A Escolhida Fúria das Águas · Capítulo 4 de 51
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A Escolhida

— Precisamos levar a garota até a Rainha, logo, Leiva! — disse Benita.

A voz dela cortou a conversa com a pressa de quem já tinha visto atraso virar punição. O grupo parou. As mulheres se olharam, cada uma medindo a outra por um segundo, e eu fiquei no meio delas sentindo que meu nome tinha sido retirado da minha boca antes que eu mesma soubesse o que faria com ele. Ao redor, a água parada do lago segurava a luz fraca das duas estrelas, e o vento passava rente à pele com cheiro de pedra molhada. Eu procurei o rosto de Leiva. Ela estava calma demais para alguém que acabara de ouvir ordem, ameaça e destino na mesma frase.

— Leiva, eu vou. Já entendi que ficar aqui parada não muda nada.

Falei antes de me arrepender. A frase saiu mais firme do que eu estava por dentro, e isso me assustou um pouco. Krata fez um barulho de deboche com a garganta, desses que a pessoa usa quando quer dizer muita coisa sem gastar palavra. Leiva me olhou com uma atenção quase carinhosa, tocou meu rosto com os dedos frios e demorou um instante, talvez para ver se eu estava decidindo ou apenas obedecendo ao medo. Naquele lugar, eu ainda não sabia a diferença. A morte tinha acabado de me devolver, a água tinha acabado de me engolir de outro jeito, e uma rainha que eu nunca tinha visto já mandava buscar por mim.

— Certo. Então vamos levá-la pelo centro da cidade até o castelo de água. Pegamos a rota das quedas. Se a Rainha ficar mesmo com ela, talvez seja a última diversão que essa coitada vai ter por aqui.

A simples menção da rota das quedas acendeu as mulheres ao meu redor. O medo delas continuou ali e mudou de roupa por alguns segundos. Anna, que vinha quieta desde que eu acordara, deu um meio sorriso. A pele dela tinha um brilho escuro, bonito de um jeito sério, e os olhos pareciam gostar demais de confusão.

— Rota das quedas? Então bem que podia cair mais condenada por aqui. A gente anda precisando de passeio.

Kinerta riu primeiro. Foi uma risada curta, nervosa, e recebeu um tapa atrás da cabeça antes de crescer. Benita tinha a mão grande e pouca paciência. Ela ajeitou a lança no ombro, olhou para Shanera e depois para mim, com a expressão de quem já tinha aprendido que alegria demais, naquele mundo, costumava chamar cobrança.

— Controle-se. Não tenho paciência para esse tipo de gracinha.

Começamos a caminhar. Eu ia entre Leiva e Krata, vigiada sem disfarce, enquanto Benita seguia um pouco à frente e Shanera vinha atrás, assobiando baixo uma melodia que parecia ter sido inventada durante alguma espera muito longa. O chão era úmido e irregular. Havia pedras negras, plantas rasteiras grudadas nas frestas e construções baixas feitas de um material claro, duro, com brilho de osso lavado. Algumas mulheres nos observavam das entradas das casas, sérias, curiosas, famintas por novidade. Em muitos rostos havia uma beleza quase ofensiva, e isso me trouxe uma vergonha boba. Eu lembrei do meu corpo de antes, da minha pele cansada, dos meus cabelos sem cuidado, do rosto que eu já evitava encarar em espelho muito antes de morrer.

Parei perto da borda do lago mais próximo e me inclinei. Queria ver em que tipo de mulher a morte tinha me colocado. A água estava lisa, sem lama, sem espuma, sem vento suficiente para quebrar sua superfície. Mesmo assim, nada voltou para mim. Vi o fundo escuro, uma pedra comprida, a sombra de uma planta, o vulto das outras mulheres atrás de mim. Meu rosto não apareceu. A ausência me deu um aperto que eu não esperava. Era uma coisa pequena diante de tudo, ridícula até, e por isso mesmo doeu. A pessoa morre, acorda em outro planeta, descobre que perdeu marido, filhos, casa, mundo, e ainda assim sente falta de saber se está com cara de gente.

