Um Inferno Sempre É Um Inferno?
A felicidade parecia duradoura, e isso me assustava. Minha experiência dizia que nenhuma paz era definitiva. Em cada almoço coletivo, em cada casa terminada e em cada demonstração de afeto, eu imaginava o que aconteceria quando Athos voltasse.
Guerra, mortes, caos.
Eu tentava aproveitar o tempo sem conseguir esquecer que ele podia acabar. Então Ninfar, nossa chefe da guarda, entrou no salão principal do Castelo enquanto preparávamos mais um almoço.
— Majestade, precisamos de você. É urgente.
— Outra epidemia de gatos fofinhos? — perguntou Natane.
Os animais continuavam chegando a Néon e, poucos dias antes, dezenas de filhotes haviam surgido quase ao mesmo tempo.
Ninfar não sorriu.
— Uma fenda se abriu numa praça e lançou lava para o alto. Três pessoas morreram. Evacuamos o local, mas o jato continua crescendo.
Ela disse os nomes antes de nos conduzir para fora. Eu conhecia duas das vítimas. A terceira tinha vindo de Erulen.
Chamei Namos e formei a couraça enquanto corria. Na praça, puxei água em quantidade suficiente para cobrir a fenda. O líquido se transformou em vapor antes de tocar o chão. Tentei controlar a lava, consegui desviar parte dela, mas não interromper o fluxo.
Explosões soaram ao longe. Outros gêiseres surgiram e destruíram construções. Um deles se erguia muito acima das árvores.
Pensei nas três mortes e em todas as casas que incentivamos as pessoas a construir. Néon não seria destruído por uma guerra. O próprio planeta parecia rejeitar o futuro que havíamos criado.
Um portal se abriu à minha frente. Athos surgiu acompanhado de Silency e Sussurro.
— Emma, venha conosco. Agora.
— Eu não vou abandonar meu povo.
— Você não vai abandonar ninguém. Se ficar, não conseguiremos salvar as outras.
Silency e Sussurro me puxaram antes que eu pudesse discutir. Atravessei o portal e cheguei a um deserto de terra escura sob um céu iluminado por muitas estrelas. Eram pontos de luz maiores do que qualquer estrela vista da Terra, mas menores que os sóis que eu conhecia. Não havia uma única direção para o dia.
— Estamos em Vésper — explicou Athos. — É o planeta mais distante do Big Bang a que consegui chegar. Também é o maior que conheço. Fica numa região que eu só descobri há pouco tempo.
— Quanto tempo estamos perdendo aqui?
— Nenhum, em Néon. Quando atravessamos, o tempo de lá parou. Se voltarmos pelo mesmo caminho, chegaremos ao instante em que saímos.
Olhei para Silency e Sussurro, procurando nelas alguma confirmação. As duas pareciam tão acostumadas ao impossível quanto desconfiadas daquela descoberta.
— Você consegue salvar Néon?
— Não. O planeta será destruído.
A tranquilidade com que ele respondeu me revoltou.
— Então você mentiu. Disse que eu salvaria meu povo.
— Eu disse que ajudaríamos a salvá-lo. Não prometi salvar o planeta.
Athos explicou que havia preparado uma região semelhante a Néon, mas ainda incompleta. A água era limitada, o ar precisava de alterações e não existiam plantações suficientes. Ele buscaria ajuda antes de transportar todos.
— Você construiu outro lugar e decidiu que devemos viver nele sem sequer nos perguntar? — questionei.
— Decidi criar uma possibilidade antes que Néon acabasse. A escolha de viver aqui e a forma como seu povo vai se organizar continuam sendo de vocês. Mas, para que essa escolha exista, precisamos tirá-los de lá.
Eu não tinha como discordar da urgência. Ainda assim, a ideia de outro homem poderoso oferecendo um destino pronto não me pareceu tão simples quanto ele esperava.
— Por que me trouxe antes de buscar os outros aliados?
— Porque, para eles, o tempo continuará passando quando eu chegar. Se deixasse você em Néon, talvez o planeta acabasse antes que eu voltasse. Aqui, posso partir e retornar sem que você perceba o intervalo.
— E se outra pessoa chegar enquanto você estiver fora?
Athos olhou para o deserto.
— Essa é uma das perguntas que ainda não sei responder. Se alguém alcançar Vésper por outro caminho, talvez consiga alterar a relação temporal ou impedir meu retorno. Não quero que ninguém fique aqui sem proteção.
Havia alguém capaz de oferecê-la. Athos abriu outro portal e nos levou a uma região muito parecida com Néon, embora mais verde e iluminada por um ar diferente. Um homem de cabelos compridos, levemente grisalhos, assustou-se com nossa chegada. Ele também usava uma couraça de simbiose.
— Athos, você acabou de sair daqui. Como já voltou?
— Então os testes continuam se confirmando. Krakor, esta é Emma. Emma, este é Krakor.
Athos me apresentou como a salvadora profetizada de Néon. Ao repetir a palavra, perdeu por um instante a segurança.
— Ainda quero entender por que tantas profecias se espalharam pelo Universo.
— Você quer entender isso, seus poderes, suas visões e a salvação prometida aos cavaleiros do Éden — disse Silency. — Também quer encontrar Poseidon e impedir o fim do Universo. Sua lista não diminui só porque o tempo parou em outro lugar.
Athos aceitou a provocação com um sorriso cansado.
— Por isso mesmo vamos descansar antes de continuar. Krakor pode mostrar a Emma o que construímos e ouvir o que o povo de Néon precisa.
Ele partiu com Silency e Sussurro. Fiquei diante do homem que ajudaria a terminar um país para pessoas que nunca havia conhecido.
— Quer fazer um passeio? — perguntou Krakor, erguendo-se no ar.
Comecei a flutuar ao lado dele. Néon estava parado à beira da destruição, mas ali eu tinha tempo para decidir como seria o lugar que talvez o substituísse.