Completamente Sozinha
Havia um planeta inteiro e apenas eu nele. Caminhei sem rumo enquanto as cenas do Castelo voltavam: Leiva presa à lança, as mulheres sob a queda d’água, minha ordem e todos os corpos desaparecendo. Perguntava-me se alguma escolha diferente teria salvado alguém.
Depois de perder qualquer noção confiável de dias ou horas, joguei-me à margem de um lago. Tentava conversar com Namos e já nem o sentia dentro de mim. Ele havia se recolhido depois da morte de todas, e eu não sabia se estava exausto, assustado comigo ou sofrendo do próprio jeito.
Procurei por algas e encontrei apenas água, pedras e uma margem vazia. Aparentemente, todas haviam desaparecido no processo anterior, deixando o planeta ainda mais desprovido de sinais de vida. Adormeci sem saber se o corpo pedia descanso ou se minha mente apenas desistia por algumas horas de continuar acordada.
O que aconteceu em seguida podia ser sonho, delírio ou realidade. Um homem alado materializou-se ao meu lado. Vi primeiro seus pés, depois a silhueta contra o Sol. Parecia uma figura retirada de alguma lembrança religiosa que eu nunca levara tão a sério.
— Emma, você está péssima. Levante-se, porque vai querer estar de pé quando suas amigas chegarem aqui — disse uma voz masculina, tão próxima que meu corpo estranhou antes da minha mente.
Fazia tanto tempo que eu não escutava a voz de um homem de perto que tive certeza de estar sonhando. Não movi um músculo. Talvez, se permanecesse imóvel, aquela aparição se desfizesse sozinha e eu pudesse voltar à solidão conhecida, que pelo menos já não exigia resposta imediata.
— Me chamo Athos, muito prazer. Vamos, você acha que estou brincando? Às vezes consigo ver o futuro, e já vi que você reencontrará todas que estiveram aqui com você. O futuro pode ser mudado, eu posso tentar alterar o que vi, porém não farei isso agora. Portanto, sem querer parecer grosseiro, temos pouco tempo.
A fala dele vinha atropelada, cheia de certezas absurdas, e ainda assim a urgência parecia sincera. Continuei desconfiando do sonho até ele controlar a água do lago e lançar um jato direto no meu rosto. Engasguei, tossi e senti a garganta arder. Aquilo era real o bastante.
— Tudo bem, entendi — falei, ainda tossindo, com água presa na garganta e dignidade nenhuma sobrando. — Agora me explica melhor essa história. Você vai reviver as guerreiras?
Eu disse que havia entendido, embora não tivesse entendido quase nada. Athos explicou que não as reviveria, porque elas já estavam vivas em outro planeta. Tinham renascido juntas em Paros, um mundo de vento, água e gelo, no estágio de evolução chamado nível três, preso no meio de uma grande guerra. Foram usadas e caminhavam para outra morte, consequência da destruição iminente do planeta.
Athos pretendia evitar aquilo. Quando as trouxesse, estariam feridas, cansadas, sem força e com corpos diferentes, dependentes de alimentação e cuidados físicos que antes talvez não fossem urgentes daquele modo. Criaria estruturas com o melhor que pudesse extrair daquele planeta para que, enquanto estivesse fora, eu cuidasse delas e as preparasse para um confronto maior.
— Contra aquele homem que lutou comigo por meio da Rainha? — perguntei, interrompendo a explicação antes que ela crescesse demais para caber no meu medo.
Athos respondeu que Poseidon devia ser o homem de quem eu falava. Acreditava que lutaríamos contra ele, embora ainda precisasse descobrir quem estava acima. O peso em seu rosto dizia que ignorar uma resposta lhe incomodava mais do que admitir o próprio limite.
Ele começou a mover as mãos e a sinalizar. Só então percebi outras três pessoas ao longe, posicionadas em direções diferentes. Uma delas soltava raios pelas mãos, enquanto as outras duas seguravam, cada uma à sua maneira, os elementos que Athos jogava e transformava.