— Olha só pra ela — disse Krata. — Ficou doidinha de vez. Tá encarando a água feito bicho querendo morder.

— Eu só queria ver meu reflexo. Queria saber como estou. Vocês são todas tão bonitas que eu pensei que talvez fosse alguma coisa daqui. Por que a água não mostra a gente?

Leiva se aproximou devagar. O rosto dela perdeu um pouco da leveza. As outras também ficaram mais quietas, e isso me avisou que eu tinha encostado em uma ferida comum. Em vez de responder logo, Leiva olhou para a superfície do lago, para o lugar vazio onde o rosto dela também deveria aparecer.

— Esse é um dos castigos de Neon. O mundo melhora o corpo de acordo com desejos que a pessoa carregou na vida anterior. Corrige detalhes que incomodavam, aumenta força, beleza, resistência. Depois tira de você a chance de conferir o resultado. Nenhuma de nós vê o próprio rosto. Nem na água, nem em pedra polida, nem em nada que devolva luz. A aparência vira notícia dada pela boca dos outros.

Aquilo me deixou sem reação. Eu ainda sentia o toque da água destilada na garganta, a ardência do primeiro gole, o beijo de Leiva me arrancando de dentro de uma tontura perigosa, e agora precisava aceitar mais essa regra. As mulheres ao redor continuaram andando. Nenhuma perguntou como era o próprio rosto. Pensei no meu marido, na forma como ele me olhava quando eu saía do banho enrolada numa toalha velha, sem nenhum glamour, e ainda assim me fazia sentir bonita. Apertei os dedos contra a palma da mão até as unhas doerem.

— Também não existem homens aqui — continuou Leiva, voltando a andar. — Só mulheres. Algumas vieram de mundos onde isso nunca foi problema, outras trouxeram desejos, costumes e saudades que continuam doendo. A morte muda o lugar da pessoa, Emma. Não arranca tudo que ela carregava.

Eu caminhei em silêncio. A cidade se abria devagar, pobre e estranha. Havia poucos objetos. Pouca ferramenta. As casas pareciam mais brotadas do chão do que construídas por mãos. Leiva apontou para algumas estruturas e explicou que Neon tinha recursos limitados. Quase nada de madeira, quase nada de metal, nenhuma tecnologia parecida com a que eu conhecia. A vegetação rasteira servia para cobrir pedra, segurar umidade, alimentar pequenos organismos que eu mal conseguia distinguir. Para nós, nada. O corpo não aceitava comida. Quem tentava comer sentia dor, passava mal, morria, voltava. A fome ficava, seca e teimosa, uma lembrança do corpo anterior que o novo corpo se recusava a resolver.

Leiva contou de uma ogra de uma cidade distante, uma mulher enorme que arrancara os braços de outra durante uma briga e tentara devorá-los. Krata riu da parte em que a ogra mastigou a carne com raiva e depois caiu se debatendo no chão, envenenada pelo próprio absurdo. Benita mandou a velha calar a boca. A mulher devorada voltou depois, com os braços refeitos, e a ogra também voltou, berrando de fome e humilhação. Leiva contou aquilo sem enfeitar. Na boca dela, a história virava aviso. Em Neon, até a morte tinha virado uma porta giratória. A pessoa saía quebrada, entrava quebrada de novo e seguia devendo alguma coisa ao dia seguinte.

— Além de nós, as algas são as criaturas que mais importam por aqui — disse Leiva. — Se uma delas tocar sua pele, a dor pode derrubar sua mente por dias, semanas ou anos. Algumas acordam. Algumas ficam presas no próprio grito por tempo demais. A Rainha controla essas coisas. É assim que ela mantém todo mundo no lugar.

