, sereias, guardiãs, guerreiras, mulheres que se uniam e criavam alguma identidade entre si, ficou um pouco mais fácil para elas, porque já estávamos aqui para explicar alguma coisa.
As outras gigantes escutavam em silêncio. Algumas tinham armas enormes apoiadas nos ombros, outras apenas cruzavam os braços, mas todas olhavam para mim com uma expectativa que fazia minha pele pesar.
— Talvez os Gigantes, como povo, tenham sido extintos em qualquer planeta — continuou Creteas. — Nunca mais apareceu nenhuma como nós. Então a tal Rainha surgiu, e percebemos que ela não era quem esperávamos. Não confiamos nela. Também não participamos de seus jogos.
— Creteas, meu nome é Emma — respondi, tentando organizar o que podia em meio ao cansaço, à morte recente e à sensação de estar virando símbolo de povos que eu mal conhecia. — Sua história faz muita coisa ganhar sentido. Também desperta lembranças em Namos, meu companheiro. Ele faz parte de mim. Estamos em simbiose agora.
— Eu sabia! — exclamou Creteas, aproximando o rosto com um entusiasmo que quase me derrubou da pedra. — Tinha certeza de que você vestia uma couraça.
— Ela deve ser mesmo a Salvadora, Creteas — disse outra gigante, com uma voz quase sussurrada, delicada demais para o tamanho dela.
— Sim, Timas — respondeu Creteas, animada. — Se eu disse que Raquel não era Rainha nem Salvadora coisa nenhuma, agora digo que essa menina, Emma, é quem esperávamos.
Ela me chacoalhou sem perceber a própria força, e todas as gigantes urraram de alegria. O som atravessou as ruínas e fez pequenas pedras caírem de uma parede próxima. A felicidade delas era bonita, mas também perigosa. Cada grito parecia me amarrar mais à ideia de que eu deveria saber o que fazer.
— Creteas, imagino o que essa constatação significa para vocês — disse, tentando cortar a empolgação sem destruir a esperança. — Eu mesma não estou tão confiante quanto vocês parecem estar. Preciso voltar ao Castelo. Não sei como, não sei quanto tempo passou desde que morri, e não sei o que aconteceu com Leiva e as outras.
As gigantes mudaram de postura imediatamente. A alegria virou prontidão, e todas pareceram dispostas a colocar a própria vida entre mim e qualquer caminho necessário.
— Pudemos ouvir o grito da Rainha — disse Creteas. — Não faz nem uma hora. Estamos distantes, ainda assim este planeta é pequeno, e sons expansivos viajam longe, principalmente quando você está na torre mais alta daqui.
— O planeta inteiro escutou — disse uma mulher que surgia entre as pernas das gigantes, seguida por outras de cabelos brancos e passos tranquilos.
Todas tinham cabelos brancos. A primeira usava os fios curtos, diferente das demais, e a idade não diminuía sua firmeza. Eram muito diferentes de Krata quando me acordou pela primeira vez naquele mundo.
Creteas ficou imóvel, como se tivesse visto um fantasma, e pela primeira vez aquela imensidão pareceu pequena diante de alguém.
— Da... Darca? — balbuciou a gigante, curvando-se sem perceber. — É você? A mais antiga das Mileniuns ainda viva? Vocês saíram do exílio?
Creteas inclinou a cabeça quando Darca passou. A senhora caminhou sem pressa entre as gigantes.
— Sim, Creteas, sou eu — respondeu. — Já era hora, não é mesmo? Vamos. O que estão esperando? Todas devem chegar ao Castelo. Vamos levar a Salvadora ao seu devido lugar, destruir de uma vez por todas aquela impostora e trazer paz definitiva para este inferno.
Todas gritaram juntas, prontas para a guerra. Eu sentia responsabilidade pelas guerreiras que me receberam quando eu era apenas uma recém-chegada assustada. Agora, gigantes e milenares também me olhavam depois de séculos de espera. A palavra Salvadora se espalhou pela multidão até eu parar de corrigi-las.
Seguimos caminho. Eu ia sobre os ombros de uma gigante, com Darca à frente ou logo abaixo, e mais mulheres se juntavam à marcha a cada trecho. Vinham de abrigos, ruínas, canais, bosques aquáticos, encostas e margens distantes. Em pouco tempo, pareciam milhares. Algumas carregavam armas, outras apenas as próprias mãos; algumas choravam, outras riam. Eu estava no alto, visível demais, e compreendi como a esperança coletiva podia pressionar tanto quanto um exército inimigo.
