Uma Visita Inesperada
Depois que Athos partiu, o tempo continuou avançando em Vésper. Concluímos que ele já deveria ter atravessado novamente para algum ponto do outro lado. Não tínhamos como saber onde estava nem quanto havia vivido desde que saiu.
Retomamos a rotina possível. Ao atravessarmos as árvores no caminho do Palácio, o céu escureceu. As estrelas que iluminavam Vésper quase desapareceram, deixando apenas alguns pontos na penumbra.
— Olá, Emma. É um prazer finalmente conhecê-la — disse uma voz feminina.
Toquei o braço de Leiva para que ela e Natane ficassem preparadas.
— Poderei dizer o mesmo quando você se apresentar.
Pequenas luzes surgiram diante de nós. No centro delas apareceu uma mulher de pele morena e luminosa, olhos cor de caramelo e corpo esguio. Parecia delicada até sorrir. Havia segurança demais naquele sorriso.
— Já tive muitos nomes. Agora voltei a usar o primeiro: Elaryan.
O nome não significava nada para mim. A maneira como ela o disse indicava que deveria significar.
— Parte do que chamam de sua profecia passou por mim — continuou. — A ideia já existia. Eu a reforcei porque precisava que certas pessoas acreditassem nela e agissem de acordo. Isso não significa que desejei cada sofrimento que colocaram no seu caminho.
Antes que eu respondesse, Elaryan estalou os dedos. Estávamos sentadas à mesa do Castelo de Água.
— Teletransporte sem portal — observou. — Imagino que seja essa a primeira pergunta.
Recipientes vieram até suas mãos. Ela esmagou folhas, aqueceu água numa chaleira e distribuiu a bebida em quatro copos.
— Existe uma mistura muito melhor, mas exige plantas de planetas diferentes. Esta é a melhor que consigo preparar apenas com o que há em Vésper.
O cheiro era bom. Nenhuma de nós bebeu.
— Não preciso conquistar a confiança de vocês — disse Elaryan, respondendo ao meu pensamento. — Só prefiro conversar com alguma educação. A existência já desperdiça tempo demais com violência sem imaginação.
— O que você quer?
— Avisar que você terá importância em acontecimentos maiores do que Néon. Não serão dragões, deuses ou lobos que decidirão tudo. Em certo momento, uma alga poderá pesar mais que todos eles.
Ela tomou um gole.
— Para chegar a esse momento, preciso matar você.
Leiva e Natane se levantaram, derrubando as cadeiras. Eu permaneci sentada. A tranquilidade de Elaryan deixava claro que ela esperava cada reação.
As duas avançaram com as lanças. Elaryan nem virou o rosto. Arrancou as armas das mãos delas e lançou seus corpos para lados opostos da sala.
— Leve apenas a mim — pedi. — Deixe o povo fora disso.
— Nenhum povo é seu, Rainha. Sei que chama de proteção, mas ninguém pertence a ninguém.
— Então não os use para me atingir.
Elaryan se ergueu. As paredes de água do Castelo perderam a forma e foram arremessadas para fora. Ao redor, as pessoas corriam.
— Não vim apenas atingir você. Vésper também não durará para sempre. Hoje, porém, basta que você acredite que posso destruí-lo.
Ela flutuou até o céu. A luz retornou, acompanhada de um calor crescente. Uma camada de lava se formou na atmosfera e se espalhou acima do país. As pessoas começaram a cair. Os corpos adaptados à água e ao gelo não suportavam aquela temperatura.
Puxei rios e correntes para o alto. A água se transformava em vapor antes de alcançar a lava.
Tentei controlar o próprio fogo. No início, consegui apenas atrasar sua descida. Elaryan observava sem esforço aparente.
Percebi que não precisava vencer o poder dela. Precisava escolher a forma da minha morte.
Subi impulsionada pela água e atravessei a altura em que Elaryan flutuava. Ela não me impediu. Sorriu, como se eu finalmente tivesse encontrado a ação que esperava.
Concentrei-me na lava. Em vez de afastá-la, reduzi o espaço entre suas partículas. A camada parou de crescer e começou a se comprimir.
Puxei tudo para mim.
A lava entrou pela minha boca e atravessou meu corpo antes que eu sentisse dor. Por um instante, fui água, fogo e pressão tentando ocupar o mesmo lugar.
A explosão apagou o céu.
Eu desapareci com ela.