Vinte e Cinco Anos
Não marchamos para casa como vencedores.
Ficamos em Paradise até que os feridos fossem atendidos, os desaparecidos registrados e as cidades pudessem escolher representantes. Os combatentes alados que romperam com Gabriel participaram da reconstrução. Os que insistiram nas expulsões foram contidos e julgados pelas comunidades atingidas.
Adwig recusou o governo do planeta. O palácio continuou como abrigo, agora incapaz de sugerir desejos ou alterar decisões. As saídas permaneciam visíveis, e nenhuma pessoa era levada para lá sem concordar.
Quando enfim retornamos ao castelo das Águas, não havia mais coroação à nossa espera. As Rainhas convocaram representantes de Finiti, Vésper, Atlantis e dos demais povos reunidos. A Varunastra continuava fundida às outras armas que Elaryan levara. O conselho registrou que, se fosse recuperada, voltaria à guarda coletiva, com regras para seu uso.
Aceitei deixar de ser chamada de Prometida.
No início, a ausência do título me assustou. Eu passara tanto tempo reagindo ao que esperavam de mim que precisei descobrir o que faria sem uma profecia indicando a direção.
Continuei ajudando.
Percorremos os registros de Vésper. Alguns desaparecidos foram encontrados em outros planetas. Para os que não voltaram, construímos um arquivo com nomes, relatos e as últimas informações conhecidas. Não os transformamos em número nem declaramos uma morte que não podíamos confirmar.
Leiva criou Ben perto de nós. A falta da esposa permaneceu, misturada à alegria de acompanhar o crescimento do filho. Anúbis visitava os dois e continuava procurando Seth, sem saber se desejava reencontro, confronto ou apenas uma resposta. A busca não dominou sua vida.
Na primeira vez em que Raquel aceitou receber Poseidon, pediu que eu permanecesse perto da porta. Ele chegou sozinho e esperou que ela indicasse onde poderia se sentar.
— Quero saber sobre minha mãe — disse Raquel. — Não sobre o que você sofreu depois. Sobre ela.
Poseidon começou pelo período em que os dois foram perseguidos. Raquel o interrompeu.
— Isso ainda é sobre você. Conte alguma coisa de que ela gostava.
Ele demorou a responder. Quando conseguiu, a voz perdeu a segurança com que costumava narrar guerras e perseguições. Raquel ouviu por menos de meia hora. Depois pediu que ele partisse.
— Fiz alguma coisa errada? — perguntou Poseidon.
— Não. Por hoje, eu queria saber somente isso.
Meses depois, ela o chamou novamente. Dessa vez, não pediu que eu ficasse.
Em outras ocasiões, recusou-se a recebê-lo. Poseidon aprendeu a esperar.
Carlos e eu tivemos dias tranquilos, dias difíceis e discussões que não terminaram com o fim do mundo. Natane permaneceu conosco. O que existia entre nós nunca coube bem nos modelos que eu conhecera na Terra, mas aprendemos a perguntar em vez de presumir. Nossos filhos cresceram sabendo que eram amados, não peças de uma história sobre salvação.
Carl não renasceu depois de entregar a própria energia a Adwig. Carlos havia convivido pouco com o homem que admirara na infância, mas ajudou a registrar o que sabia da vida dele, da lembrança dos campos de futebol aos resgates em Paradise. Nas rotas de resgate, seu nome passou a identificar o treinamento de quem usava velocidade para retirar pessoas do perigo.
Durante anos, viajei pelas comunidades da água. Ajudamos os antigos crustáceos a construir formas de convivência que não repetissem violência como costume. Os gigantes adaptaram espaços em Paradise. Finiti não morreu como conceito: tornou-se um modo de criar laços entre povos que não precisavam apagar suas diferenças.
Em Varuna, o Marul que conhecêramos na câmara interrompia as reuniões com um som grave sempre que a água começava a se carregar de eletricidade. Darca dizia que ele aprendera antes deles a diferença entre defesa e ataque.
Também visitamos Adwig. O palácio ainda produzia excessos quando alguém os pedia, e algumas viagens acabaram em festas que levaram dias. Quando queríamos partir, as portas continuavam no lugar.
O prazo dado por Trovar não ficou esquecido, mas deixou de ocupar todas as manhãs. Contávamos os anos em aniversários, viagens, reconciliações e perdas. Quando restavam poucos meses, reunimos as pessoas e explicamos o que sabíamos. Ninguém prometeu que haveria um depois.
Trovar retornou na data combinada.
Disse que poderia testar a compatibilidade de cada pessoa com a estrutura que carregava. Ser compatível não obrigaria ninguém a partir. Permanecer também não seria tratado como desistência.
O resultado apontou doze pessoas. Eu era uma delas.
Minha primeira reação foi procurar Carlos. A segunda foi negar.
Passei três dias com a família antes de decidir. Não queria partir apenas porque outra força do Universo havia me selecionado. Também não queria recusar por medo de parecer que os abandonaria.
Ao final do terceiro dia, compreendi que desejava atravessar. Não para cumprir a função da Prometida nem para garantir que todos renascessem da forma que eu preferia. Eu queria levar comigo a lembrança das escolhas que realmente haviam sido nossas.
Trovar esperou minha resposta.
— Eu vou — disse. — Mas só depois de me despedir.