Saindo de Casa
Carlos me acordou com café e uma mesa cheia de receitas criadas a partir do que lembrava dos meus gostos. Leiva, Natane e Raquel ainda dormiam.
— Passei muito tempo imaginando o que prepararia se você voltasse — disse.
Comemos quando as outras despertaram. Ninguém tentou transformar a noite anterior numa promessa. Tinha sido impulso, afeto e vontade compartilhada, não a fundação automática de uma nova relação.
Leiva pousou a xícara antes de terminar.
— Ainda assim, não quero que a gente use a falta de promessa para evitar a conversa.
Natane concordou.
— Carlos e eu nos aproximamos enquanto você estava longe. Isso não desaparece porque você voltou.
— Nem deve desaparecer — respondi.
Carlos não pareceu aliviado.
— Você respondeu depressa.
— Porque não quero decidir por vocês.
— Isso eu sei. Quero entender o que você sente.
Demorei mais dessa vez. Enquanto tentava reencontrá-los, eu repetira tantas vezes a chegada que esperava encontrar a vida no ponto em que a deixara. Voltava agora para uma casa em que todos haviam aprendido a dormir, acordar, cuidar das crianças e tomar decisões sem mim.
— Dói perceber que eu não sei mais qual é o meu lugar — falei. — Mas não quero recuperar espaço empurrando alguém para fora.
Leiva segurou minha mão.
— Toda vez que você parte, eu também não sei em que lugar vou estar quando voltar.
Carlos contou que Clara perguntara se ainda poderia procurar Natane quando tivesse medo à noite agora que eu estava em casa. Nenhuma criança deveria precisar descobrir, sozinha, quais afetos os adultos consideravam permitidos.
— Natane não é uma substituta para Emma — disse ele. — E eu não quero ser tratado como o passado dela que reapareceu para ocupar tudo outra vez.
— Também não quero ser lembrada apenas quando alguém precisa de mim — acrescentou Leiva.
— Quando alguém partir, conversaremos antes — falei. — E conversaremos de novo quando voltar.
Carlos ergueu a xícara.
— Sem promessas permanentes feitas durante um café da manhã.
Concordamos com aquela primeira regra.
Carlos perguntou se poderia viajar conosco.
Demorei a responder. Ele percebeu o motivo.
— Você acha que eu me tornaria uma preocupação.
— Acho que Clara e Eric precisam de alguém em quem confio. E preciso saber que, se eu não voltar, eles não ficarão esperando uma ordem de Elaryan.
— Isso é um pedido ou uma decisão tomada por nós dois?
A pergunta me obrigou a corrigir o caminho.
Expliquei o que sabia sobre Fóster, Athos e as armas. Carlos perguntou sobre os riscos de permanecer em Extern e sobre a possibilidade de Elaryan voltar. Não havia lugar capaz de protegê-los dela, mas a cidade estava distante das ameaças que começavam a se reunir.
Depois de conversarmos, ele escolheu ficar com as crianças.
— Fico agora — disse Carlos. — Se a ameaça chegar até aqui ou se vocês precisarem de nós, decidiremos novamente.
Concordei.
Raquel e Leiva decidiram partir comigo. Natane preferiu permanecer.
— Não é porque me considero inútil — explicou. — Posso ajudar aqui. Quero cuidar das crianças, organizar a defesa e continuar o treinamento da comunidade sem transformar todos em soldados. Também quero viver a felicidade que nunca tive. Se o fim estiver próximo, não aceito que lutar seja a única maneira digna de atravessá-lo.
Beijei-a.
— Eu te amo. Espero voltar para viver isso com vocês.
Repeti as palavras para Carlos. Pela primeira vez, partir não significava que todos precisavam seguir a mesma direção para demonstrar amor.
Reuni o grupo que havia saído com Darca e disse que procuraria Athos. Pedi que a maioria permanecesse. Darca recusou a proposta.
— Passamos tempo demais esperando você decidir por nós. Não quero voltar a uma cidade protegida sem saber o que existe além dela. Se eu for, será porque escolhi.
As outras concordaram. Creteas também decidiu acompanhar o grupo, deixando a organização da cidade com Natane e um conselho formado por quem preferiu ficar.
Olhei para as mulheres reunidas. Não eram um exército meu. Algumas tinham poucos poderes, outras eram mais fortes do que eu compreendia, e todas possuíam motivos próprios para atravessar o portal.
— Fóster é um ponto de encontro, não uma missão — avisei. — Athos pode nos receber como aliados ou como ameaça. Elaryan me usou para tentar levar Adwig. Ninguém deve entrar esperando obediência ou gratidão.
— Você tem duas armas místicas — disse Leiva. — Isso garante que ele ouvirá antes de atacar.
— Garante apenas que chegar armada pode assustá-lo.
Mantive as armas visíveis. Não queria que nossa primeira declaração fosse ocultá-las.
Pensei em Fóster, nas informações dadas por Elaryan e nas pessoas que desejava encontrar. A Varunastra respondeu à Lança do Destino, e o portal se abriu com menos esforço.
Depois atravessamos.