Terceiro Lado Fúria das Águas · Capítulo 21 de 51
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Terceiro Lado

— Você alcançou uma condição que eu reconheço — disse Elaryan. — Por um instante, deixou de perceber o Universo como alguém que vive dentro dele. Eu já atravessei algo semelhante.

Eu ouvia, mas não conseguia responder. Meu corpo estava imóvel numa cadeira diante de um mar azul. O sol aquecia minha pele nua.

— Sua morte em Vésper lançou você para uma região onde sua partícula cerebral não deveria chegar. Athos chama as regiões conhecidas de dois lados. Pode chamar esta de terceira, se isso ajudar. Os nomes não tornam o desenho verdadeiro.

Elaryan vestia um biquíni semelhante aos que eu conhecera na Terra. Correu até o mar e mergulhou. O cenário despertava lembranças simples: o cheiro da água salgada, o gosto do próprio hálito, o calor que antes poderia significar férias.

Ela retornou enquanto a temperatura aumentava. Meu corpo suava, mas eu não conseguia sair da cadeira.

— A felicidade raramente obriga alguém a descobrir do que é capaz — disse. — A dor costuma ser mais eficiente.

Elaryan descreveu o que aconteceria se eu continuasse ali. Minha pele queimaria durante o dia, se reconstruiria à noite e voltaria a queimar na manhã seguinte. Enquanto falava, o calor se tornou insuportável.

Consegui mover uma das mãos.

— Viu? Talvez eu tenha dito a verdade. Talvez tenha inventado tudo apenas para produzir esse movimento.

Minha pele começou a arder.

— O maior poder entre duas pessoas não é a água, o fogo ou o controle dos átomos — continuou. — É a comunicação. Quem consegue definir o que o outro teme, deseja ou acredita não precisa mover o corpo dele. Faz com que ele próprio se mova.

— Isso não é poder — consegui dizer com dificuldade. — É manipulação.

— Manipulação é um dos nomes que damos ao poder quando não gostamos de quem o exerce.

Elaryan se afastou. O sol descia, mas a pele dos meus braços já estava ferida.

— Não costumam renascer pessoas neste planeta. Não me pergunte por que você chegou aqui. Deixei você na minha cadeira preferida. Ela é confortável quando não está sob um sol capaz de cozinhar alguém.

Ela desapareceu.

Passei a noite pensando no que dissera. Minha pele se refez conforme a temperatura diminuía. Eu queria me levantar antes que a dor voltasse. Fechei os olhos, tentei ignorar o peso do corpo e adormeci.

Quando despertei, Elaryan estava ao meu lado, lendo uma revista.

— Este povo já morreu e continua preocupado com roupas, unhas, pinturas e pessoas famosas — comentou. — A revista perde valor assim que a moda muda. É um desperdício fascinante.

— Existia algo parecido na Terra.

Elaryan baixou a revista.

— Você já pensou nas roupas com que renasceu? Quem decidiu a forma delas? A mente? O planeta? Alguma estrutura que ninguém percebe? Há perguntas enormes escondidas em detalhes ridículos.

— Você sabe a resposta?

— Sei mais sobre o curso dos acontecimentos do que qualquer pessoa que conheço. Ainda assim, existem perguntas que não respondi. Talvez sejam a única razão para eu continuar procurando.

O vento levou a revista quando ela a soltou. Elaryan começou a caminhar e fez sinal para que eu a acompanhasse.

Levantei. Caí depois de dois passos.

— Tente outra vez. Precisamos sair.

Consegui alcançá-la. O céu se tornou vermelho. Dezenas de corpos luminosos cruzavam o horizonte em nossa direção.

— Esta região reage a existências que não deveriam estar aqui — explicou. — Quanto mais tempo permanecermos, maior será o ataque.

Ela segurou minha mão.

— Já aprendeu o suficiente por hoje.

O céu desapareceu. Voltei à entrada do Palácio de Água, reconstruído como se nada tivesse acontecido.

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