Eu lembrei da palavra rainha e senti raiva dela antes de conhecê-la. Talvez fosse injusto. Talvez fosse instinto. Uma mulher que mandava buscar alguém recém-morta sem explicar nada já começava mal comigo. Ainda assim, cada frase de Leiva fazia a Rainha crescer no meu pensamento. Ela criava armas, controlava algas, decidia destinos, guardava o castelo. As outras falavam dela com medo, respeito, necessidade e um tipo de adoração cansada. Eu conhecia esse tipo de mistura. Na Terra, muita gente chamava de fé aquilo que começava como falta de opção.

O caminho mudou quando saímos das casas. O chão inclinou, o ar ficou mais úmido, e o som das quedas apareceu antes da paisagem. Primeiro veio um rumor grave, depois um estrondo dividido em muitas vozes. Quando chegamos à borda, eu vi a água fazendo o que água nenhuma deveria fazer. Ela descia, subia, virava no ar, quebrava em túneis, voltava a se juntar e caía de novo em curvas enormes. As duas estrelas batiam naquela massa viva e arrancavam cores que meus olhos ainda não sabiam separar. Pela primeira vez desde que acordei em Neon, tive vontade de entrar na água. Eu ainda estava apavorada, perdida, viúva, morta e viva ao mesmo tempo, mas me aproximei da borda.

Leiva sorriu ao perceber minha reação. Shanera já tinha largado a seriedade e alongava os braços, pronta para pular. Kinerta pulava no mesmo lugar feito criança. Benita mantinha a postura dura, embora seus olhos denunciassem uma vontade parecida. Krata, para minha surpresa, tirou os sapatos com uma pressa ridícula.

— É aqui — disse Leiva. — A rota das quedas. Aproveite.

Uma por uma, elas saltaram. Os corpos sumiram na espuma, reapareceram em outro ponto, foram levados por corredores de água e lançados para uma margem distante com uma precisão quase alegre. Eu fiquei sozinha na borda por alguns segundos. O desfiladeiro respirava diante de mim. Pensei nos meus filhos correndo na areia, no barco, no mar que arrancou tudo, na água entrando pelos meus pulmões quando escolhi acabar. Quase recuei. Então vi Leiva surgir na outra margem e quis sentir alguma coisa que não fosse perda.

— Vamos, Emma! Não pense demais! — gritou Leiva lá de baixo.

Pulei. O ar bateu no meu rosto, frio, forte, e a queda engoliu meu medo por um instante. A água me recebeu com violência macia. Fui puxada para baixo, jogada para cima, virada de lado, empurrada por passagens estreitas, e a correnteza parecia testar meu corpo novo. Eu gritei, e o grito se perdeu no barulho das quedas. Talvez eu tenha rido. Talvez tenha chorado. Naquele tumulto, as duas coisas tinham o mesmo gosto de sal. Então percebi que as outras já tinham saído.

Vi Leiva na margem, pequena pela distância, com o corpo inclinado para frente. Vi Benita erguer a lança. Vi Shanera parar de rir. A água ao meu redor deixou de brincar. Fechou-se em círculo. Tentei nadar para fora, e a corrente me devolveu ao centro com uma força tranquila, educada demais para ser natural. Meu estômago gelou. No fundo daquele redemoinho, uma coisa verde se soltou da pedra e subiu devagar.

Era uma alga. A superfície brilhava em verde e azul, e pequenos filamentos se moviam ao redor dela com intenção própria. Eu lembrei do aviso de Leiva. Dor por dias, semanas, anos. A Rainha. O controle. Tudo aquilo veio junto, rápido demais. Tentei puxar o braço, bater as pernas, gritar por ajuda, qualquer coisa. A água segurou meus movimentos. A alga parou a poucos centímetros do meu rosto. Eu deveria ter fechado os olhos. Não fechei. Ela tocou meu nariz. A água ao redor ficou imóvel.

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