As Crianças
— Esperem aqui. Se eu não voltar em trinta segundos, vocês sabem o que fazer.
Carlos se despediu dos filhos com um olhar que os três já conheciam. Eric e Clara seguravam armas. Outras crianças esperavam atrás deles.
Carlos abriu a porta do bunker e começou a troca de tiros. Eric tornou a fechá-la. Os sons do outro lado não permitiam saber quem vencia.
Os dois irmãos iniciaram a contagem. Quando chegaram aos últimos segundos, apontaram as armas para a própria cabeça. Abriram a porta no zero.
Carlos estava ferido, mas todos os soldados haviam caído. Abraçou os filhos. As outras crianças se juntaram aos três.
— Ganhamos mais duas noites de sono — disse, chorando.
— Quando isso vai acabar? — perguntou Clara.
— Vamos encontrar sua mãe. Depois disso, vamos descobrir como sair daqui.
Essa esperança os mantinha em movimento.
O bunker ficaria seguro até a próxima troca de soldados. Mesmo assim, Carlos evitava dormir. A única regra em que confiava era a dos trinta segundos: se um dos três morresse, os outros precisavam morrer antes que o intervalo terminasse. Só assim despertavam no mesmo planeta.
Eles já haviam repetido o processo quatro vezes.
Carlos não tratava aquilo como coragem. Era uma violência imposta aos filhos, e cada repetição deixava marcas que não desapareciam com o novo corpo. O medo de perdê-los, porém, era maior do que o medo de repetir a morte.
Aprendera a regra com as crianças que encontrara. Muitas viviam sozinhas. Algumas ainda esperavam pelos pais; outras os reencontravam e tornavam a perdê-los. Havia planetas onde adultos eram escravizados, outros onde crianças serviam de ameaça ou fonte de energia.
Parecia existir uma lógica original: crianças que morriam antes de desenvolver uma vida própria esperavam pelos responsáveis com quem tinham formado vínculo. Quando o reencontro acontecia, a família deveria seguir para outro destino.
Alguém havia interferido nesse caminho.
Os pais surgiam longe dos filhos. Reencontros deixavam de produzir a saída. Soldados perseguiam crianças e adultos sem uniforme. Quando pai e filho morriam com mais de trinta segundos de diferença, voltavam a ser separados.
Carlos reunia fatos, não respostas. Enquanto não entendesse o sistema, manteria os filhos perto.
— Senhor Carlos, durma um pouco — pediu Luke, o mais velho do grupo. — Eu já descansei. Precisamos do senhor acordado quando sairmos.
O garoto tinha razão. Carlos o deixou de guarda, abraçou Eric e Clara e adormeceu.
Ao despertar, ouviu crianças correndo pelo bunker. A animação era rara. Tomar uma base significava poder brincar sem vigiar cada porta.
Carlos fora militar e trabalhara como segurança particular. Estudava a quantidade de soldados, os horários e as rotas. As equipes repetiam os mesmos procedimentos e não aprendiam com as invasões anteriores. Os bunkers também tinham alimento suficiente para sustentar o grupo por alguns dias.
— Pai, joga bola com a gente? — pediu Eric.
Quase ninguém conhecia futebol, mas todos haviam aprendido. Qualquer objeto podia virar bola; duas mochilas bastavam para formar um gol.
Carlos passou por uma criança, fingiu driblar outra e foi agarrado por um menino. Ergueu-o no ar. Os demais avançaram e derrubaram os dois. Por alguns minutos, o bunker deixou de parecer parte de uma guerra.
Philip fora a última criança a reencontrar um dos pais e desaparecer. Carlos se alegrava a cada reunião, mas também sentia a ausência de quem partia.
Depois da segunda noite, organizaram as mochilas, apagaram sinais de ocupação e saíram. O próximo bunker ficava longe. Caminharam por uma trilha entre árvores, parando para beber água e dividir os alimentos enlatados.
— Pai, Chris disse que viemos para cá porque fomos crianças más — contou Clara, chorando e agarrada à perna dele.
Carlos se abaixou.
— Você não fez nada para merecer isto. Nenhuma dessas crianças fez. Não deixe ninguém transformar o sofrimento de vocês em culpa.
Ela o abraçou.
Os alimentos encontrados em todos os planetas seguiam o mesmo padrão, apesar de nunca terem visto plantações ou fábricas. Alguém abastecia aqueles lugares e podia circular entre eles. Era mais uma prova de que o isolamento havia sido construído.
Ao anoitecer, deitaram-se entre as árvores. As crianças se amontoaram para conservar calor.
Carlos permaneceu sentado, com Clara e Eric apoiados nele.
— Emma, volte para nós — disse antes de adormecer.