Dessas interações surgiram árvores de tipos variados, flores e frutos. Do outro lado, uma nuvem se formou, depois névoa, e abaixo dela uma montanha de gelo. Casas começaram a nascer, feitas de materiais que não existiam em Neon. Pequenos animais apareceram também, lindos e estranhos.
Athos parou e caiu de joelhos. Em poucos saltos, os outros três chegaram até nós. Eram duas mulheres e um homem. As mulheres transferiram alguma energia para ele, e Athos conseguiu se levantar.
Ele explicou que usara energia demais e levaria muito tempo para se recuperar sem ajuda. Silency e Sussurro lhe transferiram uma parcela capaz de se multiplicar durante a passagem entre pessoas, permitindo recuperação após o que chamou de uso entrópico. Eu nunca gostei de física ou química, e a expressão me pareceu uma resposta em outro idioma.
Athos percebeu minha confusão e simplificou. O planeta agora estava em condições de receber minhas amigas, ele estava em condições de salvá-las, e eu precisava ficar em condições de cuidar delas. Quando retornasse, seria com todas. Ficaria pouco tempo e traria outro reforço em breve.
Antes de partir, disse que contava comigo e pediu que eu esquecesse a história de Salvadora e profecia. Segundo ele, cada pessoa construía o futuro a seu modo, e conhecê-lo já podia modificá-lo. Eu seria o que quisesse e o que pudesse, aceitando apenas responsabilidades que escolhesse carregar. Gostei de ouvir aquilo, embora percebesse a ironia: até quem me libertava de uma profecia dizia qual deveria ser minha relação com ela.
Athos desapareceu antes que eu perguntasse se era deus, anjo, viajante ou qualquer outra coisa que coubesse em palavras antigas. Eu também não perguntei como lera minha mente, talvez porque, depois de tudo o que ele fizera, ler pensamentos parecia quase discreto.
Fiquei diante de um planeta transformado. Pelo menos aquela grande região havia perdido o ar triste e mórbido. Havia água, árvores, gelo, casas, animais e uma possibilidade de vida ainda distante da felicidade, capaz de interromper a lógica do abandono.
Então um pensamento encantado com os pequenos animais surgiu na minha cabeça. Não era meu. Namos voltava a se comunicar comigo, ainda cauteloso.
Os animais pareceram notá-lo. Aproximaram-se do lago, cheiraram-me, investigaram a margem e pularam na água. Namos saiu de mim e saltou para brincar com eles. Pela primeira vez, deixei que se afastasse sem sentir que o perdia.
Despi-me e entrei na água também. Viver em um planeta de água sem tomar banho por tanto tempo parecia uma contradição absurda. Relaxei pela primeira vez desde que chegara ali. Brinquei com os pequenos animais e com Namos, recebendo jatos de água de volta.
Quando saí, todos me seguiram como se eu fosse mãe deles. Vesti-me e caminhei até as construções criadas por Athos. Dentro delas, encontrei estruturas que lembravam versões futuristas de coisas da Terra: mesas, sofás, cadeiras, camas, objetos úteis demais para um planeta que minutos antes parecia feito apenas de perda.
Voltei para o lado de fora. Um raio gigantesco surgiu no céu, e de um portal enorme começou a vir o povo de Neon: as Gigantes, as Mileniuns e as guerreiras. Estavam diferentes, transformadas por outro corpo e outra morte, mas reconheci todas. Quando vi Leiva, corri para abraçá-la sem pensar em mais nada.
Athos repetiu que eu deveria cuidar delas e apresentar aquele novo planeta maravilhoso, agora distante da imagem de inferno que me recebera. Avisou que retornaria em breve. A alegria era imensa, quase grande demais para caber no corpo, e elas precisavam de ajuda. Eu enfim tinha algo concreto a fazer com a minha solidão.