A confiança crescia ao redor de mim, alimentada pela certeza agressiva de Namos e pelo exército que marchava atrás de nós. Precisei me lembrar de que Leiva e as guerreiras ainda podiam estar nas mãos da Rainha, de que eu não tinha um plano e de que Raquel já havia transformado uma vantagem anterior em armadilha.
E se as guerreiras tivessem virado reféns? Eu já sabia que Neon era criativo em manter pessoas vivas para sofrer. Se Raquel tivesse dominado todas e estivesse apenas esperando meu retorno? Também podia ter acontecido o inverso. Leiva talvez tivesse, no último ataque, conseguido imobilizar Raquel, talvez até matá-la, e quando chegássemos tudo estaria resolvido. Afastei a possibilidade antes que ela me fizesse baixar a guarda.
Quando chegamos à entrada do Castelo, a imagem devia ser aterradora para qualquer pessoa que observasse de uma torre. As gigantes estavam à frente, enormes, pesadas, acompanhadas pelas Mileniuns de cabelos brancos, que pareciam feiticeiras, e por uma multidão de clãs reunidos. Só que o Castelo não tinha exército visível. Não havia ninguém nas torres de água para testemunhar aquela cena.
Dessa vez, abrir a entrada não exigiu esforço. Creteas me colocou no chão, e eu apenas pensei na ordem. A água se abriu rapidamente. Ouvi mulheres dizendo que eu controlava as algas; outras nem tinham visto alga alguma. A expectativa delas aumentou e me lembrou que, se eu falhasse, levaria um povo inteiro comigo.
As gigantes não conseguiriam atravessar os corredores estreitos do Castelo. O tamanho delas, que momentos antes parecia nossa maior força, virou limite. Sem dizer nada, comecei a andar. As Mileniuns me seguiram. A confiança de ter um exército diminuiu depressa. No fim, aquele povo era mais alguém a ser protegido do que força a ser lançada em uma guerra. Eu sabia disso desde o início, mas vê-las ficando para trás, expostas do lado de fora, tornou a consciência muito mais concreta.
Dentro do Castelo, a água das paredes estava parada. Subimos pelos corredores até os aposentos da Rainha, o local da nossa batalha. Tudo permanecia como havia ficado quando morri: as marcas no chão, a água derramada, os danos nas paredes. Só não havia ninguém.
Um barulho forte de movimento de águas surgiu de repente, como uma represa se abrindo. Do lado de fora, os gritos das mulheres nos fizeram correr. Eu avancei em sentido contrário às Mileniuns por um instante e logo percebi o erro. Não deveria voltar à entrada. Precisava subir para a torre central, o caminho que elas já haviam tomado.
Ao redor da torre havia uma sacada, e saímos para ela. Do topo do Castelo fluía uma queda d’água enorme, direcionada ao povo de Neon reunido lá embaixo. Parecia uma cachoeira gigantesca, larga o bastante para atingir toda a multidão. Ali estava, ao que tudo indicava, a população do planeta reunida para morrer.
— Esse era o plano dela, então? — perguntou uma das Mileniuns, olhando para a líder enquanto a cachoeira avançava sobre a multidão. — E nós caímos?
— Acho que sim, era o plano — respondeu Darca, sem tirar os olhos da água. — Se nós caímos? Eu não sei.
Ela se virou para mim com a confiança de quem esperara muito tempo por aquela resposta.
— Caímos, Salvadora? — perguntou Darca, e a serenidade dela tornava a pergunta mais pesada do que qualquer desespero naquele alto do Castelo.
Corri por entre elas e saltei no meio das águas. As algas controladas pela Rainha estavam ali. Vieram contra mim imediatamente, queimando, mordendo, descarregando choques que atravessaram minha pele e a de Namos. A dor era intensa, mas algo havia mudado. Minha chegada desviou o caminho das algas e fez a água praticamente parar no ar, suspensa a poucos instantes de atingir todo o povo reunido abaixo. Tudo pareceu entrar em câmera lenta.
Morrer e voltar havia diminuído meu medo da dor. Em vez de dominar apenas a água que tocava meu corpo, procurei percebê-la por toda Neon: rios, quedas, mares, canais, vapor e profundezas. Senti cada alga viva, talvez milhões, e as chamei com o pensamento.
Em pouco tempo, enormes turbilhões vindos do mar se formaram, subindo ao céu como colunas vivas e despencando na minha direção. Dentro deles vinha uma quantidade sem fim de algas naturais, respondendo ao chamado. Elas destruíram as controladas pela Rainha, e algumas das modificadas mudaram de atitude, como se recuperassem algo da própria vontade. Por um instante, senti que a força do planeta inteiro vinha em minha defesa.
Então um grito de fúria se fez mais alto do que qualquer som poderia ser, atravessando a água parada e a multidão reunida abaixo.
Não parecia propagado por ondas sonoras. Surgiu dentro da minha cabeça e, pelo modo como vi as mulheres reagirem lá embaixo, dentro da cabeça de todas. As algas também mudaram. Eu sentia que lutavam para continuar me obedecendo, mas outras ordens as rasgavam por dentro. Havia dor nelas, confusão, uma pressão que vinha de longe. O movimento da água voltou a se direcionar para as mulheres, e comecei uma queda de braço mental contra uma força enorme, tentando ser mais forte do que aquilo.
Subi por dentro dos turbilhões, controlando parte das algas enquanto outro poder disputava cada corrente. De cima, enxergava melhor as mulheres reunidas: algumas se abraçavam, outras protegiam a cabeça, outras apenas aguardavam. Então avistei, na outra ponta do Castelo, Raquel e as guerreiras.
Estavam todas ali. As guerreiras estavam amarradas, e Leiva presa a uma lança praticamente fincada em seu pescoço. Não sei se ela sobrevivera à explosão, se morrera e renascera ali mesmo, ou se Neon apenas encontrara mais uma maneira de manter alguém no limite. A Rainha parecia vencida, de joelhos. Então entendi que não era ela quem disputava comigo. Aquele grito tinha uma voz masculina. Não havia homens em Neon. O poder não vinha de perto. Como poderia existir alguém tão poderoso a ponto de interferir naquele planeta de fora?
As algas passaram a se direcionar também para as Mileniuns e para as guerreiras, voltando-se ao Castelo. Foi quando percebi Leiva olhando diretamente para mim. Sua boca mal podia se mover, e a lança ameaçava cortar qualquer movimento maior. Então me lembrei da promessa que havia feito a ela.
Leiva havia me pedido uma saída caso o plano falhasse. Para ela, a vitória significava escapar de Neon, ainda que por outra morte. Meu rosto deve ter mostrado o horror dessa compreensão, porque ela percebeu que eu havia entendido. O pequeno movimento de confirmação fez o sangue jorrar mais forte ao redor da lança.
Quem quer que estivesse por trás daquilo me obrigava a escolher entre salvar algumas e perder todas. Leiva havia falado pelas guerreiras, mas ninguém me dera o direito de decidir por milhares de mulheres. Olhei para as que tinham marchado até o Castelo. Elas conheciam a promessa ligada à Salvadora, conheciam a morte como possível passagem e haviam vindo por escolha própria, mas isso não transformava a decisão em algo simples. A água já descia sobre elas. Não havia tempo para pedir consentimento a cada uma. Ordenei que as algas tocassem todas antes que a força vinda de longe retomasse o controle.
Todo o vale do Castelo se tornou um oceano. Cada mulher foi tocada por uma alga. Algumas compreenderam e se entregaram; outras recuaram antes que o líquido as alcançasse. Não houve dor. As gigantes se ajoelharam, pesadas demais para flutuar com facilidade. As Mileniuns se atiraram nos vórtices. Guerreiras, guardiãs, clãs, mulheres antigas e recém-chegadas desapareceram aos poucos. Por fim, a própria Raquel foi tocada.
A água começou a escoar, retornando ao seu fluxo natural, refazendo rios e caminhos em direção aos pontos de origem. O barulho diminuiu. A multidão desapareceu. O Castelo voltou a parecer imenso e inútil. Eu me vi ali, sozinha.
Algumas algas me cercaram enquanto eu ainda estava parcialmente submersa. Reconheci as que haviam me transformado de uma garota assustada em Salvadora. A voz veio em minha mente, quase triste.
— Não podemos matá-la, Salvadora — disseram. — Você cumpriu seu destino. Agora não sabemos o que será do seu futuro.
— Vocês me chamaram assim tantas vezes que eu já não sei se cumpri um destino ou se fiz o que todas esperavam que eu fizesse — respondi. — De qualquer forma, continuar tendo futuro parece uma recompensa.
Eu queria acreditar que havia libertado o povo de um planeta. Também sabia que tinha escolhido a morte por todas elas. Fiquei sozinha em um mundo de água que agora me obedecia, sem ninguém que pudesse dizer se eu as salvara ou apenas cumprira a expectativa colocada sobre